Edna Purviance

“The Idle Class” – e uma gag que vale por muitos filmes

 Por Diogo Facini 

             O filme “The Idle Class” (“A Classe Ociosa” ou “Os Clássicos Vadios” no Brasil) foi produzido por Charles Chaplin em 1921, no período em que ele trabalhava pela companhia First National. Esse filme faz parte do grupo de excelentes curtas e médias metragens que Chaplin faria antes de dedicar-se apenas aos longas, apresentando pouco mais de 30 minutos de duração. “The Idle Class” compartilha com seus “vizinhos” cinematográficos o fato de ser pouco lembrado, principalmente em comparação com os filmes posteriores mencionados.

            Como um dos destaques desse filme, temos a participação de Chaplin em dois personagens (situação mais conhecida pelo público através do filme “O Grande Ditador”, de 1940). O primeiro é um rico ocioso, com problemas com a bebida e um casamento em crise com a personagem interpretada pela ”atriz preferida” de Chaplin, Edna Purviance. O segundo é o clássico Vagabundo ou Carlitos, com seu estilo já conhecido na época. É interessante observar que Chaplin realmente imprime um comportamento diferenciado para cada personagem; um bom exemplo aparece no modo de andar do personagem rico, que é “normal”, diferenciando-se dos pés virados característicos de Carlitos. Tais personagens seguem seus caminhos, incluindo situações cômicas de Carlitos em um campo de golfe, até que ele acaba por ir à casa do rico; a semelhança dos “dois Chaplins” leva a personagem de Edna e outras pessoas a pensarem que Carlitos é o milionário, enquanto o milionário estava vestido com uma armadura para uma festa a fantasia, fato que provoca algumas situações cômicas na metade final do filme.

O rico

            No entanto, além dos elementos de enredo e da atuação dupla de Carlitos, chama a atenção um pequeno trecho desse filme que apresenta uma ideia cômica de Carlitos em uma gag. As Gags nada mais são que espécies de “piadas visuais”, de curta duração, comuns em produções de comédia, como filmes, seriados, desenhos etc. A famosa cena em que Carlitos se alimenta de sapatos em “Em Busca do Ouro” (1925/1942) é uma gag. “The Idle Class” apresenta uma bastante especial.

Carlitos

            A cena é curta, e é difícil expressá-la em palavras (a graça vai-se embora), mas resumidamente é o seguinte: o rico lê uma carta de sua esposa que mostra o distanciamento entre eles (devido à bebida). O personagem aparenta tristeza, e vira de costas (já não vemos suas expressões). A partir daí, ele começa a mexer os ombros compulsivamente, o que dá a entender que está chorando devido à sua situação. Quando ele se vira para a câmera, é revelado o que realmente estava fazendo: o personagem estava preparando (agitando) mais uma bebida (daí seus movimentos dos ombros).

           Essa cena, aparentemente simples, de alguns segundos, revela um pouco da genialidade de Chaplin. Completamente muda, confundindo os objetos, utilizando-se da câmera a seu favor, cultivando suspense e surpresa, a gag mostra a sutiliza e a criatividade de Chaplin, cuja mente estava sempre trabalhando e armazenando novas idéias (ele era conhecido por sua memória). E talvez explique um pouco da relutância do autor em adotar a fala nos filmes: seu humor era principalmente gestual, focado em detalhes sensíveis de expressão que não necessitavam de linguagem verbal (talvez até mesmo a repelissem).

A cena

           “The Idle Class” é um filme que, apesar de pouco lembrado, faz parte de uma linha de produções já maduras de Chaplin, em que o autor tinha todo o controle da criação e podia colocar suas ideias em prática. Ideias que se manifestam, sobretudo, nessa gag do “falso choro”: uma mostra da criatividade de seu autor e das possibilidades que seriam desenvolvidas ainda mais dentro de poucos anos e alguns filmes.

Edna Purviance: a preferida de Charlie

Edna Purviance Foto: Imdb

Edna Purviance
Foto: Imdb

o ano é 1915. Contrato novo, set novo, histórias novas, tudo novo. Chaplin havia acabado de filmar “His New Job” (um filme de 2 rolos), estava sem ideias e sem sua personagem principal.

Chaplin começou a montar sua própria pequena companhia. Ele trouxe Ben Turpin, Leo White e Bud Jamison de Chicago. Também recrutou um ex artista de Karno, Billy Armstrong, e outro artista inglês, Fred Goodwins, que já tinha atuado no teatro dramático, depois de um inicio de carreira como jornalista. Paddy McGuire veio de Nova Orleans via comédia burlesca e musical, mas foi escalado como irlandês bucólico. Uma tarefa primordial, entretanto, era encontrar uma atriz principal. Um dos rapazes de Bronco Billy – Carl Strauss ou Fritz Wintermeyer – recomendou uma garota que frequentava o Tate’s Café na Hill Street, em são Francisco. (ROBINSON, 2011)

O senhor Tate conhecia-a muito bem.A moça vivia com uma irmã casada, era de Lovelock, Nevada, e se chamava Edna Purviance. Imediatamente entramos em contato com ela e marcamos um encontro no St. Francis Hotel. Era não apenas bonita: ela belíssima. Na entrevista, pareceu-me um pouco triste e séria. Soube, depois que estava se recuperando de um desgosto amoroso. Tinha feito o curso secundário e comercial. Era discreta, reservada, com grandes olhos, belos dentes e uma boca sensível. Duvidei de que fosse capaz de representar ou de que tivesse qualquer humor, tão grave me parecia. Contudo, apesar dessas reservas, eu a contratei. Pelo menos daria uma nota decorativa às minhas comédias. (CHAPLIN, 1964)

Fonte: Imdb

Fonte: Imdb

Foi assim que Edna, a atriz principal de mais de 30 filmes, “surgiu” na vida de Chaplin. Ele ainda achava que Edna não teria humor algum, muito menos a comicidade necessária para uma de suas comédias. Porém foi em uma festa entre amigos, um dia antes ao início das gravações de Charlie, que ficou provado: Edna tinha sim senso de humor. Ao fim do jantar, Chaplin se gabava por ter poderes hipnóticos, e todos acreditaram, menos a senhorita Purviance. Chaplin então propôs hipnotizá-la em sessenta segundos e ela aceitou tentar. Ele sussurrou ao seu ouvido: “Finja!” e então fizeram uma cena de hipnotismo que agradou muito ao Sir. Após isso, Purviance subiu no conceito de Chaplin.

Nascida em 21 de outubro de 1895, em Paradise Valley, Nevada, filha de Louis e Madison Gates Purviance, sua primeira aparição na tela foi em “A Night Out”, o segundo filme de Charlie para a Essanay.

Contracenando com Charles Chaplin
Fonte: DTC

Segundo a autobiografia de Charlie, ele e Purviance estavam romanticamente envolvidos durante seu tempo de Essanay, Mutual e First National  (1915-1923). Purviance apareceu em 33 produções de Chaplin, inclusive em “The Kid”. Seu último filme com ele, “A Woman of Paris”, também foi seu primeiro papel principal. Ela fez mais dois filmes: “The Sea Gull”, também conhecido como “A Woman of the Sea” que Chaplin não lançou, e “Education of Prince”, um filme francês lançado em 1927, pouco antes de se aposentar como atriz.

 

A Woman of Paris Fonte: Imdb

A Woman of Paris
Fonte: Imdb

Purviance casou-se com John Squire, um piloto da Pan-American Airlines, em 1938. Ele faleceu em 1945. Recentemente filmes mudos, sobre sua vida de casada foram descobertos, e mais de 50 fotos da produção de seu filme inédito “The Sea Gull”, também apareceram, infelizmente ainda não foram lançados para o público.

 

O Imigrante Fonte: Imdb

O Imigrante
Fonte: Imdb

Chaplin a manteve em sua folha de pagamento até sua morte. Ela morreu de câncer em 11 de Janeiro de 1958. Foi enterrada no Grand View Memorial Park, em Glendale, na Califórnia.

 Por Anny Moura

  • Referências: 
  • Chaplin His Life & Art, by David Robinson
  • My autobiography, by Charles Chaplin
  • Imdb
  • DTC