livro

Vocês ainda não leram nada! A história do cinema mudo por Celso Sabadin

Por Diogo Facini

Um período recheado de inovações, quando ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo e o que estava por vir. Um período de possibilidades, formado por pessoas que desbravavam caminhos que maravilhavam o mundo. Um período de sonhos, mas também conflitos, batalhas, em que alguns saíram vitoriosos e muitos ficaram esquecidos. Essas e outras características podem ser atribuídas a um período do cinema muitas vezes pouco lembrado, mas fundamental para o seu estabelecimento e o de praticamente tudo o que veio depois, e que é tratado e retratado em uma grande obra.

O livro “Vocês ainda não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo”, escrito pelo crítico, teórico de cinema e cineasta Celso Sabadin, publicado pela Summus Editorial, e que atualmente se encontra em sua terceira edição (2009) é uma obra fundamental, tanto para as pessoas que se interessem por algo do cinema mudo ou mesmo do cinema em geral, e que queiram conhecer a sua história, quanto para estudiosos desses temas.

O autor aborda a história dessa forma de cinema desde os seus primórdios, acompanhando desde as mudanças sociais e técnicas anteriores até o surgimento dos primeiros inventores e invenções que possibilitariam o desenvolvimento do cinema. São trazidas figuras que a história tratou de guardar, como os irmãos Lumiêre, considerados pais do cinema, Georges Méliès, um dos criadores da ficção de científica e dos efeitos especiais, o cineasta D. W. Griffith, entre outros; no entanto, são trazidas também muitas outras figuras que colaboraram de forma decisiva para o estabelecimento do cinema, mas que não receberam um tratamento tão generoso da história, e foram sendo esquecidas. Podemos acompanhar como o surgimento do cinema foi um processo difícil, cheio de indas e vindas e de pequenas inovações que iriam cimentando essa nova forma de entretenimento (antes mesmo de arte).

Os irmãos Lumière, considerados os pais do cinema

O livro mostra o caminho que o cinema tomou, de uma produção praticamente artesanal para uma “indústria do cinema”, com sua divisão do trabalho e produção quase em linha de montagem: o surgimento de algumas figuras que já viam o cinema de uma forma mais profissional (e capitalista), as primeiras empresas produtoras, a difusão impressionante do cinema pelo mundo…

Outro ponto importante discutido pelo livro é o caminho traçado pela indústria do cinema americana (que é que recebe mais destaque no livro) até a sua dominação esmagadora no cinema mundial. Muitas pessoas desavisadas podem achar que sempre foi assim, mas considera-se que o cinema começou na França, e esse país era o predominante no início do cinema. Além disso, países como a Alemanha, Itália e Inglaterra detinham produções consideráveis. Vários fatores ajudaram os Estados Unidos, como sua economia em crescimento e a grande imigração; porém a Primeira Guerra Mundial, que devastaria os países europeus e elevaria os EUA a um status de potência, é apontada como uma grande causa para essa supremacia no cinema. Além disso, o autor comenta como o cinema foi seguindo em direção ao oeste desse país, o que culminaria com o crescimento da poderosa Hollywood.

Alguns gêneros importantes são discutidos pelo autor. À comédia é dedicado um capítulo, destacando-se o trio fundamental da comédia americana: Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. O primeiro permanece através de Carlitos como a figura símbolo do cinema (mudo ou não). Keaton e Lloyd são menos conhecidos, mas não menos geniais. No caso de Keaton, com sua comédia visual inteligente, refinada e a sua conhecida “expressão sem expressão” (ele não sorria ou manifestava seus sentimentos através de expressão facial), é verdadeiramente uma pena que mais pessoas não vejam suas obras. As animações também começaram no cinema mudo, e Sabadin também aborda esse tema, mostrando algumas futuras figuras carimbadas.

Chaplin, um dos símbolos do cinema mudo.

Buster Keaton, o homem que nunca ria.

São discutidos também os cinemas de outros países. Podemos destacar aqui o cinema expressionista alemão e o soviético inicial, que apresentaram novas formulações estéticas e temáticas, e que sofreriam profundos danos com o aprofundamento dos regimes autoritários em seus países. Um ponto importante dessa obra é que ela aborda o período do cinema mudo em território brasileiro, infelizmente um quase completo desconhecido para a maioria das pessoas. É interessante notar que o cinema chegou aqui relativamente cedo e existiam núcleos de produção (e exibição) em todo o país, e uma produção considerável de longas metragens; inclusive há a produção de filmes de vanguarda, esquecidas por aqui, mas valorizados por autores estrangeiros.

Por fim, o autor aborda um assunto importantíssimo dentro da história do cinema: a passagem para o cinema falado. Como Sabadin aponta, o surgimento do som sincronizado com a imagem no cinema tem mais motivação econômica que artística; em uma indústria que precisava de novidades para superar um momento de crise (com queda no número de ingressos vendidos), o som representou um grande alívio. Deve ser mencionada a referência presente no título do livro ao filme “O cantor de jazz”, de 1927. Mas não devem ser dados mais detalhes: se não entendeu, vá ler o livro e assistir ao filme!

O livro “Vocês ainda não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo” constitui uma obra importantíssima para qualquer pessoa que se interesse de alguma forma pelo tema do cinema mudo. Única no país, com uma escrita ao mesmo tempo acessível, leve, mas séria nos momentos necessários, é uma obra que deve ser valorizada, tanto por sua qualidade, quanto pela ação de seu autor em dar voz e história a um período muitas vezes tão esquecido pelas pessoas, tanto espectadores casuais quanto especialistas em cinema.

Capa do livro.

Referências Bibliográficas:

SABADIN, Celso. Vocês não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo. 3. ed. São Paulo: Summus, [1997] 2009.

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“My Life in Pictures”: A autobiografia esquecida de Chaplin

 Por Diogo Facini

            Charles Chaplin, ao fim de sua vida, dedicou-se a atividades além da criação cinematográfica propriamente dita. Compôs trilhas sonoras para muitos de seus filmes (sobretudo os dos anos 20), realizou cortes e edições em filmes anteriores, e trabalhou durante longo tempo na escrita de suas memórias. Desta atividade surgiu sua autobiografia, “My Autobiography” no original, “Minha Vida” na tradução atual para o português, publicada originalmente em 1964. Talvez uma das mais conhecidas autobiografias do século passado, um grande sucesso na época de publicação e fruto de inúmeras reedições, este livro é uma fonte obrigatória de informações sobre o artista e suas opiniões, tanto para o público em geral interessado na pessoa quanto para expectadores mais assíduos e pesquisadores da obra do autor.

            No entanto, mais ainda ao fim de sua vida, Chaplin se dedicou à tarefa de produzir outro livro, de certa forma também uma autobiografia. Um livro que além de ser uma de suas últimas produções, traz uma nova perspectiva, diferente de “Minha Vida”, e deve interessar aos muitos “chaplinianos”.  Mas também um livro pouco conhecido, ainda mais em nossas terras tupiniquins.

            “My Life in Pictures” (“Minha Vida em Imagens” em tradução livre) foi originalmente publicado no ano de 1974, na Grã-Bretanha, sem nunca ter recebido uma versão nacional (a minha edição, também britânica, é de 1985, ao que consta a última lançada). Como o próprio título do livro indica, não se trata de uma autobiografia convencional, “verbal”, como “Minha Vida”, mas sim de um livro em que Chaplin conta momentos de sua trajetória, principalmente cinematográfica, através de imagens.

            O livro inicia com uma seção chamada “The Chaplin Image” (A imagem de Chaplin), que mostra como a figura do vagabundo foi disseminada ao longo dos mais variados meios: cartazes, ilustrações, jogos, quadrinhos… A seguir, após introdução e filmografia, também acompanhadas de muitas imagens, inclusive algumas raridades, é chegada a autobiografia propriamente dita. Ela é dividida (ao menos nesta edição) em cinco seções: anos iniciais; período na companhia cinematográfica Mutual; na First National; United Artists e anos finais. Provavelmente, o maior destaque do livro, além das imagens, é que Charles Chaplin contribuiu com comentários e anotações para a maioria das imagens presentes no livro; desse modo, a atuação do autor/ator não se resume apenas à escolha do material e presença nas fotos, mas à sua escrita do “texto”, pouco tempo antes de sua morte, em 1977.

            Ao longo desse conjunto imagem/comentário somos levados a alguns dos principais momentos da vida de Charles Chaplin, o que é resultado da seleção dos materiais apresentados; essa seleção é fundamental e parte integrante em qualquer biografia, mas fica mais evidente nesta obra. São trazidas imagens que representam desde a infância do autor até a os seus últimos dias; incluem-se, inclusive, imagens relacionadas a um filme chamado “The Freak”, cujo roteiro, sobre uma garota nascida com asas (Chaplin, [1974] 1985), estava sendo escrito por ele e se destinaria a sua filha Victória, mas que, por razões óbvias, não foi concluído. Este livro, pela distância temporal, acaba trazendo fatos importantes que a sua autobiografia “Minha Vida” obviamente não abrangeu: o último filme “Uma Condessa de Hong Kong” (1967), o seu retorno aos Estados Unidos e a entrega do Oscar especial (1971).

            Outra comparação interessante que deve ser feita com “Minha Vida” é em relação ao enfoque dos dois livros. Em “My Life in Pictures” a maioria das imagens apresenta alguma ligação (quando não são retiradas diretamente) com os filmes de Chaplin. Assim, podemos dizer que o livro é quase uma filmografia visual do diretor (para seus filmes da Keystone, inclusive, são dedicadas algumas páginas contendo sequências de quadros com explicações do enredo). Apesar de “Minha Vida” ser um livro importantíssimo dentro da bibliografia sobre Chaplin, em muitos momentos o autor foge dos aspectos cinematográficos (explicação sobre os filmes, produção, recepção, crítica etc.) e dá destaque para outros pontos menos relevantes para os fãs ou interessados. Assim, por exemplo, são dedicadas boas páginas a encontros com celebridades da época ou pessoas da “alta sociedade”. Essa opção é justificável em face de um Gandhi ou Einstein, mas na maioria dos casos são mostradas as “relações” de Chaplin com pessoas que a história mostrou irrelevantes, em uma narrativa claramente conciliatória e que buscava evitar (em muitos casos omitir) conflitos. Em “My Life in Pictures” há pouco espaço destinado a polêmicas, porém parece haver no livro uma compreensão mais aguçada de que é pelos seus filmes que Chaplin será lembrado: eles devem ser o destaque.

            Tudo leva, portanto, à recomendação do livro “My Life In Pictures”. No entanto, não podemos nos esquecer de um ponto importante: o acesso a este livro não é dos mais fáceis, o que confere a ele até certa raridade. Como mencionado, não existem versões brasileiras do livro (nem portuguesas); ao que consta, ele não apresenta edições novas, o que torna impossível sua compra em livrarias (mesmo por encomenda). A compra do livro usado, em sebo ou diretamente com os donos, é uma alternativa; porém, não é algo tão fácil de realizar, já que aqui também há raridade (e é bem provável que quem tenha o livro não queira o vender). Outra alternativa, também de certa forma arriscada, seriam os famosos sites estrangeiros que possibilitam importação.

            De qualquer modo, isso não muda o fato de este ser um livro fundamental (mesmo que talvez não essencial) dentro da obra de Chaplin. Suas características históricas (é uma das últimas obras do autor); suas particularidades visuais; seu enfoque cinematográfico; a presença do olhar de autor que se manifesta inclusive em comentários; tudo transforma este um livro único. Mesmo que não seja possível um contato direto, todo aquele que se interessa pela obra do britânico deve ao menos saber da existência deste livro. Este que constitui uma mostra da última faceta de um homem tão multifacetado: o organizador/escritor/comentarista Charles Chaplin.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAPLIN, Charles. My Life in Pictures. Londres: Peerage Books, [1974] 1985.

Capa da edição de 1985.

“Pobres: Resistência e Criação” – Olhares sobre Carlitos e outras personagens

Por Diogo Facini

             O livro “Pobres: Resistência e Criação”, de Monique Borba Cerqueira me apareceu meio sem querer, ao procurar livros sobre Charles Chaplin no site de uma empresa de vendas (que nem era uma livraria). No entanto, a obra acabou me surpreendendo positivamente, aumentando pequeno conjunto de livros sobre Chaplin e trazendo novos olhares e reflexões produzidos pela obra.

            O livro acadêmico, publicado pela editora Cortez em 2010 tem o mérito (às vezes incomum neste estilo) de ir além dos limites de sua área de atuação, e trazer reflexões que interessam a leitores não familiarizados com as teorias trazidas (o meu caso). Ele é fruto da tese de doutorado da autora, que, como se verá, é relacionada com a obra de Charles Chaplin. Mas do que trata especificamente?

            A obra busca discutir e apontar alternativas para as visões tradicionais disseminadas sobre a pobreza e os pobres. Uma visão tradicional, marcada pela moral, procuraria colocar os pobres na posição de coitados, necessitados, marcados por uma falta, uma carência. Essa situação os levaria a uma condição de eterna dependência (de pessoas, ideias, instituições etc.). Como uma alternativa a essa visão, a autora nos apresenta três personagens da arte, que não apenas negam essa visão de “pobres coitados”, como também apresentam promessas e potenciais de novos modos de vida, livres de enquadramentos limitadores.

            Os personagens fazem parte do universo literário e cinematográfico: Carlitos ou o Vagabundo, de Charles Chaplin; Gabriela, de “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado; e Macabéa, de “Hora da Estrela”, escrito por Clarice Lispector. A apresentação dos personagens orienta a própria estrutura da obra: o primeiro capítulo é dedicado a apresentações e discussões de referenciais teóricos; os seguintes são dedicados a Carlitos, Gabriela e Macabéa, respectivamente, e o último é dedicado às reflexões finais.

            Com relação mais especificamente ao personagem Carlitos, a autora aborda muitos dos seus filmes até “Tempos Modernos”, em que o personagem é aposentado. Ela mostra que Carlitos utiliza o humor para reelaborar a realidade (Cerqueira, 2010). O Vagabundo, sempre se deslocando, sempre se movimentando, nunca pertencendo a lugar nenhum e fazendo parte de todos, está sempre transformando sua existência. Um exemplo notório é sua relação peculiar com os objetos:

O vagabundo faz desaparecer certas funções ou características prioritárias de um objeto ou relação, atribuindo-lhe outras. Ele subverte aquilo que rejeita ou não pode enfrentar no registro oficial dos fatos. Cria novos instrumentos, afetos, situações, tudo aquilo que permita resgatá-lo da órbita de uma realidade opressiva com a qual se recusa a se relacionar, mas que necessita, eventualmente, percorrer. (CERQUEIRA, p. 50, 2010). 

             Essa característica aparece em muitos dos filmes de Chaplin, podendo-se citar a famosa dança dos pãezinhos e a refeição dos sapatos em “Em Busca do Ouro” (1925), em que pães viram sapatos e sapatos viram pães. Chaplin, através de essas e outras características, reelabora sua realidade; nunca se submete a enquadramentos sobre sua situação de pobre, de coitado; está sempre correndo, sempre se transformando. Nega tentativas simplistas de dar a ele uma identidade: Carlitos é muitas coisas ao mesmo tempo, e o que é novo logo será antigo, para o surgimento de novos Carlitos: “Diante de um mundo dimensionado sob a égide da fraqueza, ele cria atitudes-atalho que expressam uma grande recusa ao universo da ordem”. (p. 52). Toda tentativa de dar ao personagem uma identidade única é logo eliminada, pois “o vagabundo segue sempre na fronteira, por um fio, andando no meio” (p. 65). Este personagem, em todas as suas ocorrências, está sempre inventando novas formas de existir, que questionam as imposições e revelam novas possibilidades.

            A discussão das outras duas personagens abordadas pelo livro segue a mesma linha de argumentação: Gabriela, com as suas paixões e afetos, seu calor que conquista a todos e ensina novas formas de viver; e Macabéa, que em seu silêncio e suavidade, sua fuga da racionalidade, em uma quase não existência, aponta para uma impossibilidade de qualquer enquadramento limitador. A autora, trazendo esses personagens, procura mostrar forças e potencialidades dos “pobres” que não revelam sua fraqueza, mas sim sua força e riqueza em um mundo em estado quase doentio.

            O livro “Pobres: Resistência e Superação” de Monique Borba Cerqueira traz, portanto, uma visão diferenciada e inovadora, tanto do tema principal (os pobres, a pobreza), quanto dos personagens apresentados. No caso da obra de Chaplin, o livro é importante, pois enriquece a (ainda) pequena bibliografia sobre o autor, e traz novas abordagens, novas visões sobre Carlitos, o que mostra que o senhor centenário ainda tem muita vitalidade e provoca questões que continuam atingindo as pessoas.

Referências Bibliográficas:

CERQUEIRA, Monique Borba. Pobres: Resistência e Criação. São Paulo: Cortez, 2010.