Casamento ou Luxo

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“Casamento ou luxo”: o fracasso mais bem-sucedido de Chaplin

Por Diogo Rossi Ambiel Facini

            Estamos no começo da década de 1920. Charles Chaplin, conhecido e reconhecido como ator e diretor, já havia entrado em um período de maturidade artística, exemplificado em obras como Pastor de Almas e O Garoto. Com esse último filme, inclusive, Chaplin partia para o formato dos longas metragens, que exigia roteiros mais elaborados e uma maior construção. No entanto, o cineasta não estava satisfeito. Era um dos grandes nomes da comédia do cinema mudo e seu Carlitos possuía um status mitológico, mas Chaplin queria fazer algo diferente. E assim o fez.

            Casamento ou Luxo (A Woman from Paris) é um filme dirigido por Charles Chaplin, lançado em 1923, trazendo nos papéis principais a sua companheira de cena de longa data, Edna Purviance, além de Carl Miller e do francês Adolphe Menjou. Vejamos novamente uma informação: trata-se de um filme em que Chaplin atuou na função de diretor, mas não na de ator (apenas em uma pequena participação, como fazia Alfred Hitchcock). A ausência da sua atuação implica uma ausência importante, a de Carlitos. Essa mudança vai além, pois outra característica do filme é também bastante singular: não se trata de um filme cômico, mas sim de um drama.

Edna Purviance no filme

            Desse modo, temos duas características que diferenciam essa obra do “padrão” das produções do cineasta: ele não atua na obra (e, talvez mais importante, não há Carlitos), e não se trata de uma comédia. Chaplin tentava mostrar que podia ser mais do que o seu clássico personagem e ir além do gênero pelo qual ficou conhecido. Conseguiu? A resposta pode ser sim e não.

            O filme traz a história de Marie St. Claire, personagem de Edna, que combina uma viagem de fuga com o namorado, mas que acaba partir só, já que ele não aparece na estação de trem, o que faz Marie pensar que havia sido abandonada (na verdade, o pai do seu namorado havia falecido no momento da saída do filho, o que impediu qualquer atitude sua). Marie vai para Paris, e lá se estabelece como uma espécie de amante de um “playboy” milionário. Depois de um tempo, a personagem descobre que seu antigo namorado também está vivendo na cidade luz (junto com sua mãe viúva) e com isso alguns conflitos se estabelecem. Marie deve escolher o conforto da vida atual ou o brilho de um romance antigo? É só assistir ao filme e conferir.

Marie St. Claire e o namorado

            Como dito, o filme é um drama, e o cineasta procurou trazer novos elementos ao filme, que o diferenciassem das comédias anteriores e estabelecessem algumas inovações em relação ao cinema que era produzido na época. Podemos citar dois exemplos de peculiaridades da obra.

Em uma vida mais luxuosa, com o amante.

            Em primeiro lugar, o diretor procurou claramente trazer uma nova forma para a interpretação dos seus atores. Chaplin se esforçou para tornar as atuações mais naturalistas, “realistas”, e isso é conseguido com um destaque dado à gestualidade dos personagens, em expressões sutis, às vezes imperceptíveis, mas cheias de significado. Lembremos que ainda se estava na fase do cinema mudo, e, nesse contexto, havia uma tendência quase geral ao uso de expressões mais carregadas e uma valorização dos gestos (tanto faciais quanto corporais) para “compensar” um pouco a ausência dos diálogos. Nesse sentido, Casamento ou luxo trouxe um “modelo” de interpretação que se baseava em expressões mais contidas, sutis, e que trazia uma ênfase maior nos detalhes do que em informações explícitas. Trata-se de uma obra de sutilezas. Deve-se destacar que essa mudança na interpretação não é completamente repentina, já que Chaplin já a estava realizando desde o fim dos anos 10 em seus filmes, adicionando elementos mais realistas nos filmes e mesmo no seu personagem Carlitos, que ganhava contornos psicológicos mais complexos. No entanto, Casamento ou Luxo introduziu um novo patamar nesse desenvolvimento do diretor, o que talvez tenha sido auxiliado pelo fato de se tratar de um drama, que pede de modo geral determinadas características distintas da comédia.

Chaplin dirigindo os atores

            Além disso, há outra característica importante do filme que se relaciona de certa forma à sutileza nas interpretações, mas agora mais próxima da direção e da composição mais ampla da obra. Essa característica também aparece nas obras anteriores de Chaplin, mas aqui está mais desenvolvida e mais clara. Trata-se de uma ênfase em sugestões, alusões e um uso consciente de elipses (uso de cortes, omissão de determinados trechos, mas que nem por isso deixam de ser significativos). O cineasta estava tratando de temas polêmicos para a época nesse filme, principalmente a relação “liberal” (sem casamento) entre a personagem de Edna e o milionário playboy. A apresentação da relação não poderia ser tão explícita, por isso deveriam ser usados alguns artifícios para ao mesmo tempo indicar o que se passava e evitar a censura. Nesse sentido, um exemplo é bastante significativo e conhecido. Na casa de Edna, em determinado momento, um dos personagens deixa cair o colarinho da camisa de seu amante francês. Ele não mora com ela e nem são casados, como já afirmado. No entanto, a presença de uma peça de roupa na casa de Edna mostra que eles têm uma relação próxima (e íntima). Não é dada nenhuma informação explícita, seja através de falas ou diálogos (mesmo que por escrito, nos intertítulos), seja através de gestos mais incisivos. Esse detalhe, a queda de uma peça de roupa, diz tudo o que era preciso ser dito.

O filme também apresenta alguns momentos de sensualidade

            No entanto, o filme não trazia Carlitos, e essa ausência talvez tenha sido cruel para o destino do filme em um sentido comercial. O mito Carlitos era enorme e o público queria vê-lo, mas só havia Chaplin, e não o Chaplin ator (mesmo que sem Carlitos): havia somente o cineasta. Assim, o filme foi malsucedido em termos de público, o que de certo modo continua mesmo mais de 90 anos após o seu lançamento, já que ele é sem dúvida um dos mais desconhecidos do cineasta (ainda mais se comparado aos seus irmãos longas metragens dos anos 20 e 30).

Chaplin mostrando que sua presença no filme não seria como ator

            Devido a essa condição de, ao mesmo tempo, filme bem realizado em um sentido estético (e inovador) e fracasso comercial, podemos dizer que houve duas consequências principais e um pouco contraditórias na filmografia posterior de Chaplin. Em primeiro lugar, o cineasta retorna logo a seguir, em sua próxima produção, tanto a Carlitos quanto a um filme cômico. O filme seguinte do diretor, Em Busca do Ouro, é dos seus mais bem-sucedidos e reconhecidos. O retorno mais explícito ao gênero drama só se daria em 1952, com o filme Luzes da Ribalta (que trazia, no entanto, a atuação de Chaplin). O único filme posterior que não trazia Chaplin como ator seria também o seu último, A condessa de Hong Kong, de 1967. Porém, apesar de esse retorno a elementos anteriores, não podemos dizer que de Casamento ou luxo deixou a produção posterior do diretor intacta: pelo contrário, diria que é quase possível apontar um “estilo de Chaplin” anterior e um posterior a Casamento ou Luxo. Mesmo que não se trate de dramas, os filmes realizados a partir de 1925 trazem algumas características que se destacam nesse filme anterior: um destaque à gestualidade em um sentido mais sutil e menos exagerado, interpretações que tendem a buscar um tom mais realista que em comédias anteriores, e uma montagem mais sofisticada, marcada por mais referências externas, alusões e elipses. Desse modo, mesmo que o filme tenha sido pouco assistido (até hoje), trouxe algumas marcas e influências interessantes para a sua obra, ajudando a definir o que depois se chamaria de chapliniano.

Cartaz do filme

            Poderíamos, ao fim, até especular: o que teria acontecido se Casamento ou Luxo tivesse sido um filme bem-sucedido comercialmente? Chaplin teria abandonado o personagem Carlitos? Teria se dedicado a mais dramas, ou talvez realizado dramas e comédias alternadamente, algo como faz o também ator e diretor Woody Allen? Não podemos saber. Só sabemos que Chaplin produziu algumas de suas obras mais significativas nos anos que se seguiram; enfrentou a passagem do cinema mudo ao falado e conseguiu manter-se relevante; e manteve o seu nome e o de Carlitos como quase símbolos da arte cinematográfica. Isso já deve bastar.

Versátil lança a obra completa de Charles Chaplin

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A coleção conta com 20 DVDs, com um encarte de 16 páginas, contendo pôsteres com imagens do artista. Essa versão contém as versões restauradas de todos os filmes de Charles Chaplin, sendo: 13 longas-metragens, 65 curtas e um mundo de extras, com imagens inéditas de bastidores e documentários sobre as obras do maior gênio do cinema de todos os tempos.

Disco 1 – Corridas de Automóveis para Meninos e outros 13 curtas
Disco 2 – Na Farra e outros 12 curtas
Disco 3 – O Casamento de Carlitos e outros 6 curtas
Disco 4 – Campeão de Boxe e outros 6 curtas
Disco 5 – Os Amores de Carmen e outros 6 curtas
Disco 6 – O Vagabundo e outros 6 curtas
Disco 7 – O Imigrante e outros 6 curtas
Disco 8 – Dia de Pagamento e outros 4 curtas
Disco 9 – O Garoto
Disco 10 – Casamento ou Luxo
Disco 11 – Em Busca do Ouro
Disco 12 – O Circo
Disco 13 – Luzes da Cidade
Disco 14 – Tempos Modernos
Disco 15 – O Grande Ditador
Disco 16 – Monsieur Verdoux
Disco 17 – Luzes da Ribalta
Disco 18 – Um Rei em Nova York
Disco 19 – Festival Carlitos
Disco 20 – A Condessa de Hong Kong

O preço inicial sugerido é de R$ 199,00 e a edição é limitada.

Concurso Cultural – Ganhe a obra completa (Parceria Versátil e Blog Chaplin)

O Blog Chaplin e a Versátil Home Vídeo são parceiros em um concurso cultural, que presenteará um dos leitores com a coleção Chaplin – A Obra Completa. Fiquem de olho no Blog Chaplin que lançaremos o concurso em breve.

UPDATE 17/10/2013:

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Edna Purviance: a preferida de Charlie

Edna Purviance Foto: Imdb

Edna Purviance
Foto: Imdb

o ano é 1915. Contrato novo, set novo, histórias novas, tudo novo. Chaplin havia acabado de filmar “His New Job” (um filme de 2 rolos), estava sem ideias e sem sua personagem principal.

Chaplin começou a montar sua própria pequena companhia. Ele trouxe Ben Turpin, Leo White e Bud Jamison de Chicago. Também recrutou um ex artista de Karno, Billy Armstrong, e outro artista inglês, Fred Goodwins, que já tinha atuado no teatro dramático, depois de um inicio de carreira como jornalista. Paddy McGuire veio de Nova Orleans via comédia burlesca e musical, mas foi escalado como irlandês bucólico. Uma tarefa primordial, entretanto, era encontrar uma atriz principal. Um dos rapazes de Bronco Billy – Carl Strauss ou Fritz Wintermeyer – recomendou uma garota que frequentava o Tate’s Café na Hill Street, em são Francisco. (ROBINSON, 2011)

O senhor Tate conhecia-a muito bem.A moça vivia com uma irmã casada, era de Lovelock, Nevada, e se chamava Edna Purviance. Imediatamente entramos em contato com ela e marcamos um encontro no St. Francis Hotel. Era não apenas bonita: ela belíssima. Na entrevista, pareceu-me um pouco triste e séria. Soube, depois que estava se recuperando de um desgosto amoroso. Tinha feito o curso secundário e comercial. Era discreta, reservada, com grandes olhos, belos dentes e uma boca sensível. Duvidei de que fosse capaz de representar ou de que tivesse qualquer humor, tão grave me parecia. Contudo, apesar dessas reservas, eu a contratei. Pelo menos daria uma nota decorativa às minhas comédias. (CHAPLIN, 1964)

Fonte: Imdb

Fonte: Imdb

Foi assim que Edna, a atriz principal de mais de 30 filmes, “surgiu” na vida de Chaplin. Ele ainda achava que Edna não teria humor algum, muito menos a comicidade necessária para uma de suas comédias. Porém foi em uma festa entre amigos, um dia antes ao início das gravações de Charlie, que ficou provado: Edna tinha sim senso de humor. Ao fim do jantar, Chaplin se gabava por ter poderes hipnóticos, e todos acreditaram, menos a senhorita Purviance. Chaplin então propôs hipnotizá-la em sessenta segundos e ela aceitou tentar. Ele sussurrou ao seu ouvido: “Finja!” e então fizeram uma cena de hipnotismo que agradou muito ao Sir. Após isso, Purviance subiu no conceito de Chaplin.

Nascida em 21 de outubro de 1895, em Paradise Valley, Nevada, filha de Louis e Madison Gates Purviance, sua primeira aparição na tela foi em “A Night Out”, o segundo filme de Charlie para a Essanay.

Contracenando com Charles Chaplin
Fonte: DTC

Segundo a autobiografia de Charlie, ele e Purviance estavam romanticamente envolvidos durante seu tempo de Essanay, Mutual e First National  (1915-1923). Purviance apareceu em 33 produções de Chaplin, inclusive em “The Kid”. Seu último filme com ele, “A Woman of Paris”, também foi seu primeiro papel principal. Ela fez mais dois filmes: “The Sea Gull”, também conhecido como “A Woman of the Sea” que Chaplin não lançou, e “Education of Prince”, um filme francês lançado em 1927, pouco antes de se aposentar como atriz.

 

A Woman of Paris Fonte: Imdb

A Woman of Paris
Fonte: Imdb

Purviance casou-se com John Squire, um piloto da Pan-American Airlines, em 1938. Ele faleceu em 1945. Recentemente filmes mudos, sobre sua vida de casada foram descobertos, e mais de 50 fotos da produção de seu filme inédito “The Sea Gull”, também apareceram, infelizmente ainda não foram lançados para o público.

 

O Imigrante Fonte: Imdb

O Imigrante
Fonte: Imdb

Chaplin a manteve em sua folha de pagamento até sua morte. Ela morreu de câncer em 11 de Janeiro de 1958. Foi enterrada no Grand View Memorial Park, em Glendale, na Califórnia.

 Por Anny Moura

  • Referências: 
  • Chaplin His Life & Art, by David Robinson
  • My autobiography, by Charles Chaplin
  • Imdb
  • DTC