O Artista

“Branca de Neve” e a atualidade do Cinema Mudo

Por Diogo Facini

             Quando se fala de “retorno do cinema mudo”, “recriação” ou volta desse estilo tão singular e que caracterizou o cinema durante pouco mais dos seus 30 anos iniciais, o filme francês “O Artista” (2011) vem à mente (a obra foi abordada neste mesmo blog, através do endereço http://blogchaplin.com/2014/08/04/o-artista-2011-e-a-volta-do-cinema-mudo/).

            Esse filme, que surpreendeu a todos e conquistou os públicos de todo o mundo, ganhando inúmeros prêmios de destaque, representou uma bela homenagem a esse período tão importante do cinema, retratando todo seu esplendor e encanto iniciais. No entanto, outro filme, produzido na mesma época que “O Artista” (e com roteiro escrito desde 2005 [1]), mas lançado um pouco depois (2012), também traria o estilo silencioso do cinema à tona. Mesmo que a repercussão tenha sido menor que o seu “parente”, sua abordagem criativa e sua releitura de uma clássica história, conhecida por todos, merecem grande destaque.

            Trata-se de um filme espanhol, escrito e dirigido por Pablo Berger, chamado simplesmente “Branca de Neve” (Blancanieves no original). Os leitores desavisados poderão pensar: Mais um “Banca de Neve”? Ou ainda: Esse filme de criança! Não vale a pena ser visto! Pois saibam que, apesar de ser uma adaptação da clássica história infantil, esse filme brilha mesmo é em suas inovações, no modo como faz a releitura de uma história já tão conhecida de crianças e adultos.

Uma nova Branca de Neve

                     Devemos lembrar: como o próprio título do filme indica, este traz vários elementos retirados das histórias anteriores, já tão conhecidos que alguns se tornaram símbolos de contos de fadas: a garota, a madrasta, os anões, a maçã envenenada, a quase morte de Branca de Neve. No caso dessa história tradicional, é difícil dizer o que seria a versão “original” ou “primeira”, já que há várias formas e inúmeras adaptações posteriores dela (como o clássico filme da Disney). No entanto, esses são pontos básicos, que o filme compartilha. Mesmo assim, a obra retrata esses elementos de forma tão particular, que só isso já justificaria a existência de mais uma Branca de Neve.

O pai de Branca de Neve

          Em primeiro lugar, há uma contextualização total do filme para elementos da cultura espanhola. O pai de Branca de Neve era um respeitado toureiro, e a mãe uma dançarina de flamenco. Branca de Neve (que recebe esse apelido posteriormente), acaba herdando essas duas características dos seus pais. As cenas envolvendo flamenco, principalmente envolvendo a protagonista menina e sua avó, são belíssimas, combinando música (o filme não tem falas, mas tem música!), ângulos e cortes de forma impecável. Com relação às touradas, elas constituem um dos temas centrais do filme. Além do pai, a própria Branca de Neve se transforma em toureira e, – surpresa! – os anões (que aqui são seis, ironicamente) são toureiros! Logicamente, essa temática dos toureiros pode acabar afastando algumas pessoas do filme, mas é inegável que esse é um elemento cultural forte da Espanha, e sua inclusão deu ao filme grande coerência. Além disso, o filme é todo ambientado em um contexto espanhol (cidades, vilas, habitantes), e há até algumas aproximações de conteúdo para tempos mais recentes: em determinada cena, a Madrasta posa e mostra sua casa a determinada revista de celebridades (os brasileiros se lembrarão de uma revista bastante conhecida por aqui).

A beleza do Flamenco

            Outro ponto interessante está na própria construção da obra cinematográfica, suas qualidades técnicas e de criatividade na escolha de filmagem e montagem. Este é um filme preto e branco, completamente mudo, sem diálogos, que inclusive utiliza os letreiros de fundo preto tradicionais para as falas, como os clássicos (apresentando vozes apenas em determinadas canções de flamenco); no entanto, seus ângulos e movimentos de câmera, cortes (como já mencionado nas cenas musicais), sobreposições de imagens, iluminação e enredo criativo (com um final ousado, mas sem maiores detalhes aqui!) fogem do habitual para esse tipo de história, dando à obra um dinamismo e modernidade até maior que o de outras produções contemporâneas. Desse modo, esse é um filme ao mesmo tempo clássico e inovador em seu estilo: preto e branco, mudo, mas trazendo ar fresco a uma história já tão aproveitada em tantas formas de arte.

Os anões

            Por último, devemos destacar também a sua atmosfera, que foge bastante da visão tradicional da “história infantil”. Essa obra, com exceção dos momentos mais marcadamente “espanhóis” e de um personagem carismático, o galo Pepe, apresenta um clima mais adulto e em alguns pontos sombrio do que o tradicional para essa história. As cores pretas e brancas talvez colaborem, mas elementos com a maldade e a perversão da madrasta são representados sem muitos rodeios, assim como o enredo do filme, que não apresenta tantas coisas “bonitinhas” para o público infantil. Esse é um filme, até devido à sua abordagem inovadora, que eu diria ser mais dedicado a jovens e adultos, ou pessoas que já tenham uma noção das mudanças que as esperam.

A madrasta

         Podemos encerrar esse texto de onde começamos. O filme “O Artista” trouxe novamente o olhar das pessoas para o cinema mudo e encantou. “Branca de Neve”, ao contrário, apesar de todas as qualidades discutidas, passou quase batido pelo grande público. É uma pena essa injustiça, pois trata-se de um grande filme, que assim como seu irmão francês, representa muito bem um estilo de se fazer cinema tão fundamental. Sem querer comparar a qualidade dos dois filmes, podemos dizer que cada um de certa forma representa uma forma de ver o cinema silencioso: enquanto “O Artista” representa os clássicos mais populares do cinema, e as histórias voltadas para o grande público que arrebataram multidões, Branca de Neve retrata outro tipo de filmes, mais experimental, que procurou extrair da linguagem do cinema sempre novos questionamentos e possibilidades de expressão. Esses últimos podem até ser menos vistos, mas continuarão sendo realizados, maravilhando seu público fiel, e mostrando novos (às vezes um pouco calados) caminhos para o cinema.

Referência:

[1] http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/divirtase/46,51,46,61/2012/09/27/internas_viver,399143/filme-mudo-espanhol-conta-a-historia-de-branca-de-neve-em-preto-e-branco.shtml

O retorno do cinema mudo em “O Artista”

Mesmo após o advento dos filmes sonorizados ou falados (talkies), a partir de 1927, Chaplin insistiu em produzir filmes mudos, tendo em vista alguns motivos, sendo o principal deles, o fato de que era inconcebível para ele que o Vagabundo, seu personagem mais famoso, pudesse falar. Além disso, Chaplin dominou como ninguém a forma gestual de representar. Em 1931, ano do lançamento de “Luzes da Cidade”, quando perguntado sobre a sua insistência em continuar a fazer filmes mudos, respondeu:

“Por que eu continuei a fazer filmes mudos? O filme silencioso é, antes de tudo, um meio universal de comunicação. Filmes falados têm um alcance limitado, retringen-se a línguas específicas de raças específicas. Eu tenho confiança de que no futuro ocorrerá um retorno do interesse por filmes silenciosos, pois existe uma demanda constante por uma mídia que seja universal na sua utilidade”

E parece que Chaplin tinha mesmo razão, afinal, o cinema tem uma capacidade intrínseca de inovar e se reinventar. Quem imaginaria que em pleno século XXI o cinema mudo voltaria a ficar em evidência, sobretudo no meio da indústria internacional do audiovisual, tendo Hollywood como principal ícone?

Seguindo essa “profecia”, surge a nova sensação de Hollywood: o filme “O Artista” (The Artist, 2011), dirigido pelo francês Michel Hazanavicius, que também é responsável pelo roteiro. Não é a toa que a estreia de um filme mudo causou comoção no mundo cinematográfico: trata-se de um longa-metragem, aos moldes dos filmes utilizados nos primeiros tempos do cinema, ou seja, além de totalmente mudo é também filmado em preto e branco (na verdade a filmagem é realizada a cores, ganhando o filtro em preto e branco, durante a edição).

Na edição da Folha Ilustrada do dia 5 de fevereiro de 2012, há uma entrevista com o diretor de O Artista. Nela,  Hazanavicius fala sobre como o filme foi concebido, os desafios em produzi-lo e seu amor pelo cinema. O diretor também elenca os seus diretores de filmes mudos preferidos, incluindo Charles Chaplin (Luzes da Cidade, Tempos Modernos e O Grande Ditador), King Vidor (A Turba, 1928), Josef von Stenberg (Paixão e Sangue, 1927), entre outros, evidenciando a forte influencia dos primeiros temos do cinema em sua concepção de trabalho ao fazer filmes. A matéria abordou, também, como a inovação técnica, promovida pelo som, não trouxe apenas benefícios para artistas e técnicos do cinema da época.

Para conferir a matéria completa, você poderá acessar o conteúdo do Acervo Digital da Folha de São Paulo, através do site: http://acervo.folha.com.br/fsp/2012/02/05/21

Elenco de “O Artista” (detalhe para o cãozinho Uggie)

Seguindo a aclamação pública e, sobretudo a aprovação dos membros da Academia de Hollywood, “O Artista” foi o grande vencedor do Oscar de 2012. O filme levou as estatuetas de: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator  (Jean Dujardin)  ainda as distinções de figurino e trilha sonora original. Das 10 indicações que recebeu, O Artista levou 5, o mesmo número de prêmios conquistados por “Hugo Cabret”, outra excelente produção de 2011, de Martin Scorsese.

É importante ressaltar que Charles Chaplin não rejeitou o cinema sonoro, pelo contrário, apesar de achar que a pantomima era uma forma universal de comunicação – e, segundo ele, as falas prejudicavam a subjetividade de quem assistia,  em “Luzes da Cidade” ele demonstra um domínio de som muito apurado – e até “brinca” com ele. Um exemplo do perfeito manuseio do som é encontrado na cena inicial, onde há uma inauguração de um monumento à Paz e a Prosperidade, vemos um público de personalidades políticas e da sociedade, representados na figura de três pessoas que falam através de ruídos cômicos, portanto, não há falas mas há som!

Sendo assim, o filme “Luzes da Cidade” é marcado por ser o último filme mudo de Charles Chaplin. O próximo lançamento, “Tempos Modernos” (1936) já ensaiava as primeiras falas (o momento em que o chefe da fábrica dá um aviso aos funcionários e a célebre cena em que Carlitos canta em uma língua inventada) indicando que a transição para o cinema totalmente sonorizado seria inevitável para a sobrevivência da carreira de Chaplin – na qual hoje sabemos que foi exitosa.

Referências:

Carlos, Cássio Starling et al. Coleção Folha Charles Chaplin v. 5. São Paulo: Folha de São Paulo, 2012

Notícias Angola, Site. Acessado em 03/08/2014.

40 anos do Oscar Honorário de Charles Chaplin

Há 40 anos, Charles Chaplin recebia o Oscar Honorário

Hoje, 26 de fevereiro, é o dia de mais uma premiação da Academia de Hollywood, mais conhecida como Oscar®. Mais do que apenas um prêmio, o Oscar® se tornou sinônimo de status e de fortuna, para vários profissionais do cinema comercial pelo mundo. Há 84 anos, o primeiro prêmio de melhor filme foi dado à “The Wings”, o único da categoria “cinema mudo” Até hoje. Essa realidade pode mudar, se caso o também mudo  “O Artista” (The Artist, 2012), dirigido por Michel Hazanavicius,  seja o vencedor da edição 2012.

Hoje, na 84ª edição do Oscar®, comemoramos também o 40º aniversário da entrega do prêmio honorário à Charles Chaplin, que recebeu a homenagem em razão do conjunto da obra, que tanto contribui para o cinema até hoje. Devido ao tempo cronometrado que tem a cerimônia do Oscar®, é possível que não haja nenhuma referência à esse fato, portanto aproveitamos esse espaço não só para relembrar, mas para homenagear esse grande artista que foi Charles Chaplin. No vídeo abaixo é possível acompanhar toda a emoção deste momento ímpar na história da Academy Awards®, seguido por 10 minutos de aplausos de pé, por parte do público (a maior ovação da história da premiação):