Hollywood

O retorno do cinema mudo em “O Artista”

Mesmo após o advento dos filmes sonorizados ou falados (talkies), a partir de 1927, Chaplin insistiu em produzir filmes mudos, tendo em vista alguns motivos, sendo o principal deles, o fato de que era inconcebível para ele que o Vagabundo, seu personagem mais famoso, pudesse falar. Além disso, Chaplin dominou como ninguém a forma gestual de representar. Em 1931, ano do lançamento de “Luzes da Cidade”, quando perguntado sobre a sua insistência em continuar a fazer filmes mudos, respondeu:

“Por que eu continuei a fazer filmes mudos? O filme silencioso é, antes de tudo, um meio universal de comunicação. Filmes falados têm um alcance limitado, retringen-se a línguas específicas de raças específicas. Eu tenho confiança de que no futuro ocorrerá um retorno do interesse por filmes silenciosos, pois existe uma demanda constante por uma mídia que seja universal na sua utilidade”

E parece que Chaplin tinha mesmo razão, afinal, o cinema tem uma capacidade intrínseca de inovar e se reinventar. Quem imaginaria que em pleno século XXI o cinema mudo voltaria a ficar em evidência, sobretudo no meio da indústria internacional do audiovisual, tendo Hollywood como principal ícone?

Seguindo essa “profecia”, surge a nova sensação de Hollywood: o filme “O Artista” (The Artist, 2011), dirigido pelo francês Michel Hazanavicius, que também é responsável pelo roteiro. Não é a toa que a estreia de um filme mudo causou comoção no mundo cinematográfico: trata-se de um longa-metragem, aos moldes dos filmes utilizados nos primeiros tempos do cinema, ou seja, além de totalmente mudo é também filmado em preto e branco (na verdade a filmagem é realizada a cores, ganhando o filtro em preto e branco, durante a edição).

Na edição da Folha Ilustrada do dia 5 de fevereiro de 2012, há uma entrevista com o diretor de O Artista. Nela,  Hazanavicius fala sobre como o filme foi concebido, os desafios em produzi-lo e seu amor pelo cinema. O diretor também elenca os seus diretores de filmes mudos preferidos, incluindo Charles Chaplin (Luzes da Cidade, Tempos Modernos e O Grande Ditador), King Vidor (A Turba, 1928), Josef von Stenberg (Paixão e Sangue, 1927), entre outros, evidenciando a forte influencia dos primeiros temos do cinema em sua concepção de trabalho ao fazer filmes. A matéria abordou, também, como a inovação técnica, promovida pelo som, não trouxe apenas benefícios para artistas e técnicos do cinema da época.

Para conferir a matéria completa, você poderá acessar o conteúdo do Acervo Digital da Folha de São Paulo, através do site: http://acervo.folha.com.br/fsp/2012/02/05/21

Elenco de “O Artista” (detalhe para o cãozinho Uggie)

Seguindo a aclamação pública e, sobretudo a aprovação dos membros da Academia de Hollywood, “O Artista” foi o grande vencedor do Oscar de 2012. O filme levou as estatuetas de: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator  (Jean Dujardin)  ainda as distinções de figurino e trilha sonora original. Das 10 indicações que recebeu, O Artista levou 5, o mesmo número de prêmios conquistados por “Hugo Cabret”, outra excelente produção de 2011, de Martin Scorsese.

É importante ressaltar que Charles Chaplin não rejeitou o cinema sonoro, pelo contrário, apesar de achar que a pantomima era uma forma universal de comunicação – e, segundo ele, as falas prejudicavam a subjetividade de quem assistia,  em “Luzes da Cidade” ele demonstra um domínio de som muito apurado – e até “brinca” com ele. Um exemplo do perfeito manuseio do som é encontrado na cena inicial, onde há uma inauguração de um monumento à Paz e a Prosperidade, vemos um público de personalidades políticas e da sociedade, representados na figura de três pessoas que falam através de ruídos cômicos, portanto, não há falas mas há som!

Sendo assim, o filme “Luzes da Cidade” é marcado por ser o último filme mudo de Charles Chaplin. O próximo lançamento, “Tempos Modernos” (1936) já ensaiava as primeiras falas (o momento em que o chefe da fábrica dá um aviso aos funcionários e a célebre cena em que Carlitos canta em uma língua inventada) indicando que a transição para o cinema totalmente sonorizado seria inevitável para a sobrevivência da carreira de Chaplin – na qual hoje sabemos que foi exitosa.

Referências:

Carlos, Cássio Starling et al. Coleção Folha Charles Chaplin v. 5. São Paulo: Folha de São Paulo, 2012

Notícias Angola, Site. Acessado em 03/08/2014.

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Vocês ainda não leram nada! A história do cinema mudo por Celso Sabadin

Por Diogo Facini

Um período recheado de inovações, quando ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo e o que estava por vir. Um período de possibilidades, formado por pessoas que desbravavam caminhos que maravilhavam o mundo. Um período de sonhos, mas também conflitos, batalhas, em que alguns saíram vitoriosos e muitos ficaram esquecidos. Essas e outras características podem ser atribuídas a um período do cinema muitas vezes pouco lembrado, mas fundamental para o seu estabelecimento e o de praticamente tudo o que veio depois, e que é tratado e retratado em uma grande obra.

O livro “Vocês ainda não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo”, escrito pelo crítico, teórico de cinema e cineasta Celso Sabadin, publicado pela Summus Editorial, e que atualmente se encontra em sua terceira edição (2009) é uma obra fundamental, tanto para as pessoas que se interessem por algo do cinema mudo ou mesmo do cinema em geral, e que queiram conhecer a sua história, quanto para estudiosos desses temas.

O autor aborda a história dessa forma de cinema desde os seus primórdios, acompanhando desde as mudanças sociais e técnicas anteriores até o surgimento dos primeiros inventores e invenções que possibilitariam o desenvolvimento do cinema. São trazidas figuras que a história tratou de guardar, como os irmãos Lumiêre, considerados pais do cinema, Georges Méliès, um dos criadores da ficção de científica e dos efeitos especiais, o cineasta D. W. Griffith, entre outros; no entanto, são trazidas também muitas outras figuras que colaboraram de forma decisiva para o estabelecimento do cinema, mas que não receberam um tratamento tão generoso da história, e foram sendo esquecidas. Podemos acompanhar como o surgimento do cinema foi um processo difícil, cheio de indas e vindas e de pequenas inovações que iriam cimentando essa nova forma de entretenimento (antes mesmo de arte).

Os irmãos Lumière, considerados os pais do cinema

O livro mostra o caminho que o cinema tomou, de uma produção praticamente artesanal para uma “indústria do cinema”, com sua divisão do trabalho e produção quase em linha de montagem: o surgimento de algumas figuras que já viam o cinema de uma forma mais profissional (e capitalista), as primeiras empresas produtoras, a difusão impressionante do cinema pelo mundo…

Outro ponto importante discutido pelo livro é o caminho traçado pela indústria do cinema americana (que é que recebe mais destaque no livro) até a sua dominação esmagadora no cinema mundial. Muitas pessoas desavisadas podem achar que sempre foi assim, mas considera-se que o cinema começou na França, e esse país era o predominante no início do cinema. Além disso, países como a Alemanha, Itália e Inglaterra detinham produções consideráveis. Vários fatores ajudaram os Estados Unidos, como sua economia em crescimento e a grande imigração; porém a Primeira Guerra Mundial, que devastaria os países europeus e elevaria os EUA a um status de potência, é apontada como uma grande causa para essa supremacia no cinema. Além disso, o autor comenta como o cinema foi seguindo em direção ao oeste desse país, o que culminaria com o crescimento da poderosa Hollywood.

Alguns gêneros importantes são discutidos pelo autor. À comédia é dedicado um capítulo, destacando-se o trio fundamental da comédia americana: Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. O primeiro permanece através de Carlitos como a figura símbolo do cinema (mudo ou não). Keaton e Lloyd são menos conhecidos, mas não menos geniais. No caso de Keaton, com sua comédia visual inteligente, refinada e a sua conhecida “expressão sem expressão” (ele não sorria ou manifestava seus sentimentos através de expressão facial), é verdadeiramente uma pena que mais pessoas não vejam suas obras. As animações também começaram no cinema mudo, e Sabadin também aborda esse tema, mostrando algumas futuras figuras carimbadas.

Chaplin, um dos símbolos do cinema mudo.

Buster Keaton, o homem que nunca ria.

São discutidos também os cinemas de outros países. Podemos destacar aqui o cinema expressionista alemão e o soviético inicial, que apresentaram novas formulações estéticas e temáticas, e que sofreriam profundos danos com o aprofundamento dos regimes autoritários em seus países. Um ponto importante dessa obra é que ela aborda o período do cinema mudo em território brasileiro, infelizmente um quase completo desconhecido para a maioria das pessoas. É interessante notar que o cinema chegou aqui relativamente cedo e existiam núcleos de produção (e exibição) em todo o país, e uma produção considerável de longas metragens; inclusive há a produção de filmes de vanguarda, esquecidas por aqui, mas valorizados por autores estrangeiros.

Por fim, o autor aborda um assunto importantíssimo dentro da história do cinema: a passagem para o cinema falado. Como Sabadin aponta, o surgimento do som sincronizado com a imagem no cinema tem mais motivação econômica que artística; em uma indústria que precisava de novidades para superar um momento de crise (com queda no número de ingressos vendidos), o som representou um grande alívio. Deve ser mencionada a referência presente no título do livro ao filme “O cantor de jazz”, de 1927. Mas não devem ser dados mais detalhes: se não entendeu, vá ler o livro e assistir ao filme!

O livro “Vocês ainda não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo” constitui uma obra importantíssima para qualquer pessoa que se interesse de alguma forma pelo tema do cinema mudo. Única no país, com uma escrita ao mesmo tempo acessível, leve, mas séria nos momentos necessários, é uma obra que deve ser valorizada, tanto por sua qualidade, quanto pela ação de seu autor em dar voz e história a um período muitas vezes tão esquecido pelas pessoas, tanto espectadores casuais quanto especialistas em cinema.

Capa do livro.

Referências Bibliográficas:

SABADIN, Celso. Vocês não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo. 3. ed. São Paulo: Summus, [1997] 2009.

“Monsieur Verdoux”: A Grande Injustiça Contra Charles Chaplin?

Por Diogo Facini

Estamos na metade dos anos 40. Charles Spencer Chaplin já não é mais unanimidade no país que ele ajudou a enriquecer, e em uma Hollywood que ajudou a construir.

            No período conhecido como Macarthismo, em que intelectuais, artistas e políticos progressistas eram investigados e perseguidos, cresciam as acusações de que era comunista. Principalmente após o filme “O Grande Ditador” (1940) e as defesas públicas em discursos a favor da participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra, contendo o avanço dos nazistas na então União Soviética. Na chamada “terra da liberdade”, os Estados Unidos deixaram claro que nem toda liberdade era permitida. Além disso, Chaplin passaria alguns anos dessa década enfrentando um processo doloroso de paternidade movido por Joan Barry, que levantou toda a opinião pública contra ele. Apesar de cientificamente comprovar-se que ele não era o pai, a justiça o obrigou a assumir a criança, e, mais do que isso, o escândalo contribuiu ainda mais para sua imagem de imoral entre os americanos. Estes dois processos acabariam culminando na “proibição de retorno”, eufemismo para a sua expulsão dos Estados Unidos, durante uma viagem para a Inglaterra em 1952.

            Ao longo deste processo, no entanto, ele encontraria uma nova esperança em sua nova (em todos os sentidos) esposa, Oona O’Neill. Ela acompanharia o ator/diretor por mais 30 anos, até a morte de Chaplin em 1977, e juntos teriam oito filhos.

            Nesse contexto bastante problemático, em que o criador do Vagabundo era colocado na parede, e mais que isso, desmoralizado por muitas das pessoas que haviam sorrido durante 25 anos do seu personagem, surgiria “Monsieur Verdoux”. Lançado em 1947, com roteiro baseado em ideia do cineasta Orson Welles, o filme traz o personagem Henri Verdoux, bancário desempregado após a famosa crise de 1929, que passa a seduzir e assassinar mulheres de meia idade, buscando o seu dinheiro.

Monsieur Verdoux (1947)

Um dos cartazes do filme.

            Com um personagem destes, aparentemente tão diferente do Vagabundo a que as pessoas estavam tão acostumadas, o filme logo de cara apresenta seu caráter  “diferenciado”. Tendendo para o humor negro (ao contrário de seus últimos filmes, de um humor mais sério ou com doses fortes de sentimento), o filme recebeu reações extremamente adversas, principalmente nos Estados Unidos: grupos exibidores organizavam boicotes; jornalistas o criticavam duramente; pessoas se afastavam do “imoral” Chaplin. “Monsieur Verdoux” acabou sendo um dos seus maiores fracassos comerciais, e foi relegado a uma posição secundária, como uma espécie de “sombra” dentro da obra do autor. Ao longo dos seus 65 anos de existência, ele foi elogiado por alguns (como o crítico francês André Bazin), ganhou um status de filme Cult, mas não perdeu essa sua condição de “filme B”, como uma produção à parte, desconsiderada muitas vezes da obra de Chaplin. E se o ator/diretor passou por muitas injustiças ao longo de sua trajetória, recuperando-se delas (parcialmente), sobretudo ao fim da vida, a injustiça contra “Monsieur Verdoux” continua, atravessa os tempos, chega aos dias atuais. Por tudo isso, não é arriscado pensar: seria este filme a grande injustiça contra Charles Chaplin?

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A “frieza” de Verdoux.

            Isso porque “Monsieur Verdoux” em todas suas inovações temáticas e mesmo técnicas; em todas as atuações, sobretudo de um surpreendente Chaplin; em todas os questionamentos e problemáticas que provoca, é um grande filme, talvez na mesma medida da injustiça cometida contra ele.

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Mais uma conquista?

            É de se compreender um pouco o choque que o filme tenha causado na época pela sua temática “ousada”: um sedutor e matador de senhoras, com todas as sugestões implícitas, é um tema à frente do seu tempo. No entanto, isso valoriza ainda mais o trabalho e a coragem de Chaplin, o mesmo autor que ousou ridicularizar Hitler ao mundo. Hoje em dia, também, pouco as pessoas poderiam reclamar contra uma suposta “imoralidade” do filme: em uma sociedade cada vez mais violenta e em uma cultura que valoriza essa violência, Verdoux seria quase que uma criancinha indefesa. 

            O filme em si apresenta muitos méritos. Singular é a cena que representa, quase em conjunto, a “incineração” de uma das vítimas de Verdoux e a salvação pelo mesmo Verdoux de uma lagarta desprotegida. A interpretação de Chaplin ajuda muito. Ele convence (e nos convence) em seu papel de “conquistador cruel”, ao mesmo tempo distanciando-se e aproximando-se do Vagabundo (como quando aparece o seu inconfundível sorriso). Em termos de qualidade, não está atrás de nenhum dos seus filmes.

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Momentos de crise.

            Mas o que talvez mais tenha incomodado, e ainda incomode muita gente, é um caráter contraditório que permeia todo o filme, manifestando-se principalmente nas cenas finais, em que Verdoux discursa e conversa com um advogado e um padre. “Monsieur Verdoux” incomoda de fato, choca, provoca, porque observamos ao longo do filme, ao menos aparentemente, certa inexistência de uma verdade única, de um padrão moral, de um ponto de apoio claro: no filme tudo está diluído, disperso, confuso. O que é o bem? O que é o mal? O que é justo ou injusto? Chaplin, sobretudo através das ações e falas de Verdoux, em uma jogada de mestre (ou seria de gênio?) mostra que todo esse caráter confuso pode ser transferido para a própria sociedade. Não estaria a sociedade confusa, ignorando a guerra, as injustiças, perdendo o senso de humanidade? E justamente por sua existência diluída, não tão clara como em “O Grande Ditador” (1940), por exemplo, a provocação de Chaplin é mais profunda. Para quem assistia, não havia como ignorá-la. Talvez por isso, preferiram muitos não assisti-la. A realidade às vezes é cruel demais.

Momentos de redenção?

            No entanto, os anos foram se passando. Chaplin, de certa forma, se redimiu com a opinião pública (não sem sofrer as marcas das injustiças praticadas contra ele). Mas “Monsieux Verdoux” continua um filme pouco visto, pouco comentado, como um membro incômodo da “família Chaplin”, que deve ser escondido das visitas. No entanto, artisticamente, tematicamente, em suas críticas, o filme sobreviveu muito bem ao tempo. Está entre os seus grandes. E igualmente está entre as grandes injustiças praticadas pela sociedade contra Chaplin. Ele conseguiu aproveitar suas energias em um momento turbulento, tempestuoso, crítico de sua vida pessoal e como criador, e fazer uma obra prima, no nível de suas grandes obras primas. Será que a provocação de Chaplin neste filme ainda é forte demais? Será que as pessoas não estão prontas para serem confrontadas dessa maneira? Só nos resta neste espaço questionar, provocar, do mesmo modo (e nunca nos esqueçamos disso) que Chaplin fez em praticamente toda a sua carreira. E só nos resta pensar em uma luz no horizonte, um por do sol mais justo, para este filme genial. O mesmo por do sol a que percorria o Vagabundo (Verdoux?) em várias de suas existências.

Verdoux. Ou seria Carlitos?