Artigo

Charlot, por José Saramago

José Saramago

José Saramago

José Saramago é considerado um dos maiores escritores da história da literatura mundial. Nasceu em Golegã, Azinhaga (Portugal), como José de Sousa Saramago, no dia 16 de novembro de 1922. Foi agraciado com o Nobel de Literatura, em 1998, além de muitos outros prêmios, que evidenciam sua importância e legado para todo o mundo literário. Faleceu no dia 18 de junho de 2010, aos 87 anos. 

Em 18 de maio de 2009, Saramago escreveu um texto, onde analisa o cinema de Chaplin, no qual, segundo ele, não tem nada de cômico, mas de trágico. Evidentemente, algumas pessoas não concordarão com as palavras de Saramago, entretanto, trata-se de um artigo de opinião (muito pessoal, por sinal) e torna-se bastante interessante ler uma visão diferente do personagem de Chaplin, sempre tido como engraçado em sua essência. Quando construiu a psicologia do Vagabundo, o próprio Chaplin já dava indícios que o cômico e o trágico andariam juntos e que a vida deveria ser vivida buscando a harmonia desse paradoxo. Eis o texto:

Charlot

Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

Referência:

http://caderno.josesaramago.org/41619.html

Enfim, Carlitos!

[…]

James Agee

No jantar, aquela noite, como em tantas outras vezes, seu pai disse:

– Bem, que tal ir a um cinema?

Mas sua mãe disse:

– Oh, Jay! Mas que homenzinho horrível!

Seu pai perguntou, não porque não soubesse o que ela iria dizer, mas para fazê-la dizer:

– O que você tem contra?

– E ela disse o que dizia sempre:

– Ele é desagradável, tão vulgar! Com sua horrível bengalinha, sempre a levantar saias e tudo mais, e aquela sua repugnante maneira de caminhar!

Seu pai riu como ria sempre nesses casos e Rufus dizia que a brincadeira ia render muito; mas, como sempre, ao mesmo tempo o riso o reconfortava. Ele achava que seu pai o metia no jogo.

Andaram em direção à cidade baixa sob uma luz nacarada até o Majestic, e sentaram-se à luz da tela, ao cheiro inebriante de fumo azedo e de suor rançoso, de roupas de baixo e patchuli. O piano tocava com alegria enquanto os cavalos galopavam, levantando uma grande nuvem de poeira. E era William S. Hart, cara de cavalo e lábios à frente, cuspindo fogo pelas duas bocas de seus fuzis e a planície saltando atrás dele como o mundo inteiro. Depois ele lançou um convite confuso a uma moça e o cavalo levantou as narinas e todo mundo riu, depois uma cidade encheu a tela, depois o chão de uma alameda, uma longa fileira de palmeira e por fim, Carlitos; todo mundo ri logo que ele aparece, pés para fora, joelhos separados, como se tivesse medo de se esfolar, e o pai de Rufus riu, e Rufus também. Desta vez, Carlitos roubava um saco cheio de ovos e à vista de um policial escondeu-os nos fundilhos da calça. Aí percebe um moça bonita e começa a se ajoelhar e a girar sua bengala, fazendo caretas idiotas. Ela sacode a cabeça e se afasta com o queixo desdenhoso e a boca mais que afetada, e se esforça muito para segui-la, fazendo piruetas com sua bengala, o que fazia tudo mundo rir, mas ela nem prestava atenção. Por fim, ela pára numa esquina para esperar o bonde, dando-lhe as costas, como se ele não estivesse lá. Depois de ter tentado, por um momento, chamar sua atenção e não conseguindo, ele se vira para o pública, levanta os ombros e começa a fazer tudo como se ela não estivesse lá. Depois de sapatear no mesmo lugar durante um instante, para mostrar que não se incomoda, retomou sua primeira ideia e, com um charmoso sorriso, dá um piparote no seu chapéu-coco; mas ela fica impassível, balança de novo a cabeça, e todo mundo ri. Então ele começa a ir e vir atrás dela, bem devagarzinho, olhando-a e dobrando um pouco os joelhos, e todo mundo ri mais; depois ele faz viravoltas com a bengala, e com a extremidade curva ele levanta as saias da moça, da mesma forma que desagrada mamãe, e ele olha suas pernas com avidez e todo mundo gargalha. E ela acocora e sobe a calça, de novo levanta a saia da moça, tão alto que se vê a calcinha, com babados como as pregas das cortinas e todo mundo gargalha e, furiosa, ela se vira bruscamente e dá-lhe um soco no peito, e ele se senta com as pernas esticadas, sentindo-se mal, e todos gargalham outra vez; e ela se afasta ao longo da rua, com ar altivo, esquecendo o bonde e “como ela estava enraivecida”, como dizia meu pai, alegremente; e eis Carlitos, com o traseiro no chão, e com ar repugnado; bem se vê que se lembrara dos ovos, e logo nos lembramos também. A cara que ele consegue fazer, lábios contraídos sobre os dentes, com um sorrisinho enojado, nos dá total impressão de sentir os ovos quebrados na calça, e o belo terno de piquê branco, quando os ovos quebrados deslizaram pelas pernas da caça e pelas meias, e ao se sentir envergonhado e engraçado ele teve de voltar para casa. As pessoas que viam o filme riam e o pai de Rufus morria de rir agora, como todo mundo, e Rufus, que tinha pena de Carlitos, pois havia passado recentemente por situação idêntica, também contagiou-se e ria, por sua vez. Então foi ficando mais engraçado quando Carlitos se levanta do chão com cuidado, expressão cada vez mais enojada, dedos curvados como se estivesse muito sujos para tocá-lo, e afasta da pele o tecido lambuzado. Em seguida, ele remexe atrás e puxa o saco de ovos quebrados todo pegajoso e abre o saco e dá uma olhadela. Pega um ovo quebrado e parte a casca em duas, e achando isso repugnante, pega a gema e passa-a de um lado da casca para o outro, depois larga tudo, tremendo, dá mais uma olhadela dentro do saco e tira um ovo intacto, todo melado de gema, e o enxuga bem na manga do casaco. Olha-o bem e depois embrulha-o no lenço sujo e coloca cuidadosamente no bolso do paletó justo. Aí, pega a bengala debaixo do braço, apóia-se nela com autoridade e, num último olhar para o público, ainda enojado, mas com bom humor, sacode os ombros, dá-nos as costas e chuta para trás com os enormes sapatos os ovos quebrados e o saco pegajoso, tudo como um cachorro teria feito, e dá um olhar por cima dos ombros naquela sujeira toda (o que fez todo mundo rir muito) e começa a se afastar, arrastando os pés; a cada passo sua bengala dá uma volta, ele parece que vai se dobrar sobre si mesmo, joelhos afastados mais do que antes, e coloca sem parar a mão esquerda nos fundilhos da calça, e se balança num pé e no outro, e remexe por toda a calça, depois pára e se sacode como cachorro molhado, voltando em seguida a caminhar; enquanto a tela se fecha sobre sua silhueta insignificante num brusco círculo de escuridão, nesse momento o pianista tocou outra melodia e apareceu a publicidade em cores. Eles ficaram sentados até o meio do filme de William S. Hart para saber por que, ao certo, ele havia matado o home do paletó estampado – como eles esperavam, por causa da expressão assustada e exaltada que ela tivera uma vez feita a execução, era por que ele havia insultado a moça e ainda explorado o pai – e o pai de Rufus disse: “Bem, é aí que devemos ter chegado”, mas eles viram matar o homem uma segunda vez; depois, se foram.

Ainda era cedo, mas a noite já havia caído completamente. A rua Gay estava cheia de gente com ar preocupado, e muitas vitrinas estavam ainda iluminadas. Pessoas de gesso, em atitudes nobres, vestiam com aprumo roupas novas e intocáveis.

Une mort dans la famille (Uma morte na família)

Bibliografia

PRIEUR, Jerôme. O espectador noturno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. Pp 127-130.