Show Magazine

Exclusivo: Uma Entrevista com o gênio – Parte Final

Com exclusividade, o Blog Chaplin traz a entrevista que Charles Chaplin concendeu à Revista Show, com tradução de Almir Gomes, nosso colaborador.

A matéria é histórica: conta com detalhes como se encontrava o Chaplin que estava no fim da vida. Cada descrição nos faz sentir em diversos momentos, como se estivéssemos na mesma sala, entre Charlie e Willian Wolf, o entrevistador.

Devido ao tamanho da entrevista, dividiremos a mesma em três partes. Boa leitura!

Final – A Entrevista

Chaplin fala da sua relação com os EUA e os primórdios do Cinema

Pergunta. Será que o fato do governo dos EUA impedir a sua volta terá algum efeito na sua produção de filmes?

Chaplin: Eu acho que não. Não. Isto não me deixou amargurado. Sou introspectivo e eu pensei, bem, uma guerra estava acontecendo e eles ficaram aterrorizados com comunismo. O povo do FBI perguntou porque eu segui a linha do partido. Eu disse, ‘Se você me disser que linha do partido é, eu vou te dizer se eu sigo-o ou não. “Eles não podiam acreditar que eu não era comunista. Ah, sim, eu era simpático a qualquer um que estava quebrado e precisava de ajuda. Isso é toda a política na qual me envolvi.”

Pergunta. Por que até agora você nunca permitiu que Um Rei em Nova York fosse mostrado na América?

Chaplin: Ah, porque é um pouco forte, mesmo agora, quando você pensa em todas as ramificações políticas. É um pouco difícil de engolir. Mas eu não fiz isso com qualquer amargura. Ele tem um ótimo desempenho do meu filho Michael e há muitas coisas boas naquele filme. Se um filme dar oportunidade para invenção, eu agarro-a e não me importo que diabos de consequências terá. Nós zombamos de um monte de coisas como a educação progressiva e o enredo desviou-se naturalmente em relação a este rapaz que o FBI estava tentando pressionar para informar sobre seus pais. Mas eu não aceitaria qualquer idéia a menos que houvesse uma grande comédia nele. Eu não sou um panfletário. Eu me diverti muito, e essa é a única coisa que eu estou interessado.”

Pergunta. Quais são algumas de suas lembranças do inicio do cinema?

Chaplin: Os filmes não eram pretensiosos e não custavam milhões. Fizemos um filme por US$1000. Se você passasse disso, eles queriam saber o que você estava fazendo. Eu lembro que fiz uma dos filmes de maior sucesso da minha carreira, “Dinamite e Pastel”, e foram duas bobinas, e eles queriam que eu o fizesse em uma bobina. Mack Sennett foi uma grande influência. Aprendi toda a minha comédia dele. Ele ria das coisas que eu fiz, e eu pensava, bem, não é tão engraçado, mas ele achava engraçado, e ele me deu muita confiança. Eu gostava dos velhos tempos na Califórnia, quando Thomas Ince e Sennet estavam por perto.”

Em um certo ponto a entrevista foi interrompida quando Chaplin deixou a sala ao saber que sua filha, Annie, havia quebrado o tornozelo em um acidente de esqui. Seu filho, Christopher, 8, voltou com ele por alguns instantes, e disse que sua irmã estava se sentindo melhor agora. “Eu não iria esquiar de novo por nada“, brincou Chaplin, enquanto acomadava-se em sua cadeira com dificuldade.

Durante a conversa houve referências esparsas quanto ao seu bem-estar financeiro, levando à conclusão de que sua riqueza era extremamente importante em sua auto-avaliação.  Em um determinado momento ele disse: “É muito bom acabar neste lugar de luxo. Para um menino pobre entrar em tudo isso é muito bom, muito reconfortante” Perguntado se ele tinha alguma filosofia particular sobre o dinheiro, Chaplin respondeu: “Não, não, não. Isso surgiu de uma maneira jocosa. Um homem, um repórter na Inglaterra, disse: “Nós entendemos que você gosta de dinheiro.” Eu disse, ‘Bem, tenho que a excentricidade do gênio – dinheiro e mulheres’ Ele disse: ‘Por que você diz isso?’ e eu disse: ‘Porque é importante, eu odiaria ser velho e sem dinheiro.”

Tem havido muitos relatos de discussões de Chaplin com alguns de seus filhos em seu grande clã familiar. Ele não era relutante em expressar sua opinião sobre Victoria, a quem chamou muito bonita, mas também chamou de “idiota” porque ela não atendeu o seu conselho e se casou com um palhaço de circo. Ele era arrebatador sobre Geraldine, que, segundo ele, “era turbulenta, quando ela era criança, mas ela desenvolveu essa doçura maravilhosa, e ela é muito divertida, muito interessante e muito gratificante”. Ele estava satisfeito porquê sua filha, Josie, havia se casado bem, de acordo com ele, e ele fez questão de ressaltar que seu marido, “um bom rapaz grego,” era um negociante de peles. Apontando para as peles em uma cadeira, ele disse: “A família recebe todas as nossas peles dele.” Referindo-se ao seu filho, o ator Sydney Chaplin, o diretor e a estrela chamou-o “um homem muito engraçado” com evidente prazer em seu trabalho, mas critica-o por não levar nada a sério “como eu faço.”

Ele era quase reverente em relação ao seu relacionamento com sua esposa Oona, filha do dramaturgo Eugene O’Neill. “Pura sorte” foi a maneira como ele descreveu ter sido casado com uma mulher mais jovem. Eu não sei o que faz disso uma sorte, mas faz.”

Saí da conversa com Chaplin desejando muito que eu o houvesse encontrado anos antes, para que eu pudesse comparar como ele era, antes com a sua personalidade agora. Sua reputação está em seus filmes, é claro, e não na opinião de alguém sobre ele como pessoa. Mas ele causou uma impressão agradável, pois o senso de humor estava fortemente lá, ele foi gentil e hospitaleiro, e ele tinha uma espécie de ar de velho estadista de artes sobre ele. Uma observação rápida o forte ego que as pessoas ha muito tempo têm falado.

O firme conhecimento de que seus filmes são reverenciados parece dar-lhe a força para aceitar a sua idade avançada filosoficamente. Ele sabe que muito tempo depois que ele tiver ido embora as pessoas vão estar rindo alegremente ao saborear seus filmes. Mas, dentro dele também parece ser o desejo de fazer mais um filme, uma vez que ele luta contra a ideias de aceitar que o seu trabalho, tão grande como é, julgada, deva estar concluída.

Sua viagem para a América foi extremamente importante para ele, embora ele tenha escolhido para centrar a sua vida em outro lugar. Afinal, foi nos Estados Unidos que o artista, nascido no Reino Unido, teve seus maiores triunfos. Agora que as honras foram dadas a ele, o país está novamente apreciando as realizações de Charlie Chaplin.  Por isso ele sobreviveu ao Macartismo.

Exclusivo: Uma Entrevista com o gênio – Parte II

Com exclusividade, o Blog Chaplin traz a entrevista que Charles Chaplin concendeu à Revista Show, com tradução de Almir Gomes, nosso colaborador.

A matéria é histórica: conta com detalhes como se encontrava o Chaplin que estava no fim da vida. Cada descrição nos faz sentir em diversos momentos, como se estivéssemos na mesma sala, entre Charlie e Willian Wolf, o entrevistador.

Devido ao tamanho da entrevista, dividiremos a mesma em três partes. Boa leitura!

PARTE II – A Entrevista

Chaplin fala sobre suas pretenções em rodar um novo filme – coisa que não aconteceu, infelizmente.

Pergunta. Você ainda tem esperança de fazer outro filme?

Chaplin: “Eu tenhouma história chamada The Freak, que eu não consegui vender. É uma história maravilhosa, localizada em uma faixa ao longo da América do Sul. Ela começa de uma maneira muito interessante. Um homem está em uma casa bem na borda de um precipício. Seu amigo vai embora, ele vai para a cama. De repente ele ouve um grito terrível durante a noite, parece estar vindo de sua janela. Ele não consegue saber de que se trata.

Então, ele ouve um solavanco e percebe que algo está sendo atacado, então ele vai até telhado lá é muito menina com asas, que está sendo atacada por águias. Naturalmente, esta é uma parte maravilhosa para a garota. Ele se aproxima dela pergunta: Você machucou suas asas, ou algo assim?” ela vai… (Nesse ponto Chaplin requintadamente imitava movimentos de agarrar uma criatura, antes de continuar, triste.) Mas tudo isso acabou agora.”

Pergunta. Você acha que você poderia fazer o filme?

Chaplin: “Ah, sim, eu poderia fazer isso maravilhosamente. Eu conheço toda a mecânica e tudo mais. A única coisa que eu quero é uma câmera de mão. Essa é a desvantagem da idade moderna. Tudo é tão mecânico e assim por diante. Mas eu comprei este aparelho mecânico, somente as asas se movem muito lentamente. Eles devem ir assim,  você vê.” (Ele agitava os braços com uma rapidez incrível.)

Pergunta. O que você acha dos filmes de hoje?

Chaplin: Eu não acho que eles se comportam como o meu. Eu sou muito franco em dizer isso. Eles não têm nenhum mérito. Eles são tolos, se artistas tiram suas roupas – bem, tudo bem, mas eu diria que é o que eu desaprovo sobre cinema moderno. Qualquer queridinha pode chegar e tirara roupa, e ela é interessante para público médio. Mas eu trabalhei dei um duro danado para fazer um filme, e tudo que fiz foi com amor, com meu coração e alma, com um entusiasmo incrível. Pode-se dizer que o meu trabalho tinha invenção. Eu não considero que sou um gênio. As coisas vêm difíceis para mim. Eu acho que elas devem vir mais fáceis para outras pessoas.

“Devo dizer sobre o filme moderno que há muito pouco censura. Eu não acredito em uma politica de censura tanto quanto em certas restrições. Acredito que eles devam incentivar a invenção. Mas eu acho que deveria ser o cineasta quem exerce as restrições. Tínhamos o escritório Breen. Um cineasta de hoje não tem de aturar tanto quanto isso. De certa forma foi bom, em alguns aspectos, era ruim e tolo. Você iria passar por um monte de bobagens preconceituosas. Mas, ao mesmo tempo, houve a restrição de que todo o desempenho de entretenimento deveria ter porque sem ela, você teria em um strip-tease ou algo assim.”

continua…

Parte 3

Exclusivo: Uma entrevista com o gênio – Parte I

Com exclusividade, o Blog Chaplin traz a entrevista que Charles Chaplin concendeu à Revista Show, com tradução de Almir Gomes, nosso colaborador.

A matéria é histórica: conta com detalhes como se encontrava o Chaplin que estava no fim da vida. Cada descrição nos faz sentir em diversos momentos, como se estivéssemos na mesma sala, entre Charlie e Willian Wolf, o entrevistador.

Devido ao tamanho da entrevista, dividiremos a mesma em três partes. Boa leitura!

PARTE I – Introdução

Introdução à entrevista de Chaplin, de 1972

A América, às vezes tem sorte. Se Charlie Chaplin tivesse morrido durante as últimas duas décadas, os Estados Unidos ganharia a reputação de ter barrado permanentemente em seu território, um dos grandes cineastas do século 20. “Eu sou mais velho do que Deus,” Chaplin diz agora na idade de 83 anos, e sua vida à uma idade madura deu a América uma oportunidade para pelo menos fazer algumas correções na maneira como ele foi tratado.
Os elogios para o retorno de Chaplin já acabaram. Ele foi homenageado com brinde, vinho, jantar e até mesmo premiado no Oscar. O que pode ser menos dramático, mas no longo prazo, irá revelar-se mais significativo, é que suas longas metragens estão recebendo uma nova rodada de exposição ampla. Uma nova geração, muitos dos quais, embora cinéfilos, não viu as maiores obras de Chaplin, está olhando para eles agora – Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Monsieur Verdoux. Fãs antigos estão reafirmando sua crença de que a arte de Chaplin é do tipo que perdura para além da mera evolução da moda no mundo do cinema.
Quanto ao próprio homem, o público se choca ao renovar a experiente familiaridade com ele. Ainda ágil no humor e capaz de falar de maneira incisiva sobre seus filmes, ele demonstra, contudo, os sinais da idade. “Minhas pernas não são mais tão boas agora“, diz ele sobre suas pernas, ele muitas vezes tem dificuldade para lembrar, fala pausadamente, se cansa facilmente, “deve dormir bastante“, e, geralmente, anseia por tranqüilidade. No entanto, Chaplin também alimenta o desejo de fazer outro filme. Ele mostra entusiasmo ao descrever o que ele quer fazer, mas há também dica de que o reconhecimento de seu trabalho pode ter que ficar no que foi realizado até agora. Ele está seguro no conhecimento de que seus filmes pertencem ao mundo no espírito, se não em termos financeiros. Ele é conhecido por ser um negociador duro quanto aos filmes que ele controla. “Só muito recentemente é que eu permiti que meus fossem exibidos tanto quanto eu poderia“, o reconhece. “Quando eu morrer, eles serão algo para deixar para os meus filhos.”

Eu experimentei uma pre-estréia do Chaplin que a América encontrou em seu retorno triunfal, em abril. Quando nos sentamos pouco antes de sua viagem na extensa e de teto alto sala de estar, da sua casa, em Manoir de Ban, em Vevey, na Suíça, eu ponderei o choque que o público teria ao ver em primeira mão o que teria acontecido com o amado vagabundo. No caso de Chaplin, a idade faz um particular triste contraste. Ele era conhecido na tela por sua agilidade surpreendente e magnífica destreza com que ele pudesse fazer seu corpo fazer qualquer coisa necessária para um giro engraçado ou um gesto comovente. “Às vezes eu me pergunto como eu mesmo fiz algumas dessas coisas, ele riu durante as duas horas de nossa conversa. Era fascinante vislumbrar isso em termos de movimentos bruscos de gestos que permanecem à sua disposição. De repente, no meio da conversa, ele estalaria os dedos, palpitaria seus ombros, ou dramatizaria uma coisa, e a inundação de memórias de Chaplin velhos tempos voltavam.

Nossa conversa variou de seus filmes às suas atitudes em relação aos membros da sua família, e contou sobre a situação política que fez-lhe “exilar-se” dos Estados Unidos. Aqui você encontra o que Chaplin tinha a dizer sobre uma variedade de assuntos.

continua…

Parte 2