‘O Garoto’ no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Nos dias 13, 14, 16 e 17 de setembro, o belíssimo Theatro Municipal do Rio de Janeiro exibirá o filme “O Garoto” (1921), com acompanhamento da Orquestra Sinfônica do teatro, sob a regência de Tobias Volkmann. O Evento, chamado de “Som e Imagem”, terá exibições em horários e preços variados, conforme descritos abaixo:

Som e Imagem

Filme: O Garoto

Classificação etária: Livre

Duração: 60 minutos

Dia 13, às 16h
Dia 14, às 17h
Dias 16 e 18, às 20h

Preços:
Frisas e Camarotes –  R$ 420,00
Plateia e Balcão Nobre – R$ 70,00
Balcão Superior – R$ 50,00
Galeria – R$ 18,00

A exibição de "O Garoto" terá acompanhamento de orquestra

A exibição de “O Garoto” terá acompanhamento de orquestra

Sobre o filme

O Garoto (1921) – Trata-se do primeiro longa metragem de Charles Chaplin e um dos filmes mais emblemáticos e sentimentais da sua carreira. A história conta a saga do Vagabundo ao tentar criar uma criança, abandonada pela mãe, ainda bebê. O drama e a humor, ingredientes fundamentais da obra chapliniana, permeiam a história do início ao fim. O grande destaque da trama fica por conta do pequeno Jackie Coogan, no papel do garoto, que apresenta uma atuação digna da genialidade de Chaplin.

Fonte:

Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Anúncios

Revista do Sesc-SP publica artigo com a colaboração do Blog Chaplin

Na edição de agosto de 2014, da revista “e” – publicação do Sesc São Paulo (com distribuição para todas as unidades do Sesc no estado) -,  foi realizada uma matéria, que contou com a colaboração de Hallyson Alves, criador do Blog Chaplin, e de Everton Luís Sanches, colunista da seção “Humanismo de Chaplin”.

SESC 3-4

A matéria conta com 5 páginas e teve a colaboração do Blog Chaplin. Foto: reprodução

A matéria, cujo título é “Arte de fazer rir”, traz uma breve história da vida de Charles Chaplin, desde sua infância em Londres, até seu triunfo enquanto cineasta em Hollywood. Para a construção da matéria, a jornalista utilizou como referência a obra de Sanches “Charles Chaplin – confrontos e intersecções com o seu tempo”, publicado pela Paco Editorial, em 2012, bem como entrevistas realizadas com Hallyson Alves e Everton Sanches.

Abaixo, seguem as entrevistas, na íntegra:

Márcia Scapaticio – No início do livro você menciona o desafio de fazer a ligação entre áreas do conhecimento científico e artístico.
Como é possível guiar o espectador de cinema neste contexto? O fator histórico seria o mais preponderante deles?

Everton Luís Sanches: O espectador de cinema costuma guiar-se mais pela sensibilidade, pelo efeito da imagem que pela sua análise. Deste modo, poucos mantém o interesse em relacionar o conhecimento científico e artístico ou elaborar um entendimento mais profundo do filme. Nossa sociedade é imediatista. A pessoa vê, ri, gosta ou não gosta e pronto. Contudo, há também aqueles que despertam o interesse para o significado mais profundo da obra, estabelecendo relações entre o lúdico, a arte e o cotidiano. Diante dessa condição prévia, é possível usar diferentes referenciais para se compreender uma obra como a de Chaplin, entre eles o histórico, mas todos eles vinculados à análise da imagem em movimento, da linguagem audiovisual. Acredito que esse é o ponto de partida para qualquer análise no cinema.

Márcia Scapaticio – O primeiro capítulo posiciona ” A Inglaterra e o Mundo antes de CC”. Pensando nos tempos atuais e nas mudanças mais preponderantes que aconteceram no cinema, como poderíamos entender a grandeza de sua obra nos dias de hoje?

Everton Luís Sanches: Para responder de maneira rápida, gostaria de recuperar a legenda de abertura do filme Tempos Modernos (Modern times. EUA, 1936. Dir: Charles Chaplin): “Tempos Modernos. Uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a cruzada da humanidade em busca da felicidade”. Este é um tema que é fundamental para todos nós. Atualmente essa “cruzada da humanidade em busca da felicidade” é ainda mais evidente, pois passamos por duas guerras mundiais, crises globais da economia (crise de 1929, crise do petróleo e crise de 2008), as ascensão e queda do socialismo, fortalecimento dos movimentos de esquerda e do sindicalismo e onde chegamos? Ao colapso do socialismo soviético, precarização do trabalho e à conclusão de que nosso mundo precisa de sustentabilidade ambiental, social e econômica. Ainda estamos descobrindo quais são os termos dessa cruzada da humanidade e o cinema trata desses temas constantemente.
Partindo da análise da importância do filme Tempos Modernos na história do cinema, podemos considerar que ele é um filme mudo, sem diálogos, realizado 9 anos depois do surgimento do cinema sonoro e que conquistou espectadores do mundo inteiro. Em 2012 o filme O artista (The artist. França, 2011. Dir.: Michel Hazanavicius), realizado em preto e branco e mudo, ganhou o Oscar de melhor filme, de melhor diretor e melhor ator, tendo estimulado uma onda de novas produções artísticas sobre a obra de Chaplin e o cinema mudo. Essas são mostras da importância da obra de Chaplin no cinema atual, tanto pela atualidade da abordagem de Chaplin em seus filmes quanto pelo seu talento artístico.

Márcia Scapaticio – A comédia também pode ser vista como um antes e depois de Chaplin. Quais seriam as principais contribuições para o gênero?

Everton Luís Sanches: Charles Chaplin, Groucho Marx, Buster Keaton, Oliver Hardy e Stan Laurel (O Gordo e o Magro) foram ícones da comédia no cinema mudo. Cada um deles utilizou do conjunto de recursos cômicos já vistos anteriormente no teatro, na pantomima e no circo aqueles que se adaptavam de maneira mais precisa ao cinema. Todos eles, e outros, ofereceram inúmeras contribuições para a comédia, tanto no cinema quanto em diálogo com outras modalidades de comédia. Contudo, explorar o tema da pobreza e da busca de dignidade a partir do cômico é uma característica indelével de Charles Chaplin. Neste ponto, Chaplin é o divisor de águas e ninguém conseguiu se igualar a ele.

Márcia Scapaticio – Tendo em vista seu extenso trabalho de pesquisa, o que mais chamou sua atenção na vida pessoal e profissional de Chaplin?

Everton Luís Sanches: A vida pessoal e profissional de Chaplin estavam intimamente interligadas e remetiam ao universo da produção artística. Sem estabelecermos essa relação acredito que entenderemos pouco sobre ele. Contudo, o que mais me chamou a atenção e emocionou-me em sua trajetória foi a sua busca por dignidade, desde a infância. Acredito que Chaplin percebeu sabiamente que não é possível alcançar dignidade a partir da ação individualista. É preciso defender os seus iguais, amar os diferentes e respeitar a todos. Chaplin fez isso em sua obra. Ainda me emociono e me identifico plenamente com essa abordagem.
Pessoalmente, aprendi muito com a pesquisa sobre Chaplin, tanto sobre o que eu gostaria de fazer quanto sobre o que não quero fazer em minha vida. Quando li sobre a sua dedicação ao cinema, pondo de lado os seus filhos e esposa, percebi o quanto mesmo o trabalho mais prazeroso, rentável e útil pode ser nocivo a alguém. Eu nunca faria isso. Acredito que há outras maneiras de realizar uma grande obra, mesmo considerando a maestria do trabalho de Chaplin. Todavia, uma de suas conclusões que mais repito é que a maneira mais simples de se fazer algo é sempre a melhor. Como historiador fui treinado a investigar as causas das causas, questionar incansavelmente e verificar a complexidade das coisas. Porém acredito que a ciência muitas vezes peca pelo excesso de erudição, quando o simples pode elucidar muito mais determinados temas. Por mais complexa que seja a relação entre espaço e tempo, é a análise do simples que nos ensina a viver, mesmo no tempo presente, na chamada pós-modernidade.

Márcia Scapaticio – Podemos dizer que explorar o tema da pobreza e da busca de dignidade a partir do cômico é um divisor de águas feito por Chaplin e que poucos se igualaram a ele?

Hallyson Alves: Em sua vasta obra cinematográfica, Charles Chaplin remonta muito de suas vivências, na Londres do século XIX. Sua infância foi permeada por muitas dificuldades financeiras e dramas psicológicos: a morte prematura do pai – em razão do álcool -, o surto psicótico da mãe e as internações nas casas de caridade para crianças pobres londrinas deram ao artista uma densa carga de experiências que, posteriormente, foram representadas nos seus filmes. Essa obra, a qual menciono, tem um apelo social muito forte. Chaplin teve uma mente bastante criativa, tido como gênio por muitos cineastas que o sucederam. Sendo assim, a sua forma de retratar temas ligados à pobreza e dignidade humana através do humor, consequentemente o fez produzir filmes que se tornaram clássicos, tornando-o um ícone do cinema.

Márcia Scapaticio – Em tempos que a utilização do humor tanto no cinema quanto na TV se dá de formas diversas (por exemplo, as comédias brasileiras que são grandes bilheterias no cinema) como podemos perceber a contribuição de Chaplin ao gênero?

Hallyson Alves: Não é a toa que Charles Chaplin é considerado um ícone do cinema, principalmente pela forma em que conta suas histórias. As gags características, a forma como se exibe para a câmera através de olhares e gestos típicos da pantomima e a estrutura narrativa dos seus filmes o tornam único. O humor chapliniano caminha próximo a situações reais de vida, nem sempre cômicas, por sinal. O grande triunfo da sua obra é unir essas duas facetas. Chaplin fazia humor para pensar, refletir sobre a vida e tudo que ela nos apresenta. Muito desta forma de imprimir sua arte dá-se pela capacidade inexorável de Chaplin de ser resiliente, ou seja, a capacidade de superar suas dificuldades e transformá-las em arte, em humor (essa é parte da discussão que realizei em meu trabalho de conclusão de curso em Psicologia). Muitos diretores, atores e demais profissionais de cinema já manifestaram publicamente sua admiração e referência chapliniana, a exemplo de Woody Allen, Martin Scorsese, entre outros. No Brasil, podemos citar dois personagens aos quais fizeram uma visível referência ao modo Chaplin de fazer filmes: Oscarito e Mazzaropi. No primeiro caso, é retratado o malandro brasileiro que sabe sobressair às situações que lhe aparecem, de forma semelhante ao vagabundo representado por Chaplin. No segundo, Mazzaropi permeia sua produção de filmes com doses de humor permeadas de crítica social. A importância de Chaplin para a sétima arte é tão evidente e sua obra tão extensa, que é impossível não haver uma mínima referência deste artista nesse tipo de gênero cinematográfico.

Você poderia indicar alguns filmes que se destacam da filmografia de Charles Chaplin e o que chama mais atenção em cada um?

Hallyson Alves:

Em Busca do Ouro (1925) – Esse é mais um clássico da obra chapliniana. Na história, o pequeno vagabundo se depara com um ambiente incomum aos filmes anteriores, geralmente vivenciados na cidade. Agora, o cenário é compartilhado com imensas montanhas cobertas de neve, onde nas primeiras cenas é possível ver milhares de garimpeiros, enfileirados, arriscando suas vidas para encontrar a pedra mais preciosa entre toda as pedras: o ouro.

O Circo (1928) – No filme, Carlitos é perseguido por um policial e vai se refugiar num circo. Conseguindo tal façanha, acaba se envolvendo na vida circense até que é contratado para trabalhar lá. Há cenas maravilhosamente bem construídas, como a sequência da sala dos espelhos e/ou outras passagens hilárias, demonstrando uma maturidade técnica fantástica. A cena reservada para o final dá um toque belíssimo de emoção ao longa, elevando “O Circo” à categoria dos melhores filmes já realizados na história do cinema.

Luzes da Cidade (1931) – Em Luzes da Cidade ele não mede esforços para ajudar uma garota florista cega, a realizar sua cirurgia para voltar a ver, nem que ele trabalhe duro para isso e que não tenha o reconhecimento do seu esforço. O final construído para Luzes da Cidade é considerado um dos mais comoventes da história do cinema.

Tempos Modernos (1936) – O olhar de Chaplin sobre a humanidade, dissolvida na entrega total ao materialismo provindo do capitalismo, o fez produzir Tempos Modernos. A intensa busca dos patrões pelo lucro, a exigência cada vez maior pelo aumento da produção, a falta de liberdade, a busca incessante da felicidade pelo trabalho, somando-se a vários fatores, fazem o personagem Carlitos sofrer um surto, até ser engolido pela máquina, literalmente.

O Grande Ditador (1940) – O filme “O Grande Ditador”, de 1940, é considerado uma das obras-primas de Charles Chaplin. Na película, ele encarna dois personagens, o barbeiro judeu e o ditador Adenoid Hynkel, uma alusão clara ao ditador germânico Adolf Hitler. Algum tempo após o lançamento, foram comprovadas as crueldades contra os judeus, homossexuais e estrangeiros, realizadas por Hitler nos campos de concentração, deixando o mundo perplexo. Logicamente já se tinha conhecimento dos campos, mas a monstruosidade imposta aos judeus só fora divulgada para o mundo após o fim da II Guerra. Alguns pesquisadores afirmam que Chaplin teria dito que não faria o filme, se caso soubesse desta realidade.

O Garoto (1921) – Trata-se do primeiro longa metragem de Charles Chaplin e um dos filmes mais emblemáticos e sentimentais da sua carreira. A história conta a saga do Vagabundo ao tentar criar uma criança, abandonada pela mãe, ainda bebê. O drama e a humor, ingredientes fundamentais da obra chapliniana, permeiam a história do início ao fim. O grande destaque da trama fica por conta do pequeno Jackie Coogan, no papel do garoto, que apresenta uma atuação digna da genialidade de Chaplin.

Faça o download da matéria aqui.

O retorno do cinema mudo em “O Artista”

Mesmo após o advento dos filmes sonorizados ou falados (talkies), a partir de 1927, Chaplin insistiu em produzir filmes mudos, tendo em vista alguns motivos, sendo o principal deles, o fato de que era inconcebível para ele que o Vagabundo, seu personagem mais famoso, pudesse falar. Além disso, Chaplin dominou como ninguém a forma gestual de representar. Em 1931, ano do lançamento de “Luzes da Cidade”, quando perguntado sobre a sua insistência em continuar a fazer filmes mudos, respondeu:

“Por que eu continuei a fazer filmes mudos? O filme silencioso é, antes de tudo, um meio universal de comunicação. Filmes falados têm um alcance limitado, retringen-se a línguas específicas de raças específicas. Eu tenho confiança de que no futuro ocorrerá um retorno do interesse por filmes silenciosos, pois existe uma demanda constante por uma mídia que seja universal na sua utilidade”

E parece que Chaplin tinha mesmo razão, afinal, o cinema tem uma capacidade intrínseca de inovar e se reinventar. Quem imaginaria que em pleno século XXI o cinema mudo voltaria a ficar em evidência, sobretudo no meio da indústria internacional do audiovisual, tendo Hollywood como principal ícone?

Seguindo essa “profecia”, surge a nova sensação de Hollywood: o filme “O Artista” (The Artist, 2011), dirigido pelo francês Michel Hazanavicius, que também é responsável pelo roteiro. Não é a toa que a estreia de um filme mudo causou comoção no mundo cinematográfico: trata-se de um longa-metragem, aos moldes dos filmes utilizados nos primeiros tempos do cinema, ou seja, além de totalmente mudo é também filmado em preto e branco (na verdade a filmagem é realizada a cores, ganhando o filtro em preto e branco, durante a edição).

Na edição da Folha Ilustrada do dia 5 de fevereiro de 2012, há uma entrevista com o diretor de O Artista. Nela,  Hazanavicius fala sobre como o filme foi concebido, os desafios em produzi-lo e seu amor pelo cinema. O diretor também elenca os seus diretores de filmes mudos preferidos, incluindo Charles Chaplin (Luzes da Cidade, Tempos Modernos e O Grande Ditador), King Vidor (A Turba, 1928), Josef von Stenberg (Paixão e Sangue, 1927), entre outros, evidenciando a forte influencia dos primeiros temos do cinema em sua concepção de trabalho ao fazer filmes. A matéria abordou, também, como a inovação técnica, promovida pelo som, não trouxe apenas benefícios para artistas e técnicos do cinema da época.

Para conferir a matéria completa, você poderá acessar o conteúdo do Acervo Digital da Folha de São Paulo, através do site: http://acervo.folha.com.br/fsp/2012/02/05/21

Elenco de “O Artista” (detalhe para o cãozinho Uggie)

Seguindo a aclamação pública e, sobretudo a aprovação dos membros da Academia de Hollywood, “O Artista” foi o grande vencedor do Oscar de 2012. O filme levou as estatuetas de: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator  (Jean Dujardin)  ainda as distinções de figurino e trilha sonora original. Das 10 indicações que recebeu, O Artista levou 5, o mesmo número de prêmios conquistados por “Hugo Cabret”, outra excelente produção de 2011, de Martin Scorsese.

É importante ressaltar que Charles Chaplin não rejeitou o cinema sonoro, pelo contrário, apesar de achar que a pantomima era uma forma universal de comunicação – e, segundo ele, as falas prejudicavam a subjetividade de quem assistia,  em “Luzes da Cidade” ele demonstra um domínio de som muito apurado – e até “brinca” com ele. Um exemplo do perfeito manuseio do som é encontrado na cena inicial, onde há uma inauguração de um monumento à Paz e a Prosperidade, vemos um público de personalidades políticas e da sociedade, representados na figura de três pessoas que falam através de ruídos cômicos, portanto, não há falas mas há som!

Sendo assim, o filme “Luzes da Cidade” é marcado por ser o último filme mudo de Charles Chaplin. O próximo lançamento, “Tempos Modernos” (1936) já ensaiava as primeiras falas (o momento em que o chefe da fábrica dá um aviso aos funcionários e a célebre cena em que Carlitos canta em uma língua inventada) indicando que a transição para o cinema totalmente sonorizado seria inevitável para a sobrevivência da carreira de Chaplin – na qual hoje sabemos que foi exitosa.

Referências:

Carlos, Cássio Starling et al. Coleção Folha Charles Chaplin v. 5. São Paulo: Folha de São Paulo, 2012

Notícias Angola, Site. Acessado em 03/08/2014.