Carlitos

O visual de Carlitos: a moda atual e a mensagem de Charles Chaplin

A composição do visual de Carlitos é uma reunião de elementos que estão presentes na vestimenta comum do final do século XIX: traje completo, com sapatos, calça social, paletó, camisa e colete debaixo do paletó, gravata, chapéu coco e, como foi visto em alguns filmes, havia até um lenço branco no bolso esquerdo. Contudo, suas roupas foram escolhidas para provocar estranheza: as calças eram muito largas, o paletó apertado, uma bengala de bambu servia para atribuir-lhe uma irônica pomposidade em meio à sua miséria e o bigode, que inicialmente era um recurso para esconder a pouca idade de Chaplin (25 anos), deu respeitabilidade ao personagem; seus sapatos eram bastante grandes e velhos, os pés ficavam sempre entreabertos e o chapéu-coco era um modismo da época. Assim o personagem Carlitos aparecia duplamente controverso. Por um lado, podemos considerá-lo desajustado para a sociedade, porque suas roupas velhas e fora de sua medida demonstravam a pobreza de quem aproveitou as vestes que tinha ou mesmo reaproveitou as vestes de outras pessoas. Por outro lado, ele era desajustado para um vagabundo, pois na sua condição não era usual o cuidado em manter o traje completo de um gentleman britânico, nem mesmo tentar exibir tal pomposidade.

Imagem extraída do livro: SANCHES, Everton L. Charles Chaplin: confrontos e intersecções com seu tempo. São Paulo: Paco, 2012, p. 49.

Imagem extraída do livro: SANCHES, Everton L. Charles Chaplin: confrontos e intersecções com seu tempo. São Paulo: Paco, 2012, p. 49.

Tal estética visual foi fundamental para que Chaplin conseguisse, simultaneamente, compor um personagem cômico e fazer ampla crítica social, utilizando os costumes de vestuário da classe alta da época para destacar o esforço de seu personagem esfarrapado (o vagabundo) por ocupar um lugar digno naquela sociedade.

Atualmente, nossas vestimentas mudaram muito e a dinâmica do mundo do consumo propõe cada vez mais que tanto mulheres quanto homens atualizem o seu look de acordo com a moda da estação. Portanto, traduzir a dignidade em sua vestimenta pode significar hoje não somente estar vestido com a elegância de um gentleman, mas principalmente traduzir o seu estilo conforme as tendências, destilando mais que elegância a forma descartável com que a atualidade se travesti.
Num tempo em que a imagem pode valer mais que mil palavras, podemos considerar que o visual de uma pessoa muitas vezes diz sobre ela aquilo que ela não consegue falar de si mesma – ou simplesmente aquilo que ela sequer é.
Neste contexto, o estilista inglês John Galliano elaborou sua coleção masculina de primavera-verão de 2011 com o título Modern Times, tendo se inspirado nos trabalhos de Charles Chaplin e Buster Keaton. Seu lançamento ocorreu em Paris em 25 de junho de 2010, tendo os seus manequins saindo de dentro de um relógio e exibindo um andar irônico, fazendo referência ao cinema mudo. De acordo com o site style.com Galliano tentou fazer uma declaração sobre novas proporções na moda masculina (tradução livre. Original em inglês disponível em http://www.style.com/fashionshows/review/S2011MEN-JNGALLNO/). O vídeo do desfile na íntegra está disponível abaixo:

Na coleção masculina primavera-verão de 2011 que o estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch lançou dia 11 de junho de 2010 no São Paulo Fashion Week o personagem Carlitos também esteve presente. O estilista inspirou-se em Charles Chaplin, no filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, EUA, 1971. Dir.: Stanley Kubrick) e em alguns quadros do pintor surrealista René Magritte, por identificar nos três traços estéticos em comum. Vídeos sobre o desfile estão disponíveis em http://herchcovitch.uol.com.br/video/?data=2011 e http://www.youtube.com/watch?v=qPJUu22MNgo.
O resultado desta tendência pode ser verificado na mudança de estilo masculino desde então, presente em diversas lojas de shoppings, configurando a mistura de um visual com roupas de aparência surrada, calças largas e casacos grossos, contrastando com peças apertadas, além da intensificação do uso do chapéu coco, que já era moda entre algumas celebridades.
Contudo, a desterritorialização da vestimenta de Carlitos muda e até retira o seu significado social, uma vez que a transporta de maneira diferente para outro contexto bem diverso do de origem. Se de um lado, podemos considerar que apresenta para o mundo da moda a relevância ainda hoje da estética formulada por Chaplin, por outro lado reduz o seu significado ao resultado lúdico, sem atentar para toda a problemática que o artista abordou. A junção de elementos de Carlitos com os de uma gangue que violenta e mata pessoas no filme Laranja Mecânica e com a incoerência atribuída à obra de René Magritte acaba reduzindo ao estético aquilo que, nos filmes de Chaplin, se apresenta a partir do estético, mas alcança o ético e moral. Ainda assim, podemos interpretar que as obras reunidas por Herchcovitch tratam da condição humana na atualidade e que por mais que o apelo estético seja a condição específica do universo da moda, partes de nosso inconsciente fragmentado talvez sejam apresentadas em nossa vestimenta: somos simultaneamente violentos, assassinos, demasiado humanos em nossas contradições, nobres e vagabundos.

Imagens da coleção de Galliano:

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Imagens da coleção de Herchcovich:

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Imagens de Carlitos:

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Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – 1971) Fonte: Obvius Folhetim

Imagens de obras de René Magritte:

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Sobre o Autor

everton luis sanchesEverton Luis Sanches é Doutor em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2008). Atualmente é pesquisador da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, professor titular do Centro Universitário Claretiano de Batatais e editor da Revista de Educação. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história, comportamento, cinema, teatro e Charles Chaplin.

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“The Idle Class” – e uma gag que vale por muitos filmes

 Por Diogo Facini 

             O filme “The Idle Class” (“A Classe Ociosa” ou “Os Clássicos Vadios” no Brasil) foi produzido por Charles Chaplin em 1921, no período em que ele trabalhava pela companhia First National. Esse filme faz parte do grupo de excelentes curtas e médias metragens que Chaplin faria antes de dedicar-se apenas aos longas, apresentando pouco mais de 30 minutos de duração. “The Idle Class” compartilha com seus “vizinhos” cinematográficos o fato de ser pouco lembrado, principalmente em comparação com os filmes posteriores mencionados.

            Como um dos destaques desse filme, temos a participação de Chaplin em dois personagens (situação mais conhecida pelo público através do filme “O Grande Ditador”, de 1940). O primeiro é um rico ocioso, com problemas com a bebida e um casamento em crise com a personagem interpretada pela ”atriz preferida” de Chaplin, Edna Purviance. O segundo é o clássico Vagabundo ou Carlitos, com seu estilo já conhecido na época. É interessante observar que Chaplin realmente imprime um comportamento diferenciado para cada personagem; um bom exemplo aparece no modo de andar do personagem rico, que é “normal”, diferenciando-se dos pés virados característicos de Carlitos. Tais personagens seguem seus caminhos, incluindo situações cômicas de Carlitos em um campo de golfe, até que ele acaba por ir à casa do rico; a semelhança dos “dois Chaplins” leva a personagem de Edna e outras pessoas a pensarem que Carlitos é o milionário, enquanto o milionário estava vestido com uma armadura para uma festa a fantasia, fato que provoca algumas situações cômicas na metade final do filme.

O rico

            No entanto, além dos elementos de enredo e da atuação dupla de Carlitos, chama a atenção um pequeno trecho desse filme que apresenta uma ideia cômica de Carlitos em uma gag. As Gags nada mais são que espécies de “piadas visuais”, de curta duração, comuns em produções de comédia, como filmes, seriados, desenhos etc. A famosa cena em que Carlitos se alimenta de sapatos em “Em Busca do Ouro” (1925/1942) é uma gag. “The Idle Class” apresenta uma bastante especial.

Carlitos

            A cena é curta, e é difícil expressá-la em palavras (a graça vai-se embora), mas resumidamente é o seguinte: o rico lê uma carta de sua esposa que mostra o distanciamento entre eles (devido à bebida). O personagem aparenta tristeza, e vira de costas (já não vemos suas expressões). A partir daí, ele começa a mexer os ombros compulsivamente, o que dá a entender que está chorando devido à sua situação. Quando ele se vira para a câmera, é revelado o que realmente estava fazendo: o personagem estava preparando (agitando) mais uma bebida (daí seus movimentos dos ombros).

           Essa cena, aparentemente simples, de alguns segundos, revela um pouco da genialidade de Chaplin. Completamente muda, confundindo os objetos, utilizando-se da câmera a seu favor, cultivando suspense e surpresa, a gag mostra a sutiliza e a criatividade de Chaplin, cuja mente estava sempre trabalhando e armazenando novas idéias (ele era conhecido por sua memória). E talvez explique um pouco da relutância do autor em adotar a fala nos filmes: seu humor era principalmente gestual, focado em detalhes sensíveis de expressão que não necessitavam de linguagem verbal (talvez até mesmo a repelissem).

A cena

           “The Idle Class” é um filme que, apesar de pouco lembrado, faz parte de uma linha de produções já maduras de Chaplin, em que o autor tinha todo o controle da criação e podia colocar suas ideias em prática. Ideias que se manifestam, sobretudo, nessa gag do “falso choro”: uma mostra da criatividade de seu autor e das possibilidades que seriam desenvolvidas ainda mais dentro de poucos anos e alguns filmes.

Carlitos completa 100 anos: mas que Carlitos?

Por Diogo Facini

 

É sabido pelos fãs e admiradores da obra de Chaplin e conhecedores de cinema que o seu grande personagem, Carlitos, Vagabundo, Charlot, completa 100 anos em 2014 (1). Seu primeiro filme foi “Corridas de Automóveis para Meninos”; desde então, ele apareceria na maioria dos filmes do diretor até “Tempos Modernos” (1936), sua última aparição oficial. É interessante notar que o Carlitos lembrado é quase sempre um: o personagem-mito heróico, bondoso, com um ideal de nobreza acima de todas as limitações do “mundo real”, sempre disposto a salvar uma donzela indefesa; uma definição aplicável, de certo modo, a alguns dos filmes mais populares de Chaplin: “O Circo” (2), “Luzes da Cidade”, “Tempos Modernos”… (3) No entanto, esses já são filmes avançados na obra do diretor, perto da passagem para o cinema falado. E antes? Carlitos foi sempre assim? Afinal de contas: que Carlitos completa 100 anos?

Durante o seu primeiro ano (digamos assim: o Carlitos que de fato completa seu centenário), Chaplin faria 34 filmes pela produtora Keystone. Nos dois anos seguintes, seriam 16 filmes pela Essanay. Ao longo da maioria desses 50 filmes (e de boa parte de seu período posterior, na companhia Mutual), o Carlitos que vemos apresenta características que acabaram por mudar bastante em um tempo consideravelmente curto, mas o número grande de produções nos permite definir razoavelmente o “Carlitos Primeiro”.

Se fôssemos defini-lo de forma curta, diríamos que ele não é assim tão nobre. Mais preocupado em satisfazer suas necessidades imediatas, não se importa se isso interferir na vida de outras pessoas. É o Carlitos de sua primeira aparição, “Corridas de Automóveis para Meninos”: bastante impertinente. O Carlitos que faz careta e não está preocupado com as consequências. Que reage imediatamente a um tapa, e não oferece a outra face para bater. O que se embebeda sem culpa, e não tem piedade de crianças, senhores, animais…

É difícil escolher alguns filmes que exemplifiquem as características desse Carlitos “ainda criança” (principalmente no seu ano inicial), mas que já começava sua jornada de popularidade. Isso se dá porque os filmes seguem um estilo constante e quase uniforme, cheio de perseguições, tortas, corridas, chutes no traseiro, e eram produzidos em um ritmo realmente industrial (filmes chegavam a ser filmados em um único dia, aproveitando-se de eventos locais). Os filmes e o seu personagem não possuíam aquela unidade distintiva que iria aparecer depois, principalmente a partir dos anos 20.

O Carlitos ainda em formação pode ser considerado em parte fruto das comédias pastelão de então (que eram feitas por seu patrão da época, Mack Sennet) e também da experiência de Chaplin no teatro de variedades. Lembremos também que Chaplin se inseriu em uma indústria que, apesar de nova, já tinha algumas regras e parte de sua linguagem já estabelecida, que o autor não conhecia e primeiramente teve de aprender para depois deixar suas marcas.

No entanto, penso que essas diferenças e inclusive a imaturidade artística de Charles Chaplin não são motivo para se desprezar esse Carlitos inicial e centenário. Foi esse Carlitos se mostrou para nós em suas primeiras aparições, e a partir dele, de sua base, puderam ser desenvolvidos novos elementos com o passar do tempo. Penso, inclusive, que esse seu caráter “politicamente incorreto” é um atrativo. Essa “explosão” do Vagabundo é uma de suas muitas facetas; conhecê-la é importante para entenderem-se as suas obras posteriores, quando essas características às vezes emergem, com menor ou maior intensidade. O surto de loucura do personagem em “Tempos Modernos” é um bom exemplo. E é também todo o filme “Monsieur Verdoux” (1947) (3), em que o Carlitos “original” ajuda a observar que muito do comportamento do matador de senhoras não é inédito ou tão surpreendente assim.

Esse personagem inicial passaria por transformações. Já nos anos de Essanay entraria um elemento emocional, que ajudaria a definir uma das marcas registradas do diretor: o humor unido ao sentimento. Suas idéias cômicas se refinariam, as perseguições deixariam de ter um lugar primordial. Os filmes iriam ter estruturas muito mais definidas e histórias seriam mais bem contadas e exploradas. Mas não nos esqueçamos desse senhor Carlitos, centenário Carlitos. Suas botas estão um pouco gastas. Sua imagem é trêmula e às vezes torta, indefinida. Mas ele passou por aqui. E deixou seu rastro de vida em um humor nobre, apenas interessado em fazer sorrir.

 

Veja mais:

(1) http://blogchaplin.com/2014/02/01/os-100-anos-de-estreia-de-charles-chaplin-no-cinema/

(2) http://blogchaplin.com/2012/10/26/o-circo-turbulencias-e-triunfo-de-um-classico/

(3) http://blogchaplin.com/2014/01/11/tempos-modernos-tinha-uma-fala-no-meio-do-caminho/

(4) http://blogchaplin.com/2013/10/27/monsieur-verdoux-a-grande-injustica-contra-charles-chaplin/