Everton Luis Sanches

Trajetória e Humanismo de Charles Chaplin – o cinema cômico diante das tragédias do século XX

Prof. Dr. Everton Luís Sanches

Ao remontar a trajetória de Charles Chaplin no cinema, levando em conta o seu contexto histórico, temos sua proposta humanista inserida num tempo belicoso em âmbito mundial.

Resumidamente, podemos considerar na primeira metade do século XX a primeira grande crise do capitalismo (crise de 1929) com resultados sociais como desemprego, fome e escassez se espalhando pelo mundo. Tal evento esteve no ínterim de duas guerras mundiais – o conceito de guerra total ou guerra mundial havia sido recém inaugurado com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e seria reiterado com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A capacidade de destruição do ser humano nunca fora tão grande.

Também ficou estabelecida no período entre as duas guerras mundiais a contradição entre o sistema econômico capitalista e a economia socialista com a Revolução Russa (1917) e a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922.

Podemos dizer que predominou entre as principais personalidades do mundo na primeira metade do século XX a discussão sobre a guerra e a viabilidade econômica do capitalismo e do socialismo. Enquanto isso, Charles Chaplin ficou conhecido mundialmente por provocar risos dirigindo seus filmes e interpretando a personagem Carlitos.

Ombro, Armas!, 1928.

Ombro, Armas!, 1928.

De acordo com Henri Bergson (2004, p.103) “A verdade é que a personagem cômica pode,a rigor,andar em dia com a moral estrita. Falta-lhe apenas andar em dia com a sociedade.” Nesse sentido, a abordagem de Chaplin em seus filmes discute as tragédias do século XX mostrando um descompasso entre as verdades humanas (personalizadas principalmente em Carlitos) e as verdades da sociedade (demonstradas nas situações experimentadas pela personagem e pertinentes ao contexto histórico contemporâneo à confecção dos filmes). Posto de outra maneira, as personagens de suas comédias ressaltaram o desajuste entre os valores morais básicos e necessários para ser humano (acesso a comida, vestimenta, trabalho, saúde, moradia e afirmação da dignidade) e os valores competitivos destinados à sociedade hodierna (sistemas econômicos antagônicos, nações e grupos sociais em busca de estabelecer hegemonia sobre os outros).

Mas como é possível rir diante de tais circunstâncias?

Para Bergson(2004, p.103) “Um vício flexível seria menos fácil de ridicularizar que uma virtude inflexível”. Não obstante Carlitos é uma personagem cômica na medida em que busca de maneira inflexível por condições básicas de subsistência. A discussão proposta por Chaplin é bem simples – e muito elaborada – distanciando-se da complexidade perversa das estratégias políticas e da tecnologia de guerra que o rodearam.

Ao pensarmos o filme O grande ditador (1940), temos as figuras de Mussolini e de Hitler caricaturadas, bem como a invasão da Polônia, o fascismo, a perseguição aos guetos, a ostentação de poder dos estados diante da pequenez da mulher, do soldado, do operário e do comerciante. Nesse caso, também os principais líderes políticos do período são ridicularizados, aqueles que estão promovendo os infortúnios da sociedade, por serem tão inflexíveis em seus planos de poder quanto Carlitos é em sua busca por dignidade. Eis aí o risível.

O Grande Ditador

O Grande Ditador

Bergson(2004, p.104) afirma ainda que “No entanto, cumpre reconhecer, para mérito da humanidade, que ideal social e ideal moral não diferem essencialmente. Podemos, portanto, admitir que, em regra geral, são exatamente os defeitos alheios que nos fazem rir – desde que acrescentemos, é verdade, que esses defeitos nos fazem rir em razão da sua insociabilidade, e não da sua imoralidade.”

Todavia, rimos de O grande ditador (1940) porque Chaplin expõe os aspectos de insociabilidade dos personagens históricos daquele período, os quais são destacados diante da mesma insociabilidade do homem e da mulher comuns, numa sociedade que discrimina, destitui a dignidade e institui a imoralidade.

Concluindo, numa sociedade desumana, Chaplin ganha visibilidade ao formular em seus filmes uma abordagem humanista da sociedade, que nos levaa rir do absurdo do infortúnio. O personagem desajustado com a sociedade o é porque aparece inadequado, na medida em que se propõe a ser humano em uma sociedade técnico-científica, competitiva e idealizadora de modelos político-econômicos que impuseram a racionalidade instrumentalem detrimento da dignidade indispensável para a vida em sociedade.

Referências:

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação da comicidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SANCHES, Everton Luís. Charles Chaplin: confrontos e intersecções com seu tempo. Jundiaí-SP: Paco Editorial, 2012. 

Filme: O grande ditador (The great dictator – EUA, 1940; dir. Charles Chaplin).

P.S.: Este texto é um resumo da palestra realizada no ENIC – Encontro de Iniciação Científica, na Sede do CLARETIANO – Centro Universitário, na cidade de Batatais-SP, no dia 02 de agosto de 2014, das 08h30 às 10h30.

Correio Braziliense entrevista Everton Sanches, colunista do Blog Chaplin

correiobr1Na semana passada, a jornalista do Correio Braziliense, Luiza Machado, produziu uma matéria sobre os 100 anos de Chaplin no cinema. Na ocasião, foi realizada uma entrevista com o prof. Everton Sanches, Doutor em História, autor do livro “Charles Chaplin: confrontos e intersecções com o seu tempo” e autor da coluna “Humanismo de Chaplin”, do Blog Chaplin. 

Everton Luís Sanches

Everton Luís Sanches

Abaixo, publicamos a conversa na íntegra:

CORREIO BRAZILIENSE: Por que, na sua opinião, Chaplin resistiu ao cinema falado?

EVERTON SANCHES: Não foi apenas Chaplin que resistiu ao cinema sonoro. Tratei desse tema entre outros em meu livro, lançado no ano passado. O cinema, durante a década de 1910 teve os seus primeiros teóricos, mais precisamente a partir de 1914-15. Naquele período já pensava-se que o cinema havia se tornado uma modalidade artística autônoma e madura, com suas técnicas e linguagem própria. Todavia, estamos aqui tratando de um momento em que o cinema sonoro era inviável. Neste contexto Chaplin acabou adotando a linguagem do cinema mudo, que lhe foi contemporâneo, e explorando suas múltiplas possibilidades com grande habilidade, tornando-se um dos maiores ícones do cinema da época. Em 1927, porém, o cinema sonoro foi criado. Depois de 13 anos de trabalho, tendo alcançado a maturidade em sua obra e desenvolvido o seu próprio modo de fazer cinema (primeiro como trabalho e, depois, enquanto criação artística), Chaplin foi exposto ao cinema sonoro, que aparentemente era um modismo tecnológico usado para ampliar o mercado do cinema. Assim, a questão deixou de ser a produção artística para ser o atendimento a demandas de mercado, o que contrariava o esforço artístico de Chaplin naquele momento de sua carreira. Ele considerava que o Cinema era uma arte pictórica, ou seja, que se fazia com a imagem em movimento, não com o som. Deste modo, a proposta da inovação e atualização do cinema com o sonoro parecia a negação daquilo que definia o cinema enquanto tal. E conforme o próprio Chaplin também expôs em sua autobiografia, não podemos considerar Mozart, Beethoven ou Da Vinci como ultrapassados ou fora de moda, pois as grandes obras de arte se eternizam em sua busca por maturidade estética. Talvez por isso, por essa consciência artística desenvolvida por Chaplin, a sua obra tenha alcançado a importância que tem hoje para a história do cinema e da arte.

CORREIO BRAZILIENSE: Qual foi o maior legado deixado por ele?

EVERTON SANCHES: É difícil afirmar de maneira tão definitiva. Os seus filmes figuram como um legado para a história do cinema, assim como para quem quiser aprender um pouco das técnicas de pantomima para aplicar ao teatro, por exemplo. O seu percurso pessoal, abrangendo desde a criança que vivia a beira da mendicância até o jovem adulto que foi uma das pessoas mais amadas e mais ricas de seu tempo, certamente é um exemplo de superação, persistência e talento que inspirou e ainda inspirará inúmeras pessoas pelo mundo. A obra de Chaplin figura simultaneamente como legado histórico para a obra de arte, assim como a sua trajetória pessoal traduz um momento singular da história da humanidade.
Em meu segundo livro sobre o significado histórico e social da obra de Charles Chaplin, o qual está em fase de revisão e deve ser publicado até o final de 2015, defendo que a sua principal contribuição foi traduzir em seus filmes um pensamento humanitário que emergiu de diferentes formas e com diferentes intérpretes (juristas, filósofos, artistas etc.) no período entre guerras.

CORREIO BRAZILIENSE: Ainda hoje, 100 anos após a estreia de Chaplin no cinema, as críticas dele continuam atuais. Chaplin pode ser eternalizado por causa disso?

EVERTON SANCHES: Bom, acredito que o que foi traduzido como críticas de Chaplin a fenômenos que ele mesmo viveu, como o trabalho na indústria ou ao tratamento dado aos imigrantes nos EUA, à assistência social oferecida às pessoas carentes etc. podem ser analisados como partes da vida humana que permanecem inconclusas, problemas que ainda não possuem soluções satisfatórias. O mesmo podemos considerar em relação à guerra, à intolerância e à pobreza. Podemos, assim, considerar que as perguntas que Chaplin lançou em seus filmes permanecem sem respostas e, infelizmente, parece que ainda permanecerão assim por um bom tempo. Ele tratou de pontos estruturais da vida humana, de acordo com aquilo que ele observava ao seu redor e que viveu desde criança. Contudo, como essas questões são imanentes, ou seja, fundamentais para a própria existência e sobrevivência do ser humano, mesmo que nós consigamos respostas para as mesmas, o trabalho de Chaplin tende a continuar nos sensibilizando para o tempo em que tais respostas ainda não existiam – e para o infortúnio vivenciado por milhares de pessoas pelo mundo afora em decorrência disso.

CORREIO BRAZILIENSE: Chaplin consegue aliar a crítica ao humor de uma forma muito leve, como poucos conseguem. Como ele faz isso?

EVERTON SANCHES: Chaplin cresceu entre a miséria e o riso. Considerando a sua autobiografia, digamos que a maneira como Charles Chaplin conseguiu manter-se motivado para a sobrevivência durante praticamente toda a infância e parte da adolescência foi fazendo escárnio do próprio sofrimento e da sociedade. Isso é muito comum em nossa sociedade. São as pessoas mais pobres e com menos acesso à informação que riem primeiro de uma inadequação alheia. Ao observarmos o trabalho do executivo, por exemplo, teremos bem menos espaço para piadas ácidas que no “chão de fábrica”, onde até a tragédia torna-se motivo de chacota. Chaplin foi muito sensível ao contexto em que ele vivia e isso permitiu que ele pudesse traduzir no cinema (tanto mudo quanto sonoro) essas situações comuns à nossa sociedade, tanto naquela época quanto ainda hoje. Por outro lado, sua mãe era atriz e ele foi educado em meio a ensaios e apresentações de teatro, assim como as próprias brincadeiras cotidianas em família eram recheadas de recursos cômicos teatrais.

CORREIO BRAZILIENSE: Como Chaplin compôs o personagem Carlitos? David Robinson, em sua biografia, disse que ele pegou gestos de vários atores de quando ele fazia teatro e juntou tudo no personagem. Vi também que ele teve que montar o figurino de Carlitos no improviso. Como foi a construção do little tramp?

EVERTON SANCHES: Analisei diversos aspectos da construção de Carlitos em meu livro e acredito que não há uma resposta rápida para as suas perguntas. David Robinson é considerado hoje o biógrafo oficial de Chaplin, uma vez que teve acesso a fontes de âmbito pessoal, preservadas pela família Chaplin e que mais ninguém pôde pesquisar. Ele fez um levantamento bastante detalhado da vida de Chaplin e de sua contribuição para o cinema. Assim, a leitura de seu trabalho é fundamental aos pesquisadores de Chaplin e do cinema mudo na atualidade. Contudo, sua abordagem é biográfica e, ao buscar uma espécie de “arqueologia do cinema” ele fica delimitado num campo de análise específico, definido a partir do levantamento de fontes, confrontação de informações e delimitação de possibilidades. Todavia, prefiro considerar que a criação artística acontece com uma mistura de fatores racionais e irracionais, motivados pela experiência de vida do artista. Assim, minha análise baseia-se numa perspectiva multimensional, interdisciplinar. Como afirmou o historiador Lucien Febvre, a história acontece a partir de “fatos, ideias e sentimentos”. Seguindo esta linha de trabalho, acredito ser reducionista definir a criação do personagem Carlitos amparando-se exclusivamente nos recursos artísticos utilizados por Chaplin, e mesmo na bagagem que o teatro proporcionou a ele. É claro que tudo isso é importante, deve ser considerado e acredito ser válida a afirmação de Robinson de que o personagem carrega elementos que Chaplin identificou no trabalho de outros artistas que conheceu ao longo de sua trajetória, porém o personagem possui uma grande carga emocional que vai além da mistura desses elementos. Os gestos de Carlitos têm significação artística e social, misturando leveza, doçura, grosseria e desleixo. Isso é traçado dentro de uma narrativa que vai sendo construída ao longo do trabalho de Chaplin, partindo da sucessão de gags para gradativamente constituir um debate profundo sobre a própria organização social e sobre os rumos que a humanidade tem tomado. O que em teatro – e mesmo no cinema de Chaplin – podemos chamar de “improviso”, muitas vezes remonta àquilo que figura nas camadas mais profundas do inconsciente. Assim, há muitas motivações psicossociais para a composição de Carlitos. A descrição de Robinson está adequada, ao considerarmos os aspectos mais evidentes da construção de Carlitos. Contudo, para entendermos o processo criativo que permitiu tal construção e a abrangência do personagem é preciso ir fundo na discussão sobre Chaplin, sua trajetória e seu tempo.

CORREIO BRAZILIENSE: Chaplin foi ousado com o discurso de O grande ditador. Na época, disseram que foi até ingênuo. Mas, hoje, é possível perceber que é atual e até mesmo um pouco premonitório. Ele foi um homem muito à frente de seu tempo?

EVERTON SANCHES: Em meu trabalho de doutorado, que estou revisando e formatando para a publicação, analiso especificamente o discurso que encerra o filme O grande ditador. Figura no repertório de senso comum a ideia de que Chaplin foi um homem a frente de seu tempo, já que ele realizou coisas que são muito notáveis e que ninguém mais fez. Contudo, todos nós somos produto de nosso tempo, inclusive Chaplin. O que acontece com alguns ícones da humanidade é que eles percebem e utilizam os limites de seu tempo de forma mais alargada. Há muito mais potencial no tempo presente que aquele que nós percebemos no corre-corre do dia a dia. Deste modo, definimos nosso tempo na maioria das vezes de maneira apressada, simplista e acabamos menosprezando o seu potencial. Quando Chaplin se arrisca a filmar O grande ditador ele rejeita abertamente algumas possibilidades previsíveis para o seu tempo como únicas existentes. Naquele contexto, esperava-se um posicionamento político dos artistas de Hollywood em defesa do sonho americano, de todas as possibilidades da democracia capitalista e, naturalmente, em oposição aos governos totalitários, ao nazi-fascismo e ao comunismo. Contudo, ele abordou outras possibilidades igualmente contemporâneas a ele, mas que eram pouco consideradas pelos discursos predominantes naquele momento, como a defesa da igualdade de todos, a preocupação com as questões de âmbito social e o respeito a todos os seres humanos indistintamente. Até hoje a humanidade ainda está engatinhando em algumas questões que são básicas, de modo que o discurso do filme demonstra com maturidade objetivos nobres que são fundamentais para a sobrevivência do ser humano, como a tolerância, o amor à humanidade, atendimento às necessidades de cada etapa da vida humana (infância, fase adulta e velhice), uso consciente e humanizado da tecnologia etc. Tanto é que oito anos depois da realização de O grande ditador, a Declaração Universal dos Direitos Humanos tratou destes temas e os colocou como meta de todos os seres humanos de todas as nações do mundo. Considero que a motivação para classificarmos pessoas como Chaplin, notoriamente acima da média, como gênios e pessoas à frente de seu tempo é uma espécie de justificativa para a restrição de nossa ações ou falta de sensibilização para questões tão profundas que perpassam o nosso cotidiano. Ou seja, ao invés de tomarmos o discurso de Chaplin como um entre os vários faróis daquele período e nos iluminarmos com suas proposições – o que equivaleria a nos colocarmos “à frente” do que aparentemente nosso tempo nos permite ainda hoje – preferimos acreditar que pessoas como Chaplin alcançaram tal dimensão porque estavam de alguma maneira acima de nossa compreensão. Assim, nos contentamos com o que consideramos serem as contingências de nosso tempo, não nos superando nem explorando plenamente as nossas capacidades humanas a partir da experiência acumulada. Ao cabo e no limite, todos nós podemos ser pessoas “à frente de nosso tempo”, porém poucos são aqueles que decidem levar isso adiante. Uma boa maneira de valorizarmos o trabalho de Chaplin, todo o seu legado e a sua crítica ácida à sociedade pode consistir em olharmos com muito cuidado para essas questões que ele tratou e dimensionarmos um pouco de nossas vidas conforme tal perspectiva.

CORREIO BRAZILIENSE: Chaplin fez 81 filmes. Quais as obras imperdíveis? Quais as mais ousadas?

EVERTON SANCHES: Isso depende do ponto de vista, de quais são as preocupações de quem vai assistir. Mas se eu tiver que enumerar algumas, O garoto (1921), Tempos Modernos (1936) e O grande ditador (1940) são filmes que figuram entre os melhores da história do cinema. Contudo, acho que devido ao contexto histórico e ao momento em que o cinema vivia, o filme Ombros, armas (1918) é um dos mais engraçados e ousados que ele já fez. Diversos motivos cômicos que hoje em dia vemos em filmes cômicos, programas de televisão e desenhos animados remontam a este filme. A sequência em que Carlitos se veste de árvore para entrar no território do inimigo é hilariante.

CORREIO BRAZILIENSE: Chaplin tinha mania de queimar os vídeos que não considerava bons. O senhor tem conhecimento de produções dele que foram achadas depois e que são pouco conhecidas? Se sim, quais?

EVERTON SANCHES: A obra de Chaplin foi e ainda é muito pesquisada no mundo todo, de modo que aquilo de mais substancial que ele fez foi devidamente catalogado, com ajuda do próprio Chaplin quando ele era vivo e, depois de seu falecimento, pela sua família. Não tenho conhecimento de nada realmente importante que ainda não tenha sido descoberto. Além do mais, se o próprio Chaplin descartou, talvez seja porque não estava dentro daquilo que define a sua obra.

CORREIO BRAZILIENSE: Há algum segredo/produção que não seja de conhecimento da maioria das pessoas? Se sim, o quê?

EVERTON SANCHES: Há um documentário de 1983 dirigido por Kevin Brownlow e David Gill intitulado Chaplin que ninguém viu (Unknown Chaplin) que poucas pessoas conhecem. Na década de 1990 eu o encontrei em vídeo, ocupando duas fitas. Ele resgata diversas filmagens que Chaplin descartou e demonstra muito a respeito de suas técnicas de filmagem. Não está disponível em DVD no Brasil, mas é uma boa indicação para quem queira conhecer melhor a maneira com que Chaplin trabalhava e as soluções do cinema mudo para sequências perigosas e difíceis de filmar. Por exemplo, várias sequências de Chaplin foram filmadas ao contrário, ou seja, do fim para o início. Depois de terminada a filmagem e revelado o filme, Chaplin invertia a sequência, de modo que o machado que vemos quase cortando Carlitos ao meio, por exemplo, na verdade quase foi atropelado por Carlitos durante as gravações. Outra curiosidade é o filme Laços de liberdade (The bond, 1918), um filme de propaganda que Chaplin fez para incentivar a compra dos chamados “bônus de guerra” durante a Primeira Guerra Mundial. Este filme ficou perdido durante décadas, porém foi resgatado do arquivo da família Chaplin e hoje encontra-se disponível em DVD. A trama é muito simples e parece uma espécie de “teatro filmado”.

CORREIO BRAZILIENSE: Gostaria de dizer algo a mais sobre ele que não foi perguntado? Por favor, fique à vontade para acrescentar o que julgar interessante.

EVERTON SANCHES: Há um museu que desde 2009 está para ser inaugurado, já teve até data marcada para a sua abertura algumas vezes, porém ainda não obteve êxito em fazê-lo. Ele fica na Suiça, em Vevey, na casa onde Chaplin passou seus últimos dias de vida. Ele possui o patrocínio da Nestlé, que possui sua sede na mesma cidade e também patrocina lá o Museu da Alimentação. O projeto do Museu Chaplin (Chaplin’s World – The Modern Times Museum), localizado na mansão Chaplin inclui réplicas de cenários utilizados em seus filmes e um conceito de museu bastante arrojado. Voce pode obter mais informações em: http://www.chaplinmuseum.com/en/espace_musee/visite_virtuelle.php. Em breve escreverei algumas palavras sobre o tema para o blog blog http://blogchaplin.com/. Estou aguardando ansiosamente a abertura do Museu para organizar a minha visita, pois ele poderá contribuir com informações para fãs e pesquisadores.
No Brasil há uma crescente união de esforços em torno das pesquisas sobre o cinema e mais especificamente sobre Charles Chaplin. O acesso às fontes nem sempre é facilitado, porém o entusiasmo de diversos pesquisadores é notório. Gostaria de relacionar neste esforço o meu trabalho publicado o ano passado (Charles Chaplin: Confrontos e Intersecções com seu Tempo – Paco Editorial) e também o blog http://blogchaplin.com/ com o qual tenho contribuído.

A matéria, exclusiva para assinantes, pode ser acessada no link:

http://impresso.correioweb.com.br/app/noticia/cadernos/diversao-e-arte/2014/02/24/interna_diversaoearte,117859/sempre-chaplin.shtml