Coluna “Charlot em Portugal”

“Charlot em Portugal”: Capítulo final

Olá queridos leitores! Bom, já estamos em julho e minha jornada em Portugal está quase no fim. Meu intercâmbio foi uma experiência única (recomendo!) e pude conhecer muito da cultura portuguesa. Nesses meses que cá fiquei, fiz postagens relacionadas à Chaplin e Portugal, que na Europa é conhecido por Charlot. Esse texto que agora escrevo é um resumo, lembrança, desfecho de algumas coisas relacionadas ao nosso Vagabundo que gostaria de compartilhar como despedida dessa coluna “Charlot em Portugal”.

 Eu morei durante cinco meses em uma cidade próxima à Lisboa, chamada Setúbal. Não é tão movimentada quanto à capital, mas tem coisas bem interessantes. Uma das coisas que eu mais gostava era a Feira de Antiguidades, que acontecia quinzenalmente no centro da cidade, com barraquinhas de coisas antigas, em que seus donos vendiam desde isqueiros, discos de vinil e livros a móveis, baús, máquinas antigas. Certo dia, vasculhando uns livros com aquele cheiro maravilhoso de livro velho, vejo um quadrinho que me chamou a atenção imediatamente “A vida maravilhosa de Charlie Chaplin”. Não pensei duas vezes e o agarrei. Tentei adivinhar o preço… Estimei que fosse em torno dos 7 euros (algo por volta dos 21 reais) e perguntei ao dono: “Moço, quanto custa esse?” e qual foi a minha surpresa, ele disse: “Ah, isso era tudo meu, mas tenho que vender tudo. Estou a fazer por 1 euro.” O quê? Como assim? Um quadrinho biográfico do Vagabundo por 1 euro. Era demais! Paguei rápido antes que o homem percebesse minha empolgação e quisesse aumentar. Mas dei uma olhada na internet e encontrei na Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br/q/a-vida-maravilhosa-de-charles-chaplin). Essa é uma foto do quadrinho:

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Um dos encontros que tive em Portugal foi com um artista ao qual já falei antes por aqui. Agora reforço aqui sobre um artista que já falei antes. Ele é português e expressa seu carinho por Chaplin através de seu talento, apresentando ao vivo a trilha sonora de filmes mudos. Você pode conferir nossa primeira entrevista com Charlie Mancini aqui http://blogchaplin.com/2014/04/14/charlot-em-portugal-o-encanto-da-exibicao-cinematografica-com-acompanhamento-musical-ao-vivo/. Mancini conta que Chaplin chamou sua atenção desde quando era criança. Passavam as vezes algumas de suas obras na televisão, onde teve um feliz encontro. Mais tarde, em 1992, Mancini foi conferir o filme biográfico de Chaplin com o Robert Downey Jr, filme esse que o “deixou fascinado”, para citar suas palavras. Seu filme preferido de Chaplin é O Grande Ditador, pois segundo ele, revela um lado bastante humano e apresenta a genialidade ao desenvolver suas duas personagens tão parecidas fisicamente, mas tão distintas em suas personalidades. “Obra-prima hilariante na forma como transforma algo macabro num filme cómico e tocante do ponto de vista emocional”, afirma Charlie Mancini.

A humanidade e a ternura de Charlot são sempre destacadas através de suas obras, sendo características que marcam o expectador. Mancini também prioriza ambas, além de admirar o rigor das personagens nos filmes do artista. Essa é uma foto minha com Charlie Mancini, tirada na Casa da Cultura de Setúbal, onde ele se apresentou em maio (inclusive tocou na exibição de O imigrante).

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Bem, e para fechar, vou apresentar a vocês a belezinha que é o Auditório Charlot, um cinema que foi adquirido pela autarquia de Setúbal em 1998 e foi reaberto em 2000, após reformas. A sala de cinema tem sessões regulares e tem um charme todo especial vindo da decoração dedicada ao Vagabundo. É uma homenagem mais que merecida, não acham? Essa é uma foto que tirei quando lá fui recentemente:

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É isso! Minha estadia foi ótima, conheci pessoas incríveis e pude contribuir um pouco para o Blog Chaplin. Espero que tenham gostado da coluna “Charlot em Portugal”. Até breve!

O cinema mudo português e seus “Charlot’s”

O cinema português tem suas origens em 1896, ano em que foi exibido o curta-metragem de Aurélio Paz dos Reis, na cidade do Porto. O curta se chama “Saída do pessoal da Fábrica Confiança” e é uma réplica do filme dos irmãos Lumière “La Sortie de l’usine Lumière à Lyon” – um dos primeiros filmes do cinema.

O Vagabundo nascia em 1914, e já pouco tempo depois teve um sucesso mundial. Em Portugal, alguns de seus principais representantes do cinema mudo viram o querido Charlot como exemplo de personagem. Tiago Baptista, que é especialista em cinema mudo da Cinemateca Portuguesa, salienta: “Reflectindo os gostos da época e aquilo que era o cinema estrangeiro mais visto e mais apreciado no Portugal dos anos dez, muitos destes filmes são comédias inspiradas muito directamente nos filmes de Chaplin.”. Um deles é o argentino Hector Quintanilla, mais conhecido como Cardo, que realizou filmes dirigidos por Ernesto de Albuquerque claramente inspirados em Charlot. Três filmes interpretados pelo argentino são de 1916. Seguem as fotos:

Chegada de Cardo as Charlot a Lisboa, 1916

Chegada de Cardo as Charlot a Lisboa, 1916 Fonte: CINEPT

Uma conquista de Cardo as Charlot no Jardim Zoológico de Lisboa, 1916

Uma conquista de Cardo as Charlot no Jardim Zoológico de Lisboa, 1916 Fonte: CINEPT

Cardo as Charlot no Politeama, 1916

Cardo as Charlot no Politeama, 1916 Fonte: CINEPT

Outro que se inspirou em Chaplin, foi Emídio Ribeiro Pratas, popularmente chamado de Pratas. Além de imitar o Vagabundo em suas vestimentas e adereços, Pratas também interpretava como Charlot, em suas expressões faciais. Ele acaba por fundar a Pratas Film, uma empresa produtora que tinha como objetivo a produção de filmes cômicos em que ele próprio era o protagonista. Aqui segue o vídeo de um trecho do filme “Pratas, o conquistador” de 1917:

 

Viva Chaplin, eterno inspirador de personagens, filmes, sorrisos e vidas!

Referências:

CINEPT

http://www.truca.pt/imaginario_material/imaginario129_137.html

AAVV, Historia del Cine Español, Cátedra, 1995, p. 69;Palmira González López, «El cine mudo en Barcelona», in Cuadernos de la Academia, nº1, Un Siglo de Cine Español, dirRomán Gubern, 3ª ed., 2000, p. 47.

«A Cinematographia em Portugal. Relato de Emydio Ribeiro Pratas.», in Cine-Revista, nº1, 15 março 1917 e Nº2, 15 abril 1917

Charlot em Portugal: O encanto da exibição cinematográfica com acompanhamento musical ao vivo

Um cinema não tão mudo assim

Nos primórdios do cinema, sabemos que não havia diálogo falado, mas os filmes não eram silenciosos por completo. Grande parte deles tinha música ao vivo em suas apresentações, o que hoje em dia pouquíssimo se vê. A praticidade da exibição de filmes com a trilha sonora já embutida nos faz perder o momento mágico da sincronia do filme com a música ao vivo.

Com a experiência belíssima que tive no Teatro Nacional de São Carlos, na apresentação de O circo, de Chaplin com a trilha sonora interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, resolvi pesquisar um pouco sobre isso. Gostaria então, de vos apresentar dois artistas desse belo ramo que passam pelo meu circuito Brasil-Portugal: Charlie Mancini e Tony Berchmans.

Charlie Mancini (xará de quem?) é português e faz acompanhamento musical de filmes mudos desde o ano de 2007. Tem se apresentado em associações culturais, universidades e auditórios, além de trabalhar com composições para cinema independente. Charlie conta que prefere o improviso na hora das apresentações, em que ele se utiliza do piano, iPad, sintetizador e guitarra elétrica processada.

Mancini ainda nos informa sobre seu interesse sobre o cinema mudo e Chaplin “Sempre tive uma paixão imensa por cinema e lembro-me de assistir ao filme biográfico «Chaplin» de 1992, dirigido por Richard Attenborough. O filme mudo condensa muita emoção humana e com a falta de diálogos os atores têm de fazer um esforço extra para passar os sentimentos, as situações e no caso de Chaplin o lado extremamente comovente, humano, por vezes crú (sem filtros) que está implícito nos roteiros.”. O artista – que já musicou ao vivo “Carlitos Aprendiz” e “O Imigrante” – revela que vem novidades por aí em um especial Charlot, para um festival no Alentejo, Portugal. Para conhecer mais sobre seu trabalho (recomendo!) acesse a fan page no Facebook

Vídeo da apresentação de “O Imigrante”:

Já Tony Berchmans é brasileiro, pesquisador, autor de um livro sobre música e cinema, compositor e produtor musical, palestrante e curador de eventos nesse ramo além de atuar no seu projeto Cinepiano (ufa!). Tal projeto nasceu em 2010, mas a experiência de Tony na área de produção fonográfica já passa dos 20 anos.

O artista brasileiro também nos fala um pouco sobre a sua atração pelo cinema mudo e chapliniano: “Me interesso por filmes mudos desde a adolescência, mas foi há cerca de 10 anos que minha pesquisa se intensificou. […] Os filmes de Chaplin passaram a ser minha maior referência a partir do meu trabalho no Cinepiano, já que suas obras se apresentam como território perfeito para o acompanhamento musical.”.  Berchmans já se apresentou com o projeto Cinepiano no Brasil, Noruega e em breve estará na Romênia.  No âmbito Chaplin, Tony já musicou “Vida de Cachorro”, “Rua da Paz”, “O Pastor de Almas” e “O Garoto”. Mais informações sobre o trabalho desse mestre vocês encontram no site: http://cinepiano.com.br/home.html

Vídeo apresentação do Cinepiano com passagens de “Vida de Cachorro”

Pra quem tem vontade de sentir aquela sensação de cinema do século XX, vale a pena conhecer a arte desses dois. É algo maravilhoso, essa tentativa de viver o passado experimentando o começo da tão apreciada sétima arte!