arte

“Pobres: Resistência e Criação” – Olhares sobre Carlitos e outras personagens

Por Diogo Facini

             O livro “Pobres: Resistência e Criação”, de Monique Borba Cerqueira me apareceu meio sem querer, ao procurar livros sobre Charles Chaplin no site de uma empresa de vendas (que nem era uma livraria). No entanto, a obra acabou me surpreendendo positivamente, aumentando pequeno conjunto de livros sobre Chaplin e trazendo novos olhares e reflexões produzidos pela obra.

            O livro acadêmico, publicado pela editora Cortez em 2010 tem o mérito (às vezes incomum neste estilo) de ir além dos limites de sua área de atuação, e trazer reflexões que interessam a leitores não familiarizados com as teorias trazidas (o meu caso). Ele é fruto da tese de doutorado da autora, que, como se verá, é relacionada com a obra de Charles Chaplin. Mas do que trata especificamente?

            A obra busca discutir e apontar alternativas para as visões tradicionais disseminadas sobre a pobreza e os pobres. Uma visão tradicional, marcada pela moral, procuraria colocar os pobres na posição de coitados, necessitados, marcados por uma falta, uma carência. Essa situação os levaria a uma condição de eterna dependência (de pessoas, ideias, instituições etc.). Como uma alternativa a essa visão, a autora nos apresenta três personagens da arte, que não apenas negam essa visão de “pobres coitados”, como também apresentam promessas e potenciais de novos modos de vida, livres de enquadramentos limitadores.

            Os personagens fazem parte do universo literário e cinematográfico: Carlitos ou o Vagabundo, de Charles Chaplin; Gabriela, de “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado; e Macabéa, de “Hora da Estrela”, escrito por Clarice Lispector. A apresentação dos personagens orienta a própria estrutura da obra: o primeiro capítulo é dedicado a apresentações e discussões de referenciais teóricos; os seguintes são dedicados a Carlitos, Gabriela e Macabéa, respectivamente, e o último é dedicado às reflexões finais.

            Com relação mais especificamente ao personagem Carlitos, a autora aborda muitos dos seus filmes até “Tempos Modernos”, em que o personagem é aposentado. Ela mostra que Carlitos utiliza o humor para reelaborar a realidade (Cerqueira, 2010). O Vagabundo, sempre se deslocando, sempre se movimentando, nunca pertencendo a lugar nenhum e fazendo parte de todos, está sempre transformando sua existência. Um exemplo notório é sua relação peculiar com os objetos:

O vagabundo faz desaparecer certas funções ou características prioritárias de um objeto ou relação, atribuindo-lhe outras. Ele subverte aquilo que rejeita ou não pode enfrentar no registro oficial dos fatos. Cria novos instrumentos, afetos, situações, tudo aquilo que permita resgatá-lo da órbita de uma realidade opressiva com a qual se recusa a se relacionar, mas que necessita, eventualmente, percorrer. (CERQUEIRA, p. 50, 2010). 

             Essa característica aparece em muitos dos filmes de Chaplin, podendo-se citar a famosa dança dos pãezinhos e a refeição dos sapatos em “Em Busca do Ouro” (1925), em que pães viram sapatos e sapatos viram pães. Chaplin, através de essas e outras características, reelabora sua realidade; nunca se submete a enquadramentos sobre sua situação de pobre, de coitado; está sempre correndo, sempre se transformando. Nega tentativas simplistas de dar a ele uma identidade: Carlitos é muitas coisas ao mesmo tempo, e o que é novo logo será antigo, para o surgimento de novos Carlitos: “Diante de um mundo dimensionado sob a égide da fraqueza, ele cria atitudes-atalho que expressam uma grande recusa ao universo da ordem”. (p. 52). Toda tentativa de dar ao personagem uma identidade única é logo eliminada, pois “o vagabundo segue sempre na fronteira, por um fio, andando no meio” (p. 65). Este personagem, em todas as suas ocorrências, está sempre inventando novas formas de existir, que questionam as imposições e revelam novas possibilidades.

            A discussão das outras duas personagens abordadas pelo livro segue a mesma linha de argumentação: Gabriela, com as suas paixões e afetos, seu calor que conquista a todos e ensina novas formas de viver; e Macabéa, que em seu silêncio e suavidade, sua fuga da racionalidade, em uma quase não existência, aponta para uma impossibilidade de qualquer enquadramento limitador. A autora, trazendo esses personagens, procura mostrar forças e potencialidades dos “pobres” que não revelam sua fraqueza, mas sim sua força e riqueza em um mundo em estado quase doentio.

            O livro “Pobres: Resistência e Superação” de Monique Borba Cerqueira traz, portanto, uma visão diferenciada e inovadora, tanto do tema principal (os pobres, a pobreza), quanto dos personagens apresentados. No caso da obra de Chaplin, o livro é importante, pois enriquece a (ainda) pequena bibliografia sobre o autor, e traz novas abordagens, novas visões sobre Carlitos, o que mostra que o senhor centenário ainda tem muita vitalidade e provoca questões que continuam atingindo as pessoas.

Referências Bibliográficas:

CERQUEIRA, Monique Borba. Pobres: Resistência e Criação. São Paulo: Cortez, 2010.

Os dois Carlos

Os dois Carlos não são exatamente dois Carlos. Um é Charles, o outro é Carlos. Um é Spencer Chaplin, o outro é Drummond de Andrade. Mas chamá-los por “dois Carlos” é fato bem explicável em dois homens separados por um oceano ou por um continente, mas que conversaram através de suas artes dolorosas, humildes, e de seu profundo sentimento do mundo.

Os dois Carlos são tímidos. Atravessa-os um sentimento de solidão, de desamparo. Tem tendência ao isolamento. Como um mundo imenso, mundo ainda manco, poderia acolhê-los? São tantas pessoas, tantas ruas e discursos, tantas promessas e brigas… Como se expressar?

Mas os dois Carlos são fortes. Atrás do silêncio, atrás das máscaras (e do bigode?) há algo que os carrega, os leva em direção aos olhares surpresos dos homens também surpresos. Em sua dificuldade do contato, ambos levantam um canto de angústias e de esperanças.

O Drummond se utilizou das palavras contadas ou poetizadas, firmes e francas como uma flor que nasce no asfalto. Em seu silêncio, em sua solidão, encontrou os homens. Em sua busca, em sua dispersão, rompeu os mistérios. Andou por caminhos, criou em seus ninhos uma própria voz. O homem duro, de ferro, que o dobrou em seus versos.

O Chaplin, de todo o abandono, de toda a sua dor e mágoa, encontraria a sua expressão em uma arte ainda nova, cheia de possibilidades: o cinema. O seu silêncio permaneceria por muitos anos, mas não era preciso falar nada. Todos o compreendiam, olhavam em seus passos os seus mesmos passos trôpegos, sonhavam com seus chutes tão fundamentais no traseiro das autoridades. Os pobres o respeitavam, os poderosos o temiam, os artistas o admiravam.

Os nossos dois Carlos, presos em seus tempos modernos, novos e assustadores, se colocam nesse mundo em uma posição problemática. Na poesia, uma eterna procura, um desespero ante as buzinas e faróis, um encontro com o outro, um andar de mãos dadas em seu choro contido. No cinema, um Carlitos sempre andando, sempre correndo, sempre se apaixonando, e perdendo seus amores, e ganhando nossas lágrimas, mas nunca pertencendo a lugar algum. Um Carlitos de nenhum lugar, e do mundo. Um Chaplin de nenhum lugar, e do mundo.

Contradições das vidas: como pode a solidão encontrar a todos? Como pode o não estar em lugar algum chegar a todos os olhos e ouvidos e esperanças?

Encontraram os homens. Os homens os encontraram. Drummond encontrou Chaplin. E poetizou sobre Chaplin. Nas distâncias das águas e das terras, as sensibilidades se encontram. No desânimo dos tiros e das bombas, a arte se levanta como um suspiro de insana sanidade.

A arte dos Carlos, mesmo com todas as diferenças, é fundamental. Ambos olharam o seu tempo, retiraram dele sua matéria e fizeram a sua voz. Ambos olharam os seus homens, olharam suas crianças e lamentaram as feridas. Pensaram em outros tempos, de rosas e de sorrisos, de danças e de abraços. Cantaram seus novos tempos, discursaram sobre eles. Mesmo quando não o indicavam, as artes sopravam nos sonhos sua criação atemporal.

Ambos também compartilham a dura sina dos grandes artistas. O mito é imenso, as pessoas já não sabem quem é Carlos. Suas imagens ultrapassam as obras. Todos as conhecem, sem de fato conhecer. Por isso, poucos leem Drummond como deveria ser lido. Poucos veem Chaplin como deveria ser visto. E os conhecem pouco, somente as obras mais conhecidas, as chamadas obras primas (mas porque menosprezar as obras irmãs, obras mães e as obras tias?). No entanto, talvez já algumas pessoas saibam… Quem atravessa a rua dos Carlos, é atravessado por ela: nunca sai indiferente.

Conheci os dois Carlos faz uns bons anos, e praticamente ao mesmo tempo. Suas piadas e gritos e gags e sonhos e sorrisos e discursos desde então estão sempre comigo. Se as minhas palavras estão aqui, devo muito aos Carlos. Se meu silêncio pode ser levado aos outros homens com novas esperanças, transfigurado em afeto, devo muito aos Carlos.

E se a poesia ainda me resta, me alimenta e me esquenta nos dias frios das cidades cruas de concreto, devo muito aos Carlos.

O poeta Drummond e o poeta Chaplin.

Afinal: quem disse que Chaplin não é poeta?

Top Blog 2012: Como votar no Blog Chaplin

Em 2012, o prêmio Top Blog está com uma novidade: Agora há  a possibilidade de poder votar através das redes sociais, portanto são dois votos à mais que podem ser dados pelo Twitter e pelo Facebook, além do e-mail.
Nesse caso, para não perder a oportunidade, indicamos que você vote através das três opções. =)
O processo de votação é fácil:
1.) Clique no Selo Top Blog localizado no lado direito da tela inicial do Blog:
2.) Você será direcionado para a tela de votação no site do Prêmio Top Blog, as três opções de votos aparecerão conforme a figura abaixo. É só infomar o endereço para votar por e-mail, clicando em “VOTAR”. Nas opções Facebook e Twitter, clicando em VOTAR, basta apenas logar nas referidas redes e confirmar o voto.
3) Aguarde até aparecer a tela de confirmação. Pronto! Seu voto foi computado. Obrigado! XD
UPDATE 17/10/2012
YES! Estamos no TOP 100. Isso quer dizer que, com os votos de vocês, conseguimos figurar entre os 100 melhores blogs do Brasil!
Só temos que agradecer pelo prestígio e reforçar o convite para que votem no Blog Chaplin agora, no 2º turno do concurso. O processo é o mesmo descrito acima.
XD