Ecos de Chaplin: “Noites de Cabíria”, de Federico Fellini

Por Diogo Rossi Ambiel Facini

             Cabíria é uma prostituta que habita a periferia de Roma e segue todas as noites à região central da cidade, em busca de sustento. Cabíria é forte e determinada, aprendeu com os desamparos da vida; é esperta e desconfiada, sabe que as pessoas têm interesses e podem agir em função deles; é viva e destemida. Mas Cabíria também é amor, Cabíria também é poesia. Por traz de sua casca necessária, pode ainda haver a esperança da juventude. Cabíria ainda é sonho.

          “Noites de Cabíria” é um filme de 1957, dirigido pelo grande diretor italiano Federico Fellini, e estrelado pela atriz Giulietta Masina (também sua esposa), que já havia interpretado a artista circense Gelsolmina no também clássico “A Estrada da Vida”, de 1954 (já comentado nesta seção, veja em http://blogchaplin.com/2015/03/01/aestradadavida/). “Noites de Cabíria” é o último filme realizado pelo diretor antes de alcançar projeção e reconhecimento internacionais com “A Doce Vida”, seguido de “8 e ½”, seus filmes mais conhecidos. Um pouco ocultado pela fama desses trabalhos anteriores, “Noites de Cabíria” é talvez a grande obra dessa sua primeira fase. Mesclando elementos realistas e poéticos, o filme é também, em conjunto com “A Estrada da Vida”, aquele em que a presença e influencia da obra de Charles Chaplin aparecem com mais intensidade (e beleza).

Cabíria em suas noites.

             O filme apresenta a célebre personagem Cabíria em suas perambulações e encontros pela cidade de Roma. Apesar de ser uma pessoa vivida e esperta, Cabíria mantém parte de sua inocência, e o início do filme representa essa condição: em um encontro com seu namorado, este a joga no rio e roupa o seu dinheiro, levando-a quase à morte por afogamento. Cabíria é esperta, mas pode abrir exceções em sua desconfiança e levar pequenos tropeços em sua estrada. Em certo sentido Cabíria marca uma evolução da personagem anterior da atriz Giulietta Masina com Fellini, Gelsomina, que era quase que completa pureza e inocência. Cabíria conserva algo dessa qualidade, mas aprendeu um pouco com as desilusões. Um pouco. Esse equilíbrio entre inocência e sobriedade, entre pureza e certo ceticismo é uma das aproximações que podemos fazer entre Cabíria e Carlitos, principalmente o Carlitos mais desenvolvido dos últimos curtas e dos longas mudos de Chaplin. Cabíria, assim como Carlitos, pode se apaixonar e fazer tudo pelo amor, mas não deixa de utilizar as suas espertezas para seguir em frente no jogo da sobrevivência.

Federico Fellini ao lado do futuro diretor Pier Paolo Pasolini, que foi um dos roteiristas do filme.

           Fellini apresenta os fatos e o desenrolar do filme em uma abordagem realista, ainda bastante influenciada pelo movimento cinematográfico do neo-realismo italiano, muito influente nas décadas de 40 e 50. Mas devemos destacar que não se trata de um realismo em sentido estrito, “duro”, mas situado em um estilo todo próprio do diretor, que já se distanciava do neo-realismo em direção a um estilo tão seu que levaria um nome, o seu nome (feliniano). De certa forma, essa característica poética se relaciona com a própria apresentação de Cabíria, que mescla a necessidade de ser dura perante a sua posição social e uma força de ser pura que ultrapassa todas as barreiras. Nesse sentido, uma cena (uma das mais bonitas do filme) é exemplar.

         Cabíria se dirige a uma espécie de teatro de variedades, onde se apresentava, no momento, um hipnotizador. Ele primeiramente realiza um número com alguns homens, que são levados a crer que estão em um navio prestes a afundar e agem desesperadamente, para a alegria da plateia. A seguir, o hipnotizador chama Cabíria para o palco. Cabíria tenta recusar, mas acaba cedendo, e em poucos instantes está hipnotizada, em uma sequência que mistura sonho, realidade e um tanto de esperança. Ela pensa que está em um encontro com um pretendente amoroso. Colhe flores, anima-se com um possível interesse do outro, entrega ao público uma nova dimensão de seus sentimentos, mais romântica. Cabíria não é a prostituta que colhe seus lucros todas as noites; talvez fosse outra pessoa, se fossem outras as necessidades (nesse ponto a influencia do neo-realismo é significativa). Por traz de sua máscara, havia outra coisa ainda. Essa coisa que é linda. Cabíria logo volta a seu estado normal, sem saber exatamente o que se passou, mas o importante é que nós, espectadores, sabemos. Essa talvez seja a cena (em conjunto com a última que veremos a seguir), em que há uma influencia mais forte do cinema de Chaplin, sobretudo a presença do elemento sentimental e poético. Mesmo com certa degradação da vida, certa negação das expectativas, Fellini nos aponta, através desse retrato dos sonhos de Cabíria, assim como Chaplin, que a poesia ainda está na vida, ou a vida ainda está na poesia. Do mesmo modo como é possível um vagabundo se apaixonar e resgatar da escuridão uma florista cega, é possível a essa carismática prostituta resistir às pressões do mundo e seguir adiante em sua estrada da vida.

Sonhos de Cabíria.

            O tema da estrada nos remete à última cena de “Noites de Cabíria”. Depois de mais uma desilusão amorosa, que além de tudo a deixa sem dinheiro, Cabíria anda por uma estrada. Depois de todos os contratempos e abandonos, o que fazer? Aonde ir? Difícil saber, e mesmo uma personagem determinada como ela parece seguir sem rumo. A estrada, local de encerramento tão presente em alguns dos mais importantes filmes de Chaplin, elemento importante dentro da mitologia de Carlitos (a vida que segue; o caminho que continua, apesar das pedras; o horizonte de possibilidades) também aparece nesse filme de Fellini com um significado bastante especial. Cabíria, em um misto de desilusão e indiferença, segue na estrada, até encontrar um grupo de jovens que cantam, dançam, tocam música. Pouco a pouco, sua expressão vai mudando. Cabíria é contagiada pela alegria dos jovens, ou os jovens que contagiam uma alegria antiga, enterrada, que não deveria ter sido ocultada? Não é preciso saber de tudo. O importante é que Cabíria segue, e no seu semblante vemos um sorriso. Cabíria segue. E em ritmo de cantos, danças e sonhos, Cabíria caminha, e em um gesto incomum, Cabíria (e Giulietta Masina, e Fellini), olha diretamente para a câmera. Olha diretamente para nós, os espectadores, em nossas estradas comuns e particulares. O que o olhar de Cabíria nos diz? Talvez algo que não coubesse em palavras. Talvez, como em Carlitos, as palavras não fossem necessárias.

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestrando em Linguística Aplicada também pela Unicamp; na dissertação, discuto alguns aspectos da obra de Charles Chaplin.

2 comentários

  1. Muito obrigado pelo comentário! E a data tinha passado batido mesmo, obrigado por informar! Esse filme é mesmo muito especial, em minha opinião o auge do Fellini nessa primeira fase, antes de virar quase que uma instituição dentro do cinema (assim como o Chaplin).

  2. Belíssima analise de Noites de Cabiria. Chaplin é o mestre supremo do cinema, e Fellini o aprendiz, mas que conseguiu fazer este filme que quase o iguala ao Mestre. Para mim Noites de Cabiria e Tempos Modernos são os melhores filmes de todos os tempos, devido a sua pureza poetica, misturada com a realidade politica e social. Só um detalhe, o filme é de 1957.

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