Cinema Falado

Entre criadores e criaturas

Por Diogo Rossi Ambiel Facini

       É notório que Charles Chaplin foi extremamente influente ao longo da história do cinema. O ator/diretor ajudou a desenvolver e a estabelecer algumas das principais características da sétima arte. No entanto, sua marca foi além: ao longo do tempo, ela foi se manifestando na obra de outros criadores. Conforme o cinema ia avançando, novas e novas gerações se apropriavam de algo do criador de Carlitos, e também iam, ao seu modo, abrindo novos caminhos e possibilidades para o cinema. Outro ponto importante dessa presença é a sua extensão: Chaplin influenciou de gregos a troianos, ou no caso do cinema, de clássicos a modernos, cada um estabelecendo um diálogo diferente com os seus filmes.

      Porém, antes de influenciar, Chaplin também foi influenciado. Essa influência na obra do pai de Carlitos pode ser encontrada desde em elementos mais gerais, como em alguns elementos do personagem, até em elementos mais específicos, como em temas e ideias para seus filmes. E é aqui que este texto efetivamente começa. Uma obra específica influenciou significativamente um dos filmes mais importantes de Chaplin. Essa influência é notória e polêmica, já que levou até mesmo a um processo de plágio. Trata-se de um fato conhecido, que pode ser consultado nas principais biografias sobre o diretor inglês. Como ocorreu essa influência? Em que elementos do filme de Chaplin ela pode observada? São essas questões que tentarei discutir nas próximas linhas. Os filmes? A nós a liberdade e Tempos Modernos.

Pôster de “A nós a liberdade”

            A nós a liberdade (À nous la liberté) é um filme de 1931, dirigido pelo francês René Clair. Trata-se de uma comédia com alguns números musicais, algo comum nessa época inicial do cinema sonoro/falado. A obra traz dois personagens principais, Émile e Louis. Ambos estão inicialmente presos, mas logo executam um plano de fuga. Infelizmente seu plano não dá tão certo, e Émile acaba por sacrificar suas possibilidades de fuga para que o amigo consiga escapar. Com isso, somente Louis foge da prisão. Enquanto Émile estava preso, Louis tinha conseguido manter sua identidade de fugitivo oculta; iniciou um negócio de discos, e agora era um rico e poderoso dono de uma fábrica de vitrolas. Quando Émile é solto da prisão, uma parte desse passado não tão “respeitável” de Louis volta à tona, e muitas confusões e fatos cômicos ocorrem…

Émile e Louis, em “A nós a liberdade”

           Até aqui tudo bem. Mas onde está a influência sobre o filme de Chaplin?

       Em primeiro lugar, ela pode ser observada em um sentido mais amplo, relacionado a alguns temas mais gerais que permeiam a obra. Em A nós a liberdade está presente a questão do controle dos indivíduos, primeiro na prisão, depois no trabalho na fábrica. O filme lida com os impactos trazidos com a modernidade, uma modernidade que tende a pensar cada vez mais em um aumento de produtividade a qualquer custo. O título da obra não é sem razão: de forma leve e cômica, o filme apresenta a luta de alguns indivíduos para sobreviverem nessa então nova sociedade, que tendia a diluir cada vez mais as identidades em favor de uma massa de trabalhadores.

A vida na prisão, em “A nós a liberdade”

            No entanto, a influência mais notável de A nós a liberdade (que talvez tenha sido a maior justificativa para a acusação de plágio) pode ser observada não nesses aspectos mais amplos do filme, mas sim em alguns momentos específicos, que podem ter fornecido ideias para algumas situações cômicas de Tempos Modernos. Principalmente em duas sequências, que apresentam de algum modo as configurações do trabalho dessa nova etapa do capitalismo: primeiramente a sequência da prisão, que mostra os detentos “fabricando” brinquedos, mas o destaque de fato deve ir para a segunda sequência, na fábrica de vitrolas; principalmente uma pequena cena, que deixou explicitamente as suas marcas em Tempos Modernos.

A linha de montagem em “A nós a liberdade”

          Nessa sequência temos uma linha de montagem na produção das vitrolas: cada trabalhador, disposto em sequência, deve efetuar uma função bastante específica repetidamente, o que, no conjunto das atividades, formaria o produto final. Lembrou-se de algo? Bom, até aí não podemos fazer grandes afirmações, já que se trata da descrição de uma linha de montagem, e outros filmes podem fazer uso desse “espaço” fílmico. No entanto, a influência começa no enquadramento da câmera, que captura os personagens de um ângulo relativamente parecido; além disso, em ambas as produções ela se movimenta lateralmente para captar a continuidade da linha de montagem. E a influência é mais clara ainda no desenrolar das ações. O personagem Émile é o primeiro trabalhador da “fila” de produção. As peças seguem em um fluxo constante, o que o obriga a agir rapidamente. Mas Émile se distrai, o que faz com que corra para a posição seguinte, onde está outro operário; este por sua vez, devido ao ocorrido, corre ao companheiro do lado, juntamente com Émile, já que também havia perdido o tempo de ação. O companheiro do lado também se atrasa, e assim vão todos os trabalhadores, como em uma bola de neve, tentando recuperar o tempo (e o serviço) perdido, até se juntarem em uma massa confusa e desesperada ao fim da linha. Aqui pode ser estabelecida uma relação direta com uma das cenas de abertura de Tempos Modernos. Carlitos, não conseguindo realizar o seu trabalho no tempo previsto, corre atrás das peças, atrapalhando os outros trabalhadores, e sendo, ao fim, “engolido” pela máquina.

A linha de montagem em “Tempos Modernos”

            Mesmo que haja essa relação clara entre as sequências de A Nós a Liberdade e Tempos Modernos, devemos destacar que Chaplin trabalha essa influência, introduzindo características e desenvolvimentos próprios no seu filme. Primeiramente, o diretor centra mais a cena do seu filme na individualidade de Carlitos, ao contrário do que ocorre na obra francesa, que envolve os trabalhadores em um conjunto. Além disso, Chaplin leva o “atraso” na linha de montagem a uma conclusão mais radical, já que o personagem está tão imerso no mundo da produção que é devorado por ele, na memorável cena em que Carlitos passa pelas engrenagens da máquina, um dos momentos mais lembrados de sua filmografia. Chaplin discute a relação entre homem e máquina, assim como os efeitos dessa nova forma do capitalismo industrial, de maneira mais crítica e mordaz do que em A nós a liberdade, filme que traz inclusive uma conclusão mais apaziguadora nesse sentido, mostrando um mundo em que as máquinas servem e ajudam os trabalhadores. Além disso, mesmo essa temática da luta pela sobrevivência em uma nova sociedade é desenvolvida de modo distinto nos dois filmes: na obra de Chaplin as questões são colocadas de maneira mais explícita, o que inclui as menções à quebra da Bolsa de Valores de Nova York de 1929 e ao desemprego generalizado que caracterizava os Estados Unidos da época.

Em “A nós a liberdade”, Émile é forçado a trabalhar para não ir preso por vagabundagem

            O que talvez seja mais interessante nessa questão, algo que ajuda a compreender melhor esse fenômeno das influências, é que as relações entre as obras dos dois autores também se deram em sentido inverso. Em outras palavras: a obra de Charles Chaplin influenciou significativamente o filme A nós a liberdade. Que René Clair era admirador de Chaplin é fato conhecido. No entanto, podemos ir um passo além e observar em que medida essa influência de Chaplin ocorreu nessa obra de Clair, ou seja, como o filme que influenciou Chaplin foi antes influenciado por ele.

Os efeitos do trabalho são mais nocivos em “Tempos Modernos”

           Podemos dizer que essa influência, agora de Chaplin sobre Clair, se manifesta principalmente em três elementos.

           Em primeiro lugar, devemos constatar que a presença de temas sociais e políticos na obra de Chaplin, ou, em outros termos, a mistura de temas considerados “sérios” com o discurso cômico, não surgiu no filme Tempos Modernos. Ela aparece explicitamente em outras obras anteriores relevantes do cineasta, como O Imigrante, Ombro, Armas e Em Busca do Ouro, e indiretamente em praticamente todas as suas produções. Desse modo, é bem provável que essa temática política de A nós a liberdade apresente relações diretas com a obra anterior do pai de Carlitos.

Carlitos sofre com as máquinas

         Além disso, há no filme francês uma forte presença da comédia pastelão (slapstick), caracterizado principalmente pelas perseguições e correrias. Está certo que esse tipo de comédia não é exclusivo de Chaplin e que ele não o inventou, mas em alguns gestos a proximidade é mais clara. Podemos citar o famoso chute no traseiro, que também não é exclusivo de Chaplin, mas que é fortemente identificado com o seu trabalho, principalmente nos seus curtas e médias-metragens. É curioso observar que esse filme é, em muitos momentos, silencioso; fora as eventuais canções, a obra apresenta poucas falas. De um modo geral, o humor do filme é quase que totalmente visual.

Louis às vezes se cansa de sua nova vida, em “A nós a liberdade”

         E por fim, a maior criação de Chaplin também não passaria despercebida. Carlitos exerce grande influência principalmente na construção e caracterização do personagem Émile. É difícil reunir em poucas palavras o que seria o adjetivo chapliniano, mas muito do que se refere a ele está presente aqui, formando o personagem: uma mistura de esperteza e inocência; uma preocupação quase única com o instante, que leva a atitudes heróicas ou absurdas, tudo ao mesmo tempo; um sentir-se deslocado do mundo, mas sempre correr atrás dele; uma paixão pela vida, que leva a um enfrentamento das adversidades… E por aí vai, mas talvez só assistindo para compreender.

O lado “vagabundo” de Émile, em “A nós a liberdade”

        Chaplin se alimenta de Clair. Clair se alimenta de Chaplin. Que se alimenta de Clair. Que se alimenta de Chaplin. Nesse banquete de influências e diálogos, a que conclusões podemos chegar? Talvez não muitas, mas talvez esse nem seja o objetivo mesmo. De qualquer modo, podemos notar que, além de discussões jurídicas, além de intrigas e polêmicas, temos o cinema. O cinema que se faz, se renova, dialoga com a sua história e com os seus criadores. O cinema que é feito de filmes, que são feitos de outros filmes, que são feitos de outros filmes. Fora isso, talvez não haja mais nada. Ou, quem sabe, haja ainda mais filmes.

Vocês ainda não leram nada! A história do cinema mudo por Celso Sabadin

Por Diogo Facini

Um período recheado de inovações, quando ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo e o que estava por vir. Um período de possibilidades, formado por pessoas que desbravavam caminhos que maravilhavam o mundo. Um período de sonhos, mas também conflitos, batalhas, em que alguns saíram vitoriosos e muitos ficaram esquecidos. Essas e outras características podem ser atribuídas a um período do cinema muitas vezes pouco lembrado, mas fundamental para o seu estabelecimento e o de praticamente tudo o que veio depois, e que é tratado e retratado em uma grande obra.

O livro “Vocês ainda não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo”, escrito pelo crítico, teórico de cinema e cineasta Celso Sabadin, publicado pela Summus Editorial, e que atualmente se encontra em sua terceira edição (2009) é uma obra fundamental, tanto para as pessoas que se interessem por algo do cinema mudo ou mesmo do cinema em geral, e que queiram conhecer a sua história, quanto para estudiosos desses temas.

O autor aborda a história dessa forma de cinema desde os seus primórdios, acompanhando desde as mudanças sociais e técnicas anteriores até o surgimento dos primeiros inventores e invenções que possibilitariam o desenvolvimento do cinema. São trazidas figuras que a história tratou de guardar, como os irmãos Lumiêre, considerados pais do cinema, Georges Méliès, um dos criadores da ficção de científica e dos efeitos especiais, o cineasta D. W. Griffith, entre outros; no entanto, são trazidas também muitas outras figuras que colaboraram de forma decisiva para o estabelecimento do cinema, mas que não receberam um tratamento tão generoso da história, e foram sendo esquecidas. Podemos acompanhar como o surgimento do cinema foi um processo difícil, cheio de indas e vindas e de pequenas inovações que iriam cimentando essa nova forma de entretenimento (antes mesmo de arte).

Os irmãos Lumière, considerados os pais do cinema

O livro mostra o caminho que o cinema tomou, de uma produção praticamente artesanal para uma “indústria do cinema”, com sua divisão do trabalho e produção quase em linha de montagem: o surgimento de algumas figuras que já viam o cinema de uma forma mais profissional (e capitalista), as primeiras empresas produtoras, a difusão impressionante do cinema pelo mundo…

Outro ponto importante discutido pelo livro é o caminho traçado pela indústria do cinema americana (que é que recebe mais destaque no livro) até a sua dominação esmagadora no cinema mundial. Muitas pessoas desavisadas podem achar que sempre foi assim, mas considera-se que o cinema começou na França, e esse país era o predominante no início do cinema. Além disso, países como a Alemanha, Itália e Inglaterra detinham produções consideráveis. Vários fatores ajudaram os Estados Unidos, como sua economia em crescimento e a grande imigração; porém a Primeira Guerra Mundial, que devastaria os países europeus e elevaria os EUA a um status de potência, é apontada como uma grande causa para essa supremacia no cinema. Além disso, o autor comenta como o cinema foi seguindo em direção ao oeste desse país, o que culminaria com o crescimento da poderosa Hollywood.

Alguns gêneros importantes são discutidos pelo autor. À comédia é dedicado um capítulo, destacando-se o trio fundamental da comédia americana: Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. O primeiro permanece através de Carlitos como a figura símbolo do cinema (mudo ou não). Keaton e Lloyd são menos conhecidos, mas não menos geniais. No caso de Keaton, com sua comédia visual inteligente, refinada e a sua conhecida “expressão sem expressão” (ele não sorria ou manifestava seus sentimentos através de expressão facial), é verdadeiramente uma pena que mais pessoas não vejam suas obras. As animações também começaram no cinema mudo, e Sabadin também aborda esse tema, mostrando algumas futuras figuras carimbadas.

Chaplin, um dos símbolos do cinema mudo.

Buster Keaton, o homem que nunca ria.

São discutidos também os cinemas de outros países. Podemos destacar aqui o cinema expressionista alemão e o soviético inicial, que apresentaram novas formulações estéticas e temáticas, e que sofreriam profundos danos com o aprofundamento dos regimes autoritários em seus países. Um ponto importante dessa obra é que ela aborda o período do cinema mudo em território brasileiro, infelizmente um quase completo desconhecido para a maioria das pessoas. É interessante notar que o cinema chegou aqui relativamente cedo e existiam núcleos de produção (e exibição) em todo o país, e uma produção considerável de longas metragens; inclusive há a produção de filmes de vanguarda, esquecidas por aqui, mas valorizados por autores estrangeiros.

Por fim, o autor aborda um assunto importantíssimo dentro da história do cinema: a passagem para o cinema falado. Como Sabadin aponta, o surgimento do som sincronizado com a imagem no cinema tem mais motivação econômica que artística; em uma indústria que precisava de novidades para superar um momento de crise (com queda no número de ingressos vendidos), o som representou um grande alívio. Deve ser mencionada a referência presente no título do livro ao filme “O cantor de jazz”, de 1927. Mas não devem ser dados mais detalhes: se não entendeu, vá ler o livro e assistir ao filme!

O livro “Vocês ainda não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo” constitui uma obra importantíssima para qualquer pessoa que se interesse de alguma forma pelo tema do cinema mudo. Única no país, com uma escrita ao mesmo tempo acessível, leve, mas séria nos momentos necessários, é uma obra que deve ser valorizada, tanto por sua qualidade, quanto pela ação de seu autor em dar voz e história a um período muitas vezes tão esquecido pelas pessoas, tanto espectadores casuais quanto especialistas em cinema.

Capa do livro.

Referências Bibliográficas:

SABADIN, Celso. Vocês não ouviram nada: A barulhenta história do cinema mudo. 3. ed. São Paulo: Summus, [1997] 2009.

Tempos Modernos: tinha uma fala no meio do caminho…

(Diogo Facini)

O filme Tempos Modernos, de 1936, deve ser o mais conhecido de Charles Chaplin. O Carlitos operário, que tem um colapso nervoso após a dura rotina em uma indústria e, sobretudo, é “engolido” pela máquina, é uma imagem tão emblemática e poderosa que ultrapassou em muito os limites deste filme para representar um pouco do “mito Carlitos-Chaplin”.

Carlitos e a Máquina.

Muito dessa impressão da fama de Tempos Modernos também deve vir do fato de este filme ser uma grande porta de entrada da obra de Chaplin. Parece que mesmo quem não conhece ou conhece pouco o autor, ao ouvir as palavras Tempos Modernos, se recordará de algo, talvez até inconscientemente, como em um “Ah sim! Agora sei quem é esse Chaplin! Por que não me disse antes!?”.

Cartaz do filme.

Tempos Modernos se transformou em um “tesouro cultural”, e é quase ensinado nas escolas, como um item de alguma “disciplina chapliniana”. Quando o assunto é capitalismo, produção em massa, fordismo (as grandes indústrias com alta divisão de trabalho) e a crise que se deu com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, esta produção aparece como uma referência, quase uma passagem obrigatória, um documento de um tempo, que deve ser visto para se entendê-lo.

Carlitos e a Máquina 2.

No entanto, essa abordagem mais histórica do filme, relacionada à crítica que ele faz a alguns elementos de seu tempo, não elimina outras formas de observarmos esta obra tão singular.

E talvez a maior singularidade do filme esteja não exatamente nas suas críticas à economia, à estrutura social, mas na sua posição com relação a um momento muito importante na história do cinema: a passagem do cinema mudo para o cinema falado. Tempos Modernos acompanha os conflitos não apenas entre novas organizações de produção (agora não tão novas) e formas antigas, entre a exploração e a liberdade. O conflito é também entre Chaplin (e Carlitos) e o cinema falado.

O primeiro filme falado é O Cantor de Jazz, de 1927. Desse filme para o de Chaplin há uma diferença de nove anos, em que muita coisa aconteceu. O mais importante é que o cinema falado virou uma realidade, indiscutível, incontestável. Ou quase.

Chaplin, nesses nove anos, traçaria uma trajetória tão única nesse campo do som que podemos dizer que esse é um dos fatores que contribuiu fortemente para seu mito na história da arte. Em 1928 viria O Circo, filme ainda completamente mudo, um dos seus mais engraçados, que segue um humor mais próximo do estilo de seus primeiros filmes (e que foi talvez injustamente “ignorado” em sua autobiografia, de 1964). Em 1931 viria Luzes da Cidade, em que há a introdução de efeitos sonoros (como em uma célebre cena em que sons de buzina são colocados no lugar das vozes em um discurso), e que é talvez o filme narrativamente mais bem realizado entre os seus mudos.

“Luzes da Cidade” (1931).

Tempos Modernos acompanharia esse desenvolvimento. No entanto, esse desenvolvimento seria levado ao limite das possibilidades do cinema mudo. Após este filme, algo teria que mudar.

Aqui, há efeitos sonoros diversos permeando todo o filme, como nas máquinas e em barulhos do estômago, em uma gag só possível com os novos efeitos. Além disso, há uma trilha sonora fantástica, talvez em sua totalidade a melhor de todos os filmes de Chaplin. E há até mesmo algumas falas, principalmente do patrão (que não alteram a essência muda do filme). E há um Carlitos falante ao fim do filme.

A voz da autoridade.

Para se entender um pouco dessa “hibridez sonora” nos filmes do autor, é necessário nos lembrarmos da assumida resistência de Chaplin ao cinema falado (que pode ser observada tanto em sua autobiografia quando na de David Robinson, por exemplo). Chaplin era um gênio da mímica; Carlitos nunca precisou dizer nada, se comunicava através de gestos, olhares, feitos e repetidos exaustivamente pelo seu criador. Por isso, a mudança em seus filmes do mudo para o falado foi lenta, gradual, e produziu essas criações híbridas. Algo muito interessante nesse ponto quando observamos nos dias de hoje o filme Tempos Modernos é que essa sua não imposição às exigências dos tempos, às modas, deu ao filme (e a Luzes da Cidade) uma vitalidade que não se encontra na maioria dos filmes da época. Recusando-se a limitar-se ao seu tempo, Chaplin criou seu próprio tempo.

Carlitos: a ovelha negra?

No seu filme seguinte, o também conhecidíssimo O Grande Ditador, Chaplin aderiria completamente ao cinema falado, com seus diálogos e efeitos sonoros completos (que não apagariam as forças de Chaplin como mímico, através principalmente de seu Adenoid Hynkel). No entanto, foi em Tempos Modernos que o seu personagem, Carlitos, Charlot, Vagabundo, falou. Primeira e única ocasião (já que o personagem seria aposentado a seguir), esta fala não foi exatamente uma fala, mas sim um canto, que não trouxe exatamente palavras, mas sons de palavras que se pareciam com várias línguas e com nenhuma. Esta cena do canto foi discutida por mim em minha monografia da graduação, o que mostra o potencial da obra de Chaplin (no caso, de Tempos Modernos) para novas questões e reflexões.

É interessante observarmos, com isso, que a crítica de Chaplin ia além dos elementos econômicos e políticos, e que os “tempos modernos” retratados no filme não se referiam apenas a esses aspectos sociais/estruturais. A crítica de Chaplin atravessava o próprio cinema, suas transformações e limites. Este filme, feito em um momento de profundas transformações sociais, políticas e culturais, pela sua própria constituição mista, aponta para os dilemas de um criador Chaplin já não tão seguro com relação ao seu cinema, mas que ao mesmo tempo enfrentava bravamente a aura “milagrosa” do som.

Talvez o mais importante, neste texto curto, que não pretende afirmar muita coisa, é observarmos o quanto a arte Chaplin sobreviveu. Fez a seguir filmes sonoros bem sucedidos; os filmes mudos continuaram referências obrigatórias (apesar de menosprezados no meio acadêmico) e sobreviveram na memória coletiva. E Tempos Modernos, produzido no olho do furacão, continua quase como símbolo da obra do autor. Quem sabe esses muitos conflitos deram ao filme uma tensão que o encheu de vida, uma vida que não se esvairá tão facilmente. Quem sabe seja tudo mera coincidência. Quem sabe a sua mensagem (se há) nesse filme estivesse mais forte do que nunca: Sorrir levanta o que há de homem no homem. O sorriso de Tempos Modernos sobrevive em nossos tempos pós-modernos.

Onde estará Carlitos?