Lita Grey

Em Busca do Ouro: uma fábula sobre a sobrevivência

Cartaz de 1925

Eis aí mais um clássico da obra chapliniana. Desta vez, o pequeno personagem criado por ele, se depara com um ambiente incomum aos filmes anteriores. Agora o cenário é compartilhado com imensas montanhas cobertas de neve, onde nas primeiras cenas é possível ver milhares de garimpeiros, enfileirados, arriscando suas vidas para encontrar a pedra mais preciosa entre toda as pedras: o ouro.

A produção

Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925) foi concebido de forma incomum à outras produções de Chaplin. Foi a única comédia muda a ser realizada com o roteiro já preparado previamente. Em 1923, dois meses após a estreia de Casamento ou Luxo (A Woman of Paris), Charles Chaplin pediu para que o roteiro fosse registrado e, em seguida, ordenou que seu estúdio construísse os cenários do mesmo. Outra particularidade do filme é a de que foi o primeiro a ganhar uma reedição, em 1942, 17 anos depois do lançamento. Nesta nova roupagem, Chaplin adicionou um prólogo no qual ele substitui os textos por uma narração, onde pode-se ouvir a voz próprio diretor. Além disso, Chaplin fez uso de imagens inéditas, realizadas a partir de uma segunda câmera utilizada na primeira versão mas que não foram selecionadas. A cena final, onde Chaplin e Georgia se beijam, também ganhou uma versão diferente da original.

Exemplar, em DVD.

A atriz escolhida para protagonizar com o vagabundo foi Lillita McMurray, já conhecida de Chaplin, quando contracenou com ele em O Garoto (The Kid, 1921), na cena em que Charlie se depara com o Anjo da Tentação. Na ocasião, a jovem tinha apenas 12 anos de idade. Agora, com seus 15 anos, Lillita recebe o nome de Lita Grey. Durante os seis meses de gravação, Charlie se envolve romanticamente com sua protagonista, que engravida. Com isso, Chaplin casa-se com ela (o fruto deste casamento foram duas crianças: Charles Jr. e Sydney) interrompendo as gravações do filme durante 3 meses. O casamento se deu de forma quase compulsória, dado que Chaplin tentou fugir das severas leis da Califórnia, que consideravam o sexo com menores um ato de estupro. Não tendo condições de filmar o longa, Lita é substituída por Georgia Hale, uma bela moça que nutriu uma longa e romântica amizade com Chaplin.

Lita Grey

Georgia Hale, como a bailarina.

Devido aos atrasos acumulados, a produção de “Em Busca do Ouro” durou 1 ano e meio. Todas as cenas anteriores, gravadas com Lita Grey, tiveram de ser refilmadas, agora com Georgia, sua substituta.

A equipe se locomoveu até Truckee, na Califórnia, onde rodou por cerca de 2 semanas. Foram utilizados cerca de 600 figurantes (em sua maioria vagabundos e mendigos de Sacramento), para refazer a cena que impressionara Chaplin, por fotografia. Logo após, a equipe voltou para Hollywood, onde as demais cenas foram filmadas. No set, uma mini-cidade foi construída, incluindo uma montanha de cerca de 7,5 metros, simulando as gélidas montanhas de Truckee. Além disso, maquetes foram feitas para os efeitos especiais (como a cena em que a cabana é levada pela tempestade de neve até o penhasco).

Famosa fotografia da corrida do ouro de Klondike, no Alaska, entre 1896 e 1910.

A história

A história do filme foi baseada em dois episódios históricos (tragédias da vida real) que impressionavam Chaplin: a conhecida corrida do ouro de Klondike, entre 1897 e 1899 e a expedição de um grupo de imigrantes rumo à Califórnia em 1846. Neste segundo episódio, um grupo formado por 29 homens, 18 mulheres e 43 crianças viajavam de trem, até o oeste americano, em busca de uma nova vida, até que uma avalanche interceptou a máquina. Isolados e famintos, tiveram que se alimentar dos restos mortais dos companheiros de viagem. Quanto ao evento de Klondike, munido de uma fotografia da época, Chaplin recriou a cena dos garimpeiros enfileirados vagando sobre a gélida montanha. Como Chaplin sabia muito bem aliar a catástrofe com o humor, sendo esta a premissa da sua obra, acabou imprimindo a mesma visão em Em busca do Ouro. Segundo Charlie, a vida sempre nos mostra os dois lados da moeda e cabe a cada um de nós decidir em que lado permanecer, sabendo tirar uma lição de cada experiência.

Cenas clássicas

Em Busca do Ouro é um dos filmes que mais reúnem cenas marcantes. Chaplin realiza uma sucessão de gags que ficariam gravados para sempre, na história do cinema. Algumas merecem destaque:

Sapato como prato principal.

1. O jantar – A cena em que Chaplin e Swain, sozinhos e famintos, aguardam o jantar. Chaplin cozinha algo e, para nossa surpresa, trata-se do seu próprio sapato. Os gestos de Charlie, como se fosse um chef, que estivesse cozinhando para um grande restaurante, são ilários. Segue-se o momento em que os dois estão comendo o sapato. Chaplin, genialmente, faz uso do objeto de forma inusitada, onde enrola os cadarços como um spaghetti e, os pregos que sobram são degustados como espinhas de peixe. De fato, genial!

O frango

2. O frango – O momento em que Big Jim, já delirante, imagina que Charlie seja um frango. Nesse momento, Chaplin está vestido como uma enorme galinha, fazendo movimentos característicos. Não há como não rir. Fala-se que havia um ator que faria o papel da galinha gigante, mas Chaplin não teria gostado da interpretação deste e, não tendo outro que imitasse um frango tão bem como ele, acabou ele próprio interpretando.

A famosa dança com os pães

3. A dança dos pãezinhos –  Única na história. Munido de dois garfos e dois pequenos pães, Chaplin consegue transformar um gesto simples numa das cenas de dança mais famosas que já existiu. Insuperável.

Segundo David Robinson, famoso historiador e biógrafo de Chaplin, este teria dito que Em Busca do Ouro era o filme ao qual ele gostaria de ser lembrado.

Coleção Folha Charles Chaplin

O oitavo volume da coleção Folha Charles Chaplin é reservado à um dos filmes de maior êxito do artista. O livro possui várias informações sobre a produção do longa, comentários da época de lançamento e outras curiosidades. Acompanhando o livro, vem um DVD contendo o filme original, de 1925 e a versão de 1942.

Volume 8

Texto: Hallyson Alves

“O Circo”: Turbulências e triunfo de um clássico

Cartaz de “O Circo”, de 1928.

O filme

Em “O Circo”, de 1928, a saga do vagabundo, o simpático homenzinho que perambula pelas ruas e acaba deparando-se com a situação de que está no lugar errado, na hora errada, prossegue em mais um dos clássicos da carreira de Charles Chaplin.

Produção

“O Circo” foi concebido numa das piores fases pessoais de Charles Chaplin. Na época, o artista estava enfrentando um processo de separação com a também atriz Lita Grey. Não se falava em outra coisa em Hollywood, nos anos 20. Sob a ameaça dos advogados da ex-mulher, que prometiam destruir a carreira de Chaplin, fez o artista chegar a esconder os negativos do filme, temendo que os mesmos fossem confiscados.

A morte da mãe

Não bastasse o momento delicado, Chaplin recebeu a notícia da morte da sua mãe, Hannah. Ela foi levada ao Glendale Hospital, em Los Angeles às pressas. Essa é uma das partes mais tristes descritas por Chaplin, em sua autobiografia:

Quando cheguei, encontrei-a num estado semicomatoso, por efeito do medicamento que lhe deram para aliviar a dor.

– Mamãe, é Charlie! murmurei e tomei-lhe carinhosamente a mão. Em resposta, comprimiu debilmente a minha, depois abriu os olhos. Quis sentar-se, mas não teve forças. E, inquieta, queixava-se de dores. Tentei sossegá-la, dizendo que logo ficaria boa.

Entretanto, no dia seguinte, ele recebeu a notícia que ela havia falecido.

(…) Entrei no quarto e sentei-me numa cadeira entre a janela e o leito. As persianas estavam semicerradas. Lá fora, o sol intenso; no quarto, a intensa mudez. Sentei-me e pus-me a fitar a pequena figura na cama, o rosto inclinado para trás, os olhos cerrados.

(…) Quão estranho que a sua vida viesse acabar aqui, nos arredores de Hollywood, com todos os seus absurdos valores – a quase doze mil quilômetros de Lambeth, lá onde se despedaçara o seu coração. E desabou sobre mim todo um mundo de lembrança, a luta incessante que enfretara, as provações que sofrera, a sua intrepidez e a sua trágica existência desperdiçada… E chorei.

Diante de tantos problemas, que acarretaram num cansaço físico e psicológico,  Chaplin teve uma crise nervosa no intervalo das gravações. Mas os problemas não iriam parar por aí.

O incêndio

Além disso, para completar o seu inferno astral, um incêndio devastou o estúdio e alguns equipamentos no set de filmagens. Concluir “O Circo” foi então uma questão de honra para Charlie.

O semblante triste, ainda no local do incêndio

O registro documenta o cancelamento das gravações

O Circo

A trama é ambientada no cenário perfeito para as estripulias do vagabundo. Chaplin montou toda a complexa estrutura do circo e nele pintou e bordou, elaborando cenas hilárias e, como de praxe, comoventes. Do jeito que somente ele conseguiu fazer.

No filme, Carlitos é perseguido por um policial e vai se refugiar num circo. Conseguindo tal façanha, acaba se envolvendo na vida circense até que é contratado para trabalhar lá. Há cenas maravilhosamente bem construídas, como a sequência da sala dos espelhos e/ou outras passagens, como a fuga de um burro descontrolado, que tenta mordê-lo e o persegue por todo o circo. A cena reservada para o final dá um toque belíssimo de emoção ao longa, elevando “O Circo” à categoria dos melhores filmes já realizados na história do cinema.

A cena impagável da corda-bamba.

 

Coleção Folha Charles Chaplin

No próximo domingo, 28/10, a Folha disponibilizará nas bancas o volume 7 da coleção Folha Charles Chaplin. O livro virá com o DVD do filme “O Circo”, além de muitas outras informações sobre a produção, além de fotos da época. Ao todo, são 20 livros, com encarte especial e minuciosa pesquisa pela equipe do Grupo Folha. Um item indispensável na coleção dos admiradores da sétima arte.

Volume 7 da Coleção da Folha

 Referências

CHAPLIN, Charlie. Minha Vida. 15ª Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

ROBINSON, David. Chaplin: Uma biografia definitiva. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2012

Morre Sydney Chaplin aos 82 anos

A morte ocorreu no dia 03 de março deste ano. Sydney Chaplin era o filho mais velho de Charles Chaplin com sua segunda esposa, Lita Grey. Assim como o pai, ingressou na carreira artística, tendo recebido o prêmio Tony por sua atuação em “Bells are Ringing”, na Broadway.

Sydney atuou com o pai, Charles Chaplin, em Luzes da Ribalta (1952).

Lita Grey, segunda esposa de Chaplin com os filhos Charles Jr. e Sydney.

Lita Grey, segunda esposa de Chaplin com os filhos Charles Jr. e Sydney.

Segundo filho de Charles Chaplin e sua segunda esposa, Lita Grey, Sydney Chaplin nasceu em Beverly Hills em 1926 e afirmou em entrevistas não ter conhecido muito seu pai quando criança.

Depois de servir na 2a Guerra Mundial, Sydney começou a atuar, co-fundando o Circle Theater em Los Angeles e participando de inúmeras peças e filmes.

Ele conquistou um prêmio Tony pelo musical “Bells are Ringing”, nos anos 1950, e participou do último filme dirigido por seu pai, “A Countess from Hong Kong”, de 1967.

Filmografia:

  • Limelight (1952) … Neville
  • Land of the Pharaohs (1955) … Treneh
  • Confession (1955) … Mike
  • Abdullah the Great (1955) … Ahmed
  • Pillars of the Sky (1956) … Timothy
  • Fours Girls in Town (1957) … Johnny Pryor
  • Quantez (1957) … Gato
  • A Countess from Hong Kong (1966) … Harvey