David Robinson

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Charles Chaplin em duas ótimas séries de livros

Por Diogo Facini

 A obra de Chaplin, além de extensa e numerosa, levou à publicação de inúmeros livros. Escritos por ele ou por outros autores, biografias, estudos, textos históricos ou de curiosidades, os exemplos são vários. Neste texto falaremos sobre duas séries de livros dedicadas à sétima arte e aos nomes que de alguma forma contribuíram para sua história. Além de sua ótima qualidade, cada uma dessas séries dedicou um livro a Charles Chaplin.

 

Série Movie Icons

            A Série Movie Incons é publicada pela editora alemã Taschen, que se dedica principalmente aos livros de arte. Com relação a essa série específica, como o próprio nome diz, ela é dedicada a ícones do cinema, atores e atrizes que de alguma forma gravaram seus nomes na história do cinema. Assim, o destaque não é dado para os criadores (diretores, roteiristas, produtores), mas sim para aquelas pessoas que apareceram de fato em inúmeras produções bem sucedidas. Além de Chaplin, a série contempla personalidades como Al Pacino, Robert de Niro, Clint Eastwood, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe, e mesmo artistas mais conhecidos em outras áreas de atuação (mas com carreiras também no cinema), como Elvis Presley e Frank Sinatra.

            Com relação à versão sobre Chaplin, ela é editada por Paul Duncan e apresenta uma pequena introdução escrita pelo seu biógrafo mais conhecido, David Robinson. A seguir há uma filmografia visual, que ocupa grande parte da obra, seguida por uma cronologia de Chaplin e filmografia escrita. Como dito, o núcleo do livro (assim como aparentemente de todos dessa série) consiste na filmografia visual. Através de fotos e algumas legendas e citações, é apresentada toda a carreira de Charles Chaplin, desde seus curtas de 1914 até “A Condessa de Hong Kong”, de 1967. São trazidas inúmeras fotos de altíssima qualidade, a maioria retirada seus filmes e algumas de materiais de publicidade e jornais ou biográficas.

            Devemos destacar ainda a grande qualidade do material, tanto o papel quanto a impressão, que fazem dessa série um material muito atrativo para colecionadores. Além disso, a série Movie Icons é trilingue (português, espanhol e italiano), o que, apesar da ausência de grandes textos, aproxima mais o livro do público brasileiro. Para os fãs de Chaplin e mesmo os fãs de cinema, esta é uma obra muito interessante. O seu preço relativamente baixo chama ainda mais a atenção para essa série que, se não obrigatória, merece ao menos uma bela “olhadinha” dos interessados.

 

Masters of Cinema – Cahiers Du Cinéma

            A Cahiers du Cinéma é uma prestigiada revista de cinema francesa fundada nos anos 1950. Além da revista, a Cahiers publica alguns livros sobre o cinema, e uma das séries é a Grands Cinéastes ou Maîtres du Cinéma no seu idioma original, ou Masters of Cinema, em inglês. Devido ao maior acesso do brasileiro à língua inglesa e mesmo a essa versão traduzida, comentaremos sobre ela.

            Diferentemente da série Movie Icons, que é dedicada aos “astros e estrelas” que participaram da história do cinema, a série Masters of Cinema é dedicada aos seus criadores e realizadores, às mentes criativas que, antes de aparecer nas telas, planejaram sequências, escreveram roteiros, pensaram nas várias partes do filme e o dirigiram. Assim, são discutidas as obras de artistas como Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Francis Ford Copolla, Frederico Fellini, entre outros diretores. Logicamente, não há como separar Charles Chaplin de seu lado de ator; ele que ainda é considerado um dos maiores atores do cinema. No entanto, essa obra dá destaque a outro lado de Chaplin: o do cineasta.

            O livro dedicado a Chaplin, escrito por Jémôme Larcher, pode ser considerado algo como uma “biografia artística”. Passa por toda a carreira do diretor, apresentando seus filmes principais; no entanto, não se trata apenas de uma descrição. O autor, além de apresentar, discute e realiza uma crítica de muitos elementos da obra do autor e traz visões interessantes sobre as obras do cineasta. Como exemplo, podemos destacar a “ousadia” apontada pelo autor no final de “Luzes da Cidade”, quando Chaplin não mostra a reação da florista (ex) cega ao saber quem era seu príncipe e deixa o filme em aberto, e um comentário sobre as cenas em que Chaplin olha diretamente para a câmera, fato pouco comum no cinema moderno. O livro é dividido em cinco partes principais: introdução; período anterior à sua entrada no cinema; período até o filme “O Garoto”; período até “O Grande Ditador”; e período posterior. Apesar de esse ser um livro bem mais “textual” que o da série Movie Icons, ele também é acompanhado por inúmeras imagens, importantes em um livro sobre cinema, e também de alta qualidade.

            Talvez o maior problema desse livro seja a questão do idioma. Não há versão em português, e o fato de trazer um texto um pouco mais técnico em outra língua (ainda que não muito) talvez afaste os leitores. No entanto, trata-se de uma obra muito interessante, que combina biografia, teoria, crítica e uma exposição visual de forma exemplar. Assim como a série Movie Icons, esse livro pode ser encontrado por preços bem convidativos e é de acesso relativamente fácil.

            Por fim, devemos marcar um ponto importante sobre esse livro. É um fato bem relevante a escrita de um a edição voltada a Charles Chaplin em uma série dedicada aos mais importantes diretores do cinema. Chaplin, apesar de respeitado pela sua criação, Carlitos, em seu caráter quase mitológico, e também pelos seus talentos de cômico, é muito negligenciado quando se trata dos méritos de seus filmes dentro do campo do cinema e de seus talentos como cineasta. O fato de Chaplin ser colocado, nessa série, ao lado de diretores valorizados como Ingmar Bergman, Orson Welles, Pedro Almodóvar, entre outros, valoriza um pouco mais essa sua obra que é tão importante, inclusive como diretor.

Outros exemplar da série Movie Icons

 

Alguns livros da série Masters of Cinema

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Livro inédito de Charles Chaplin é lançado na Itália

As comemorações alusivas ao centenário de Charles Chaplin ganham um elemento especial: Nesta terça-feira, será lançado um livro INÉDITO do artista. Intitulado de “Footlights”, a obra inspirou o filme “Luzes da Ribalta”, de 1952, considerado pela crítica como a última grande obra de Chaplin no cinema.

A jovem bailarina (Claire Bloom) e o velho palhaço (Chaplin).

A jovem bailarina (Claire Bloom) e o velho palhaço (Chaplin).

O romance foi escrito por volta de 1948 e havia uma série de rascunhos, encontrados nos “Arquivo Chaplin”, na Suíça. David Robinson, seu principal biógrafo, autor do livro “Chaplin – Uma biografia definitiva” foi o responsável por organizar e reconstruir a obra, que foi iniciada por uma digitalização desde 2002. A família de Charles Chaplin autorizou todo o processo. Esse material encontra-se disponível para o público, na biblioteca de Bologna, na Itália.

A Cineteca de Bologna é responsável pela restauração de mais de 70 filmes de Charles Chaplin, sob a autorização da família do artista, desde o ano de 1998, e vem sendo atualizada na medida que surgem novas tecnologias.

O filme “Luzes da Ribalta” conta a história de um palhaço inglês, que está envelhecendo e já não consegue atrair a atenção do público. Sofrendo um vazio existencial, ele encontra uma bailarina que tenta o suicídio, por não mais poder dançar, e se propõe a ajudá-la, encontrando assim um sentido para sua vida. O desprezo do público era o maior medo de Charles Chaplin e, por isso, muitos dizem que esse é um filme biográfico do artista. O filme é conhecido, também, por trazer o maior “rival” de Chaplin no cinema, Buster Keaton, sendo essa a única vez em que os dois são vistos juntos, num filme.

Chaplin e Keaton em cena (1952)

Chaplin e Keaton em cena (1952)

O livro “Footlights”, na versão impressa, em inglês, será vendido na Amazon.com e no site da Cineteca de Bologna.

Fonte: O Globo

Charlie Chalin: O Pequeno Vagabundo

Mais de setenta anos após a sua última aparição no grande ecrã, o Pequeno Vagabundo, de Charles Chaplin, permanece como ícone máximo, não só do cinema, mas também do século vinte e reconhecido e adorado por todo o mundo. Se pode existir uma explicação para este sucesso único com um público universal, será certamente a sua capacidade de transpor para a comédia as ansiedades e preocupações fundamentais da vida humana – um reflexo das suas próprias experiências de vida. Nascido em Londres, filho de dois cantores do music hall, que se separaram quando ele ainda era um bebê, cresceu na miséria extrema, passando parte da sua infância em instituições para crianças destituídas. Contudo, quando tinha dez anos a sua sorte mudou radicalmente ao tornar-se um artista profissional. Trabalhos com grupos do music hall e uma oportunidade de trabalho de três anos em palco forneceram-lhe uma valiosa aprendizagem precoce na arte de representar. Os seus dotes foram aguçados pelos anos de trabalho com Fred Karno, o mais brilhante empresário de comédia de musc halls britânicos.

Durante uma digressão pelos circuitos americanos de vaudeville, foi descoberto e contratado pelos estúdios Keystone, de Mack Sennett. Rapidamente se apercebeu de que, para realizar completamente o seu próprio estilo de comédia os filmes, teria de ser o seu próprio realizador. Ele aprendeu a dominar a sétima arte com uma velocidade incrível, e após os primeiros três meses, já dirigia todos os seus próprios filmes. Continuamente em busca de maior independência, bem como de maiores salários, saiu da Keystone para as companhias cinematográficas Essanay e Mutual. Nos primeiros quatro  anos do grande ecrã, evoluiu do principiante despreocupado das comédias da Keystone, passando pela ironia e o sentimento, até chegar às obras primas da Mutual que incluem a The Pawnshop, Easy Street e The Immigrant.

Em 1918, um acordo com a empresa de distribuição First National permitiu-lhe o luxo de ter o seu próprio estúdio, concebido com o que havia de mais moderno na época, e com a sua própria equipe e elenco permanentes. Aqui ele converteu os horrores da Primeira Grande Guerra em comédia, com Shoulder Arms e interpretou as privações e ansiedades da sua própria infância em O Garoto (The Kid), onde encontrou o parceiro ideal em Jackie Coogan, de apenas 5 anos.

Em 1919, os quatro gigantes de Hollywood na época – Chaplin, Douglas Fairbanks, Mary Pickford e o realizador D. W. Griffith – formaram a United Artists, para distribuírem os seus próprios filmes. O primeiro lançamento de Chaplin sob a chancela da United Artists foi A Woman of Paris, um filme dramático concebido para a estrela Edna Purviance – a sua fiel atriz principal e amante ocasional, desde 1915 – no qual ele tinha apenas uma breve participação. Este filme brilhante foi uma revolução no estilo de comédia sofisticado, mas o único desastre de bilheteria de Chaplin. Foi rapidamente ofuscado pelo triunfo de A corrida do ouro (The Gold Rush), que demonstrava, uma vez mais, a crença de Chaplin de que a comédia e a tragédia nunca se encontram muito distantes: esta hilariante comédia foi inspirada pelas severas privações dos pesquisadores de ouro da década de 1890.

A chegada do cinema sonoro, em 1927, supôs para Chaplin um desafio maior do que para os outros realizadores. A sua pantomima muda tinha-lhe logrado uma audiência universal, que iria certamente estranhar ouvi-lo a falar em inglês. A resposta de Chaplin foi continuar a realizar filmes mudos – Luzes da cidade (City Lights, 1931) e Tempos modernos (Modern Times, 1936) – com a banda sonora apenas para os efeitos sonoros e o acompanhamento musical, composto por Chaplin, que ganhava, assim, um novo crédito para adicionar ao de produtor, realizador, argumentista e ator.

Em Tempos Modernos, Chaplin utiliza a arma da comédia para critica temas polêmicos da atualidade – como sejam a industrialização e o confronto entre o capital e o trabalho. Em O grande ditador (The Great Dictator, 1940) os seus alvos foram o fascismo e os seus líderes, os iminentes perigos da altura. Os críticos queixaram-se que o comediante estava a exceder as suas competências.

A sua amizade com intelectuais de esquerda, foi sempre alvo de desconfiança por parte da direita da política estadunidense. com a Guerra Fria e a perseguição de McCarthy à esquerda política, Chaplin tornou-se um alvo preferencial.

(…)

…deixou os Estados Unidos encontrando exílio permanente na Suíça. Em Londres realizou ainda mais dois filmes: Um Rei em Nova York (The King in New York), uma sátira à paranóia política americana e A Condessa de Hong Kong (Countess from Hong Kong). Infatigável até ao final, ele publicou dois volumes autobiográficos, compôs música para os seus filmes mudos e perto do fim ainda planejou outro filme. Morreu no dia de Natal, a 25 de Dezembro de 1977.

Texto extraído do volume CHAPLIN, da coleção Movie Icons, Taschen.

David Robinson, no livro Movie Icons – Chaplin, Taschen, 2006.