Annex - Goddard, Paulette (Modern Times)_mulheres magras tambem sao fofas Carlos Kurare

A questão de gênero no filme Tempos Modernos (Chaplin, 1936)

Por Everton Luís Sanches (Professor e Doutor em História)

O filme Tempos Modernos (Chaplin,1936) é bastante lembrado tendo em vista o sistema produtivo em série, a linha de montagem, além de reflexões sobre a economia capitalista, a crise de 1929 e a mecanização envolvendo o ser humano de maneira a afastá-lo das condições básicas que permitem que ele seja humanizado. Contudo, podemos considerar também nesse filme a condição do homem e da mulher no tempo de sua produção e compararmos com os dias de hoje. Um modo diferente de assistir ao filme é sob a perspectiva das relações de gênero estabelecidas dentro de sua narrativa. Nesse caminho, podemos analisar as seguintes questões: como o filme trata o homem e sua legitimidade (atributos que lhe conferem respeito) na sociedade? E a mulher? Como ela se relaciona com o contexto descrito no filme? Como ela se afirma enquanto ser humano?

Tendo em vista uma abordagem rápida, gostaria de destacar do filme o trecho que vai da saída de Carlitos do hospital (18 minutos de filme aproximadamente) até a sua fuga da polícia junto de uma jovem órfã (40 minutos e 20 segundos de filme). Nesse ínterim, uma sequência inicial curta demonstra a cidade fora de seu eixo e Chaplin caminhando em frente à entrada de seu antigo trabalho, agora de portas fechadas.

Na continuidade, Carlitos é confundido com um líder agitador ao tentar devolver a bandeira de sinalização que caiu de um caminhão em movimento e acaba sendo preso pela polícia.

Outra personagem é apresentada na sequencia seguinte: uma garota que “luta contra a fome” e está a roubar bananas no cais. A garota leva um cacho de bananas para suas duas irmãs em casa, quando seu pai, que está desempregado, chega. A expressão do pai é mostrada em close, abatido, cansado. Ao receber as bananas que sua filha roubara tenta censurá-la, mas não consegue diante da necessidade de comida.

Na prisão, Carlitos tenta lidar com a vida no cárcere e, atrapalhada e inadvertidamente,consegue dissuadir uma rebelião.

Fora da prisão, em meio a uma confusão, o pai da garota apresentada anteriormente é assassinado, deixando suas três filhas órfãs.  Entregues ao estado, a garota abandona as irmãs mais jovens e foge das autoridades.

Carlitos, preso, após sua prova de hombridade ganha a confiança dos carcereiros, que passam a conviver amigavelmente com ele. Não obstante, sua soltura é ordenada e ele é chamado para ser liberado. Sendo encaminhado até a sala do delegado, ele é convidado a sentar-se e tomar um chá, porém é interrompido pela chegada do Pastor, sua esposa e o cão dela. Desse modo, enquanto o pastor faz sua visita semanal aos presos sua esposa, o cachorro dela e Carlitos esperam sentados pela liberdade. Nesse cenário, tomar o chá é o único recurso para distrair a condição incômoda em que se encontram. Todavia, o chá causa desarranjo estomacal nos dois humanos, atraindo a atenção do cachorro, que é o único que se manifesta – aos latidos – e por isso acaba sendo condenado a deixar o banco em que estava sentado e ficar no chão.

Depois que o Pastor e sua esposa deixam a prisão, a notícia de soltura é dada a Carlitos, que não a recebe bem e pede para continuar na prisão, o que não é permitido. Então, o delegado lhe oferece uma carta de recomendação, para facilitar a busca de um emprego. Carlitos até tenta encontrar um emprego, mas não se sai bem no exercício de suas funções e por isso decide voltar para a prisão.

 

Na sequencia seguinte Carlitos encontra acidentalmente a garota órfã que, faminta, havia sido pega furtando um pão (denunciada por uma mulher que a flagrou roubando um padeiro).

Carlitos, que estava disposto a voltar para a prisão assume diante da polícia a responsabilidade pelo furto, porém logo a mulher insiste em sua denúncia à garota, de modo que a polícia deixa Carlitos livre e vai à busca da órfã.

Enquanto a órfã é presa Carlitos procura criar outro motivo para ser preso, indo a um restaurante e fartando-se, mesmo sem ter dinheiro para pagar. Por esse motivo, consegue ser preso novamente.

Ambos encontram-se, posteriormente, no carro da polícia e vivenciam um acidente de trânsito. Como consequência do acidente, eles têm a possibilidade de escapar. Carlitos hesita, mas diante da dissuasão da garota, acaba aceitando o convite para a liberdade.

Retomando os questionamentos iniciais, temos nesse trecho do filme, primeiramente, a questão do trabalho como atributo de legitimidade para o homem. Tanto Carlitos quanto o pai da garota perdem sua dignidade diante da sociedade na medida em que não estão devidamente empregados de modo que não possam prover a si mesmos, nem à família. No que diz respeito à figura feminina, a garota ao ficar órfã também perde de maneira definitiva o fator que a legitimava, uma vez que a figura masculina não está mais ao seu lado (ela possui apenas duas irmãs mais novas). A sequencia em que o pastor visita a delegacia também é bastante significativa. Ele é um religioso e pai de família (dois atributos de respeito na sociedade), estando acompanhado de sua esposa e levando a palavra (a bíblia) aos detentos. Sua esposa, por sua vez, não possui nenhuma função objetiva, mas apenas a função social de acompanhar o seu marido. Nesse cenário o cão também é um personagem fundamental: já que a esposa ficaria do lado de fora, esperando que o marido fizesse a sua pregação, então ela leva uma companhia fiel que se senta ao seu lado (o cachorro). A presença de Carlitos com ela na sala de espera acrescenta um dilema, pois ele era um detento com quem uma mulher de respeito como ela não deveria conversar – mas o cão não sabe disso. As manifestações do cão forçam certa interação entre a esposa do pastor e Carlitos, porém ela se manifesta pondo o cachorro em seu devido lugar (no chão). A mulher, o detento e o cachorro, por alguns instantes se veem na mesma situação, ou seja, à espera do homem da lei (delegado) e do homem de Deus (o pastor).

Outra mulher defende o seu lugar na sociedade: a senhora que denuncia ao policial o furto do pão realizado pela órfã. Sua insistência na denúncia, mesmo depois de Carlitos ter assumido a responsabilidade pelo furto, pode ser considerada uma afirmação de sua posição idônea em oposição à “desonestidade” da garota órfã, como um ato de decência de uma mulher diante da indecência de uma garota “perdida”. Assim, a forma de se afirmar na sociedade passa a ser a acusação e afirmação de uma posição inferior de outrem. Trata-se da negação da condição de miséria da própria sociedade, tendo em vista as virtudes da lei e da ordem e a atribuição de culpa àqueles e aquelasque não conseguem se adequar a esses códigos.

Finalizando, temos a própria órfã solicitando a presença de Carlitos junto dela, ao fugir da polícia. Temos aqui uma dupla mensagem: se de um lado podemos considerar entre os dois um vínculo de solidariedade, ou mesmo um possível flerte, de outro lado ambos precisam um do outro, já que o respeito à mulher é vinculado à presença de um homem provedor ao seu lado; igualmente,para que o homem seja considerado digno, ele precisa tomar a frente de uma família, o que o faz merecer – desde que apresente uma carta de recomendação – uma vaga de emprego, que é outro atributo de respeitabilidade.

P.S.: Este texto é um resumo da palestra realizada na Sede do CLARETIANO – Centro Universitário, na cidade de Batatais-SP, no dia 30 de julho de 2015, das 19h20 às 20h50.

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