O Circo

Carlitos completa 100 anos: mas que Carlitos?

Por Diogo Facini

 

É sabido pelos fãs e admiradores da obra de Chaplin e conhecedores de cinema que o seu grande personagem, Carlitos, Vagabundo, Charlot, completa 100 anos em 2014 (1). Seu primeiro filme foi “Corridas de Automóveis para Meninos”; desde então, ele apareceria na maioria dos filmes do diretor até “Tempos Modernos” (1936), sua última aparição oficial. É interessante notar que o Carlitos lembrado é quase sempre um: o personagem-mito heróico, bondoso, com um ideal de nobreza acima de todas as limitações do “mundo real”, sempre disposto a salvar uma donzela indefesa; uma definição aplicável, de certo modo, a alguns dos filmes mais populares de Chaplin: “O Circo” (2), “Luzes da Cidade”, “Tempos Modernos”… (3) No entanto, esses já são filmes avançados na obra do diretor, perto da passagem para o cinema falado. E antes? Carlitos foi sempre assim? Afinal de contas: que Carlitos completa 100 anos?

Durante o seu primeiro ano (digamos assim: o Carlitos que de fato completa seu centenário), Chaplin faria 34 filmes pela produtora Keystone. Nos dois anos seguintes, seriam 16 filmes pela Essanay. Ao longo da maioria desses 50 filmes (e de boa parte de seu período posterior, na companhia Mutual), o Carlitos que vemos apresenta características que acabaram por mudar bastante em um tempo consideravelmente curto, mas o número grande de produções nos permite definir razoavelmente o “Carlitos Primeiro”.

Se fôssemos defini-lo de forma curta, diríamos que ele não é assim tão nobre. Mais preocupado em satisfazer suas necessidades imediatas, não se importa se isso interferir na vida de outras pessoas. É o Carlitos de sua primeira aparição, “Corridas de Automóveis para Meninos”: bastante impertinente. O Carlitos que faz careta e não está preocupado com as consequências. Que reage imediatamente a um tapa, e não oferece a outra face para bater. O que se embebeda sem culpa, e não tem piedade de crianças, senhores, animais…

É difícil escolher alguns filmes que exemplifiquem as características desse Carlitos “ainda criança” (principalmente no seu ano inicial), mas que já começava sua jornada de popularidade. Isso se dá porque os filmes seguem um estilo constante e quase uniforme, cheio de perseguições, tortas, corridas, chutes no traseiro, e eram produzidos em um ritmo realmente industrial (filmes chegavam a ser filmados em um único dia, aproveitando-se de eventos locais). Os filmes e o seu personagem não possuíam aquela unidade distintiva que iria aparecer depois, principalmente a partir dos anos 20.

O Carlitos ainda em formação pode ser considerado em parte fruto das comédias pastelão de então (que eram feitas por seu patrão da época, Mack Sennet) e também da experiência de Chaplin no teatro de variedades. Lembremos também que Chaplin se inseriu em uma indústria que, apesar de nova, já tinha algumas regras e parte de sua linguagem já estabelecida, que o autor não conhecia e primeiramente teve de aprender para depois deixar suas marcas.

No entanto, penso que essas diferenças e inclusive a imaturidade artística de Charles Chaplin não são motivo para se desprezar esse Carlitos inicial e centenário. Foi esse Carlitos se mostrou para nós em suas primeiras aparições, e a partir dele, de sua base, puderam ser desenvolvidos novos elementos com o passar do tempo. Penso, inclusive, que esse seu caráter “politicamente incorreto” é um atrativo. Essa “explosão” do Vagabundo é uma de suas muitas facetas; conhecê-la é importante para entenderem-se as suas obras posteriores, quando essas características às vezes emergem, com menor ou maior intensidade. O surto de loucura do personagem em “Tempos Modernos” é um bom exemplo. E é também todo o filme “Monsieur Verdoux” (1947) (3), em que o Carlitos “original” ajuda a observar que muito do comportamento do matador de senhoras não é inédito ou tão surpreendente assim.

Esse personagem inicial passaria por transformações. Já nos anos de Essanay entraria um elemento emocional, que ajudaria a definir uma das marcas registradas do diretor: o humor unido ao sentimento. Suas idéias cômicas se refinariam, as perseguições deixariam de ter um lugar primordial. Os filmes iriam ter estruturas muito mais definidas e histórias seriam mais bem contadas e exploradas. Mas não nos esqueçamos desse senhor Carlitos, centenário Carlitos. Suas botas estão um pouco gastas. Sua imagem é trêmula e às vezes torta, indefinida. Mas ele passou por aqui. E deixou seu rastro de vida em um humor nobre, apenas interessado em fazer sorrir.

 

Veja mais:

(1) http://blogchaplin.com/2014/02/01/os-100-anos-de-estreia-de-charles-chaplin-no-cinema/

(2) http://blogchaplin.com/2012/10/26/o-circo-turbulencias-e-triunfo-de-um-classico/

(3) http://blogchaplin.com/2014/01/11/tempos-modernos-tinha-uma-fala-no-meio-do-caminho/

(4) http://blogchaplin.com/2013/10/27/monsieur-verdoux-a-grande-injustica-contra-charles-chaplin/

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‘O Circo’ é atração no Rio de Janeiro

Um dos filmes de maior sucesso de Charles Chaplin, O Circo, será exibido nesta quarta-feira (15), no distrito de Visconde de Mauá, em Resende (RJ). A exibição será gratuita e os presentes ganharão pipoca, para acompanhar o filme. O horário para o início da exibição está marcado para às 18h15, no Galpão do João Baptista, no bairro Lote 10.

Chaplin, em "O Circo" (1928).

Chaplin, em “O Circo” (1928).

No filme, Carlitos é perseguido por um policial e vai se refugiar num circo. Conseguindo tal façanha, acaba se envolvendo na vida circense até que é contratado para trabalhar lá. Há cenas maravilhosamente bem construídas, como a sequência da sala dos espelhos e/ou outras passagens, como a fuga de um burro descontrolado, que tenta mordê-lo e o persegue por todo o circo. A cena reservada para o final dá um toque belíssimo de emoção ao longa, elevando “O Circo” à categoria dos melhores filmes já realizados na história do cinema.

O evento é organizado pelo Centro Cultural Visconde de Mauá e o Espaço Evoluindo.

Saiba mais sobre a produção do filme aqui.

Tempos Modernos: tinha uma fala no meio do caminho…

(Diogo Facini)

O filme Tempos Modernos, de 1936, deve ser o mais conhecido de Charles Chaplin. O Carlitos operário, que tem um colapso nervoso após a dura rotina em uma indústria e, sobretudo, é “engolido” pela máquina, é uma imagem tão emblemática e poderosa que ultrapassou em muito os limites deste filme para representar um pouco do “mito Carlitos-Chaplin”.

Carlitos e a Máquina.

Muito dessa impressão da fama de Tempos Modernos também deve vir do fato de este filme ser uma grande porta de entrada da obra de Chaplin. Parece que mesmo quem não conhece ou conhece pouco o autor, ao ouvir as palavras Tempos Modernos, se recordará de algo, talvez até inconscientemente, como em um “Ah sim! Agora sei quem é esse Chaplin! Por que não me disse antes!?”.

Cartaz do filme.

Tempos Modernos se transformou em um “tesouro cultural”, e é quase ensinado nas escolas, como um item de alguma “disciplina chapliniana”. Quando o assunto é capitalismo, produção em massa, fordismo (as grandes indústrias com alta divisão de trabalho) e a crise que se deu com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, esta produção aparece como uma referência, quase uma passagem obrigatória, um documento de um tempo, que deve ser visto para se entendê-lo.

Carlitos e a Máquina 2.

No entanto, essa abordagem mais histórica do filme, relacionada à crítica que ele faz a alguns elementos de seu tempo, não elimina outras formas de observarmos esta obra tão singular.

E talvez a maior singularidade do filme esteja não exatamente nas suas críticas à economia, à estrutura social, mas na sua posição com relação a um momento muito importante na história do cinema: a passagem do cinema mudo para o cinema falado. Tempos Modernos acompanha os conflitos não apenas entre novas organizações de produção (agora não tão novas) e formas antigas, entre a exploração e a liberdade. O conflito é também entre Chaplin (e Carlitos) e o cinema falado.

O primeiro filme falado é O Cantor de Jazz, de 1927. Desse filme para o de Chaplin há uma diferença de nove anos, em que muita coisa aconteceu. O mais importante é que o cinema falado virou uma realidade, indiscutível, incontestável. Ou quase.

Chaplin, nesses nove anos, traçaria uma trajetória tão única nesse campo do som que podemos dizer que esse é um dos fatores que contribuiu fortemente para seu mito na história da arte. Em 1928 viria O Circo, filme ainda completamente mudo, um dos seus mais engraçados, que segue um humor mais próximo do estilo de seus primeiros filmes (e que foi talvez injustamente “ignorado” em sua autobiografia, de 1964). Em 1931 viria Luzes da Cidade, em que há a introdução de efeitos sonoros (como em uma célebre cena em que sons de buzina são colocados no lugar das vozes em um discurso), e que é talvez o filme narrativamente mais bem realizado entre os seus mudos.

“Luzes da Cidade” (1931).

Tempos Modernos acompanharia esse desenvolvimento. No entanto, esse desenvolvimento seria levado ao limite das possibilidades do cinema mudo. Após este filme, algo teria que mudar.

Aqui, há efeitos sonoros diversos permeando todo o filme, como nas máquinas e em barulhos do estômago, em uma gag só possível com os novos efeitos. Além disso, há uma trilha sonora fantástica, talvez em sua totalidade a melhor de todos os filmes de Chaplin. E há até mesmo algumas falas, principalmente do patrão (que não alteram a essência muda do filme). E há um Carlitos falante ao fim do filme.

A voz da autoridade.

Para se entender um pouco dessa “hibridez sonora” nos filmes do autor, é necessário nos lembrarmos da assumida resistência de Chaplin ao cinema falado (que pode ser observada tanto em sua autobiografia quando na de David Robinson, por exemplo). Chaplin era um gênio da mímica; Carlitos nunca precisou dizer nada, se comunicava através de gestos, olhares, feitos e repetidos exaustivamente pelo seu criador. Por isso, a mudança em seus filmes do mudo para o falado foi lenta, gradual, e produziu essas criações híbridas. Algo muito interessante nesse ponto quando observamos nos dias de hoje o filme Tempos Modernos é que essa sua não imposição às exigências dos tempos, às modas, deu ao filme (e a Luzes da Cidade) uma vitalidade que não se encontra na maioria dos filmes da época. Recusando-se a limitar-se ao seu tempo, Chaplin criou seu próprio tempo.

Carlitos: a ovelha negra?

No seu filme seguinte, o também conhecidíssimo O Grande Ditador, Chaplin aderiria completamente ao cinema falado, com seus diálogos e efeitos sonoros completos (que não apagariam as forças de Chaplin como mímico, através principalmente de seu Adenoid Hynkel). No entanto, foi em Tempos Modernos que o seu personagem, Carlitos, Charlot, Vagabundo, falou. Primeira e única ocasião (já que o personagem seria aposentado a seguir), esta fala não foi exatamente uma fala, mas sim um canto, que não trouxe exatamente palavras, mas sons de palavras que se pareciam com várias línguas e com nenhuma. Esta cena do canto foi discutida por mim em minha monografia da graduação, o que mostra o potencial da obra de Chaplin (no caso, de Tempos Modernos) para novas questões e reflexões.

É interessante observarmos, com isso, que a crítica de Chaplin ia além dos elementos econômicos e políticos, e que os “tempos modernos” retratados no filme não se referiam apenas a esses aspectos sociais/estruturais. A crítica de Chaplin atravessava o próprio cinema, suas transformações e limites. Este filme, feito em um momento de profundas transformações sociais, políticas e culturais, pela sua própria constituição mista, aponta para os dilemas de um criador Chaplin já não tão seguro com relação ao seu cinema, mas que ao mesmo tempo enfrentava bravamente a aura “milagrosa” do som.

Talvez o mais importante, neste texto curto, que não pretende afirmar muita coisa, é observarmos o quanto a arte Chaplin sobreviveu. Fez a seguir filmes sonoros bem sucedidos; os filmes mudos continuaram referências obrigatórias (apesar de menosprezados no meio acadêmico) e sobreviveram na memória coletiva. E Tempos Modernos, produzido no olho do furacão, continua quase como símbolo da obra do autor. Quem sabe esses muitos conflitos deram ao filme uma tensão que o encheu de vida, uma vida que não se esvairá tão facilmente. Quem sabe seja tudo mera coincidência. Quem sabe a sua mensagem (se há) nesse filme estivesse mais forte do que nunca: Sorrir levanta o que há de homem no homem. O sorriso de Tempos Modernos sobrevive em nossos tempos pós-modernos.

Onde estará Carlitos?