Poesia

Working girl... Italian actress Giulietta Masina stars in Nights of Cabiria (1957), the movie opening the 2011 season of the Queenstown Film Society, on May 3.

Ecos de Chaplin: “Noites de Cabíria”, de Federico Fellini

Por Diogo Rossi Ambiel Facini

             Cabíria é uma prostituta que habita a periferia de Roma e segue todas as noites à região central da cidade, em busca de sustento. Cabíria é forte e determinada, aprendeu com os desamparos da vida; é esperta e desconfiada, sabe que as pessoas têm interesses e podem agir em função deles; é viva e destemida. Mas Cabíria também é amor, Cabíria também é poesia. Por traz de sua casca necessária, pode ainda haver a esperança da juventude. Cabíria ainda é sonho.

          “Noites de Cabíria” é um filme de 1957, dirigido pelo grande diretor italiano Federico Fellini, e estrelado pela atriz Giulietta Masina (também sua esposa), que já havia interpretado a artista circense Gelsolmina no também clássico “A Estrada da Vida”, de 1954 (já comentado nesta seção, veja em http://blogchaplin.com/2015/03/01/aestradadavida/). “Noites de Cabíria” é o último filme realizado pelo diretor antes de alcançar projeção e reconhecimento internacionais com “A Doce Vida”, seguido de “8 e ½”, seus filmes mais conhecidos. Um pouco ocultado pela fama desses trabalhos anteriores, “Noites de Cabíria” é talvez a grande obra dessa sua primeira fase. Mesclando elementos realistas e poéticos, o filme é também, em conjunto com “A Estrada da Vida”, aquele em que a presença e influencia da obra de Charles Chaplin aparecem com mais intensidade (e beleza).

Cabíria em suas noites.

             O filme apresenta a célebre personagem Cabíria em suas perambulações e encontros pela cidade de Roma. Apesar de ser uma pessoa vivida e esperta, Cabíria mantém parte de sua inocência, e o início do filme representa essa condição: em um encontro com seu namorado, este a joga no rio e roupa o seu dinheiro, levando-a quase à morte por afogamento. Cabíria é esperta, mas pode abrir exceções em sua desconfiança e levar pequenos tropeços em sua estrada. Em certo sentido Cabíria marca uma evolução da personagem anterior da atriz Giulietta Masina com Fellini, Gelsomina, que era quase que completa pureza e inocência. Cabíria conserva algo dessa qualidade, mas aprendeu um pouco com as desilusões. Um pouco. Esse equilíbrio entre inocência e sobriedade, entre pureza e certo ceticismo é uma das aproximações que podemos fazer entre Cabíria e Carlitos, principalmente o Carlitos mais desenvolvido dos últimos curtas e dos longas mudos de Chaplin. Cabíria, assim como Carlitos, pode se apaixonar e fazer tudo pelo amor, mas não deixa de utilizar as suas espertezas para seguir em frente no jogo da sobrevivência.

Federico Fellini ao lado do futuro diretor Pier Paolo Pasolini, que foi um dos roteiristas do filme.

           Fellini apresenta os fatos e o desenrolar do filme em uma abordagem realista, ainda bastante influenciada pelo movimento cinematográfico do neo-realismo italiano, muito influente nas décadas de 40 e 50. Mas devemos destacar que não se trata de um realismo em sentido estrito, “duro”, mas situado em um estilo todo próprio do diretor, que já se distanciava do neo-realismo em direção a um estilo tão seu que levaria um nome, o seu nome (feliniano). De certa forma, essa característica poética se relaciona com a própria apresentação de Cabíria, que mescla a necessidade de ser dura perante a sua posição social e uma força de ser pura que ultrapassa todas as barreiras. Nesse sentido, uma cena (uma das mais bonitas do filme) é exemplar.

         Cabíria se dirige a uma espécie de teatro de variedades, onde se apresentava, no momento, um hipnotizador. Ele primeiramente realiza um número com alguns homens, que são levados a crer que estão em um navio prestes a afundar e agem desesperadamente, para a alegria da plateia. A seguir, o hipnotizador chama Cabíria para o palco. Cabíria tenta recusar, mas acaba cedendo, e em poucos instantes está hipnotizada, em uma sequência que mistura sonho, realidade e um tanto de esperança. Ela pensa que está em um encontro com um pretendente amoroso. Colhe flores, anima-se com um possível interesse do outro, entrega ao público uma nova dimensão de seus sentimentos, mais romântica. Cabíria não é a prostituta que colhe seus lucros todas as noites; talvez fosse outra pessoa, se fossem outras as necessidades (nesse ponto a influencia do neo-realismo é significativa). Por traz de sua máscara, havia outra coisa ainda. Essa coisa que é linda. Cabíria logo volta a seu estado normal, sem saber exatamente o que se passou, mas o importante é que nós, espectadores, sabemos. Essa talvez seja a cena (em conjunto com a última que veremos a seguir), em que há uma influencia mais forte do cinema de Chaplin, sobretudo a presença do elemento sentimental e poético. Mesmo com certa degradação da vida, certa negação das expectativas, Fellini nos aponta, através desse retrato dos sonhos de Cabíria, assim como Chaplin, que a poesia ainda está na vida, ou a vida ainda está na poesia. Do mesmo modo como é possível um vagabundo se apaixonar e resgatar da escuridão uma florista cega, é possível a essa carismática prostituta resistir às pressões do mundo e seguir adiante em sua estrada da vida.

Sonhos de Cabíria.

            O tema da estrada nos remete à última cena de “Noites de Cabíria”. Depois de mais uma desilusão amorosa, que além de tudo a deixa sem dinheiro, Cabíria anda por uma estrada. Depois de todos os contratempos e abandonos, o que fazer? Aonde ir? Difícil saber, e mesmo uma personagem determinada como ela parece seguir sem rumo. A estrada, local de encerramento tão presente em alguns dos mais importantes filmes de Chaplin, elemento importante dentro da mitologia de Carlitos (a vida que segue; o caminho que continua, apesar das pedras; o horizonte de possibilidades) também aparece nesse filme de Fellini com um significado bastante especial. Cabíria, em um misto de desilusão e indiferença, segue na estrada, até encontrar um grupo de jovens que cantam, dançam, tocam música. Pouco a pouco, sua expressão vai mudando. Cabíria é contagiada pela alegria dos jovens, ou os jovens que contagiam uma alegria antiga, enterrada, que não deveria ter sido ocultada? Não é preciso saber de tudo. O importante é que Cabíria segue, e no seu semblante vemos um sorriso. Cabíria segue. E em ritmo de cantos, danças e sonhos, Cabíria caminha, e em um gesto incomum, Cabíria (e Giulietta Masina, e Fellini), olha diretamente para a câmera. Olha diretamente para nós, os espectadores, em nossas estradas comuns e particulares. O que o olhar de Cabíria nos diz? Talvez algo que não coubesse em palavras. Talvez, como em Carlitos, as palavras não fossem necessárias.

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“Tempos de Sorrir (Lembrança de Charles Chaplin)”

(Escrito por Diogo Rossi Ambiel Facini)

 

Sem falar nada

Você disse tudo:

Não valia a pena sofrer

(E como você sofreu).

 

O seu bigode

A sua bengala

O seu chapéu

Os seus sapatos

As suas roupas

A sua estrada ao por do sol.

 

Você foi tudo

E todos

Mas, sobretudo

Os muitos

Sem voz

Nesse mundo não tão mudo.

 

Correndo além da física

Saltando e dançando

Chutando traseiros

Um balé do povo

A vingança do garoto.

 

Encontrou os homens.

 

Educou as crianças

Salvou as abandonadas

(Quando tudo o que você queria

Era salvar-se de seu abandono)

E quando libertou o mundo

O mundo te recursou a liberdade.

 

Charlie

Chaplin

Carlitos

Vagabundo sem nunca sê-lo

Tentaram te anular

Roubaram seus brinquedos

Rasgaram suas roupas

 

Mas sua luz atravessou as frestas da ignorância.

 

Seu sorriso triste

Sua canção longínqua

Seus passos ao céu

Sobreviveram

Sua mágica sem mágica

Sobreviveu

Sua lágrima hesitante

Sobreviveu

Sua humana dúvida

Sobreviveu

 

E para além da história

Quando não houver mais cinema

E os homens (se assim o forem)

De tão lógicos

Perderem toda a lógica

 

Quando as suas imagens

Já cegas e mudas

Se apagarem em um suspiro de paz

 

Restará a sua lição

O seu gesto e o seu olhar

Em direção ao horizonte

(Já não tão distante)

Restará a sua lembrança:

O seu sorriso sobreviverá.

 

(03/09/2013)

Os dois Carlos

Os dois Carlos não são exatamente dois Carlos. Um é Charles, o outro é Carlos. Um é Spencer Chaplin, o outro é Drummond de Andrade. Mas chamá-los por “dois Carlos” é fato bem explicável em dois homens separados por um oceano ou por um continente, mas que conversaram através de suas artes dolorosas, humildes, e de seu profundo sentimento do mundo.

Os dois Carlos são tímidos. Atravessa-os um sentimento de solidão, de desamparo. Tem tendência ao isolamento. Como um mundo imenso, mundo ainda manco, poderia acolhê-los? São tantas pessoas, tantas ruas e discursos, tantas promessas e brigas… Como se expressar?

Mas os dois Carlos são fortes. Atrás do silêncio, atrás das máscaras (e do bigode?) há algo que os carrega, os leva em direção aos olhares surpresos dos homens também surpresos. Em sua dificuldade do contato, ambos levantam um canto de angústias e de esperanças.

O Drummond se utilizou das palavras contadas ou poetizadas, firmes e francas como uma flor que nasce no asfalto. Em seu silêncio, em sua solidão, encontrou os homens. Em sua busca, em sua dispersão, rompeu os mistérios. Andou por caminhos, criou em seus ninhos uma própria voz. O homem duro, de ferro, que o dobrou em seus versos.

O Chaplin, de todo o abandono, de toda a sua dor e mágoa, encontraria a sua expressão em uma arte ainda nova, cheia de possibilidades: o cinema. O seu silêncio permaneceria por muitos anos, mas não era preciso falar nada. Todos o compreendiam, olhavam em seus passos os seus mesmos passos trôpegos, sonhavam com seus chutes tão fundamentais no traseiro das autoridades. Os pobres o respeitavam, os poderosos o temiam, os artistas o admiravam.

Os nossos dois Carlos, presos em seus tempos modernos, novos e assustadores, se colocam nesse mundo em uma posição problemática. Na poesia, uma eterna procura, um desespero ante as buzinas e faróis, um encontro com o outro, um andar de mãos dadas em seu choro contido. No cinema, um Carlitos sempre andando, sempre correndo, sempre se apaixonando, e perdendo seus amores, e ganhando nossas lágrimas, mas nunca pertencendo a lugar algum. Um Carlitos de nenhum lugar, e do mundo. Um Chaplin de nenhum lugar, e do mundo.

Contradições das vidas: como pode a solidão encontrar a todos? Como pode o não estar em lugar algum chegar a todos os olhos e ouvidos e esperanças?

Encontraram os homens. Os homens os encontraram. Drummond encontrou Chaplin. E poetizou sobre Chaplin. Nas distâncias das águas e das terras, as sensibilidades se encontram. No desânimo dos tiros e das bombas, a arte se levanta como um suspiro de insana sanidade.

A arte dos Carlos, mesmo com todas as diferenças, é fundamental. Ambos olharam o seu tempo, retiraram dele sua matéria e fizeram a sua voz. Ambos olharam os seus homens, olharam suas crianças e lamentaram as feridas. Pensaram em outros tempos, de rosas e de sorrisos, de danças e de abraços. Cantaram seus novos tempos, discursaram sobre eles. Mesmo quando não o indicavam, as artes sopravam nos sonhos sua criação atemporal.

Ambos também compartilham a dura sina dos grandes artistas. O mito é imenso, as pessoas já não sabem quem é Carlos. Suas imagens ultrapassam as obras. Todos as conhecem, sem de fato conhecer. Por isso, poucos leem Drummond como deveria ser lido. Poucos veem Chaplin como deveria ser visto. E os conhecem pouco, somente as obras mais conhecidas, as chamadas obras primas (mas porque menosprezar as obras irmãs, obras mães e as obras tias?). No entanto, talvez já algumas pessoas saibam… Quem atravessa a rua dos Carlos, é atravessado por ela: nunca sai indiferente.

Conheci os dois Carlos faz uns bons anos, e praticamente ao mesmo tempo. Suas piadas e gritos e gags e sonhos e sorrisos e discursos desde então estão sempre comigo. Se as minhas palavras estão aqui, devo muito aos Carlos. Se meu silêncio pode ser levado aos outros homens com novas esperanças, transfigurado em afeto, devo muito aos Carlos.

E se a poesia ainda me resta, me alimenta e me esquenta nos dias frios das cidades cruas de concreto, devo muito aos Carlos.

O poeta Drummond e o poeta Chaplin.

Afinal: quem disse que Chaplin não é poeta?