Chaplin em dose tripla: Festival Carlitos, de 1959

 Por Diogo Facini

            Um fato que é conhecido, ao menos para os admiradores da obra de Chaplin, é que, depois do surgimento do cinema sonoro (1927), inclusive quando a frequência de lançamentos de novos filmes diminuía, o ator/diretor relançaria, com algumas mudanças, a maior parte dos seus filmes clássicos. A chegada do som ao cinema possibilitava que os antigos filmes mudos agora viessem em conjunto com uma trilha sonora musical, composta por Chaplin, além de alguns efeitos sonoros. Além disso, o cineasta efetuaria mudanças mais efetivas em algumas obras: no filme Em Busca do Ouro, por exemplo, há, além da música e de alguns cortes, o acréscimo da fala do próprio Chaplin, narrando e realizando alguns diálogos (a versão original é de 1925 e a segunda versão é de 1942); O Garoto, originalmente de 1921, foi relançado exatamente meio século após, trazendo, além da trilha musical, a retirada de algumas cenas, principalmente as que traziam a personagem da atriz Edna Purviance, mãe do garoto.

            Prosseguindo com os relançamentos, em 1959, Chaplin realizaria uma produção bastante interessante, que combinaria três médias metragens clássicas seus, em conjunto com algumas novidades. Essa obra, chamada originalmente de The Chaplin Revue (e em português, em suas versões mais recentes em mídia física, Festival Carlitos), é o tema principal deste texto.

Cartaz do filme.

            Festival Carlitos, como dito, é uma reunião de três filmes de Chaplin em uma única obra. São eles: Dia de Cachorro (A Dog’s Life); Ombro, Armas (Shoulder Arms) e Pastor de Almas (The Pilgrim). As três obras constituem, cada uma à sua maneira, clássicos da filmografia de Charles Chaplin, principalmente se considerarmos a sua fase anterior ao lançamento dos grandes longas metragens, que se deu a partir das suas produções distribuídas pela companhia United Artists (da qual era um dos proprietários). No entanto, apesar dessa junção, não se trata de uma simples reunião ou soma das três obras; alguns acréscimos interessantes tornam especial esse “festival”.

Mais um cartaz.

            Em primeiro lugar, talvez a adição mais explícita seja a da trilha sonora musical, obviamente composta pelo próprio Chaplin. Na verdade, como são três as obras, são também três as trilhas, adaptadas às diferenças de conteúdo de cada filme. De uma forma geral, podemos observar nelas a mistura de humor, drama e sentimento, característica de suas composições. Porém, além da trilha musical (que já era de se esperar) há mais duas outras adições, que, se menos extensivas, chamam mais a atenção do espectador.

Imagem de Vida de Cachorro.

            Em primeiro lugar, antes dos dois primeiros filmes (Dia de Cachorro e Ombro, Armas), há uma espécie de introdução, em que são apresentadas algumas imagens inexistentes nas versões originais, que retratam elementos externos ao conteúdo das obras. Na primeira introdução são trazidas imagens do próprio Chaplin produzindo seus filmes, além da construção de seu estúdio. Essas imagens, na verdade, fazem parte de um documentário promocional produzido pelo próprio Chaplin, mas nunca lançado, chamado How to Make Movies, algo como um making off relacionado a suas produções. A segunda introdução apresenta uma relação mais direta com o filme que segue, Ombro Armas. São trazidas imagens reais do da Primeira Guerra Mundial, que acabam ajudando em uma contextualização prévia do tema para os espectadores. A segunda novidade talvez seja ainda mais interessante, principalmente para os fãs de Chaplin. Antes de cada um dos três filmes (acompanhando as imagens, e no caso do terceiro, acompanhando os créditos do segundo) é adicionada a própria fala de Chaplin, que realiza alguns comentários sobre os filmes e sobre o contexto de produção. Mesmo que esses comentários do cineasta atinjam uma curta duração, talvez exercendo uma função mais de curiosidade para o público em geral, trata-se de uma oportunidade muito valiosa de ouvir a voz de Chaplin, não como um personagem em seus filmes, mas em seu papel de diretor, criador, tão (ou mais) importante que o de ator. Esse comentário de Chaplin, que talvez se aproxime do “comentário do diretor” presente nos extras de filmes em mídia física nos dias de hoje, traz uma dimensão interessante, apesar de pequena, da relação entre um criador e sua obra.

Um Carlitos soldado em Ombro, Armas.

            E quanto aos três filmes? Como mencionado, trata-se de três obras clássicas, que não sofreram alterações significativas no conteúdo; desse modo, elas mantém a genialidade e criatividade de Chaplin, apenas atualizando a questão sonora (principalmente com a adição das músicas). Em Vida de Cachorro, Carlitos encontra um novo companheiro, um cachorrinho, que curiosamente leva uma vida marginalizada bem parecida com a sua. Além disso, tenta ajudar a personagem de Edna Purviance, explorada em um bar. Em Ombro Armas, Carlitos é um soldado na Primeira Guerra Mundial, que enfrenta as privações de um ambiente hostil e a luta contra os alemães. Pastor de Almas, um dos filmes mais complexos dessa fase, traz a história de um preso que escapa da prisão, e para se disfarçar, veste-se de pastor. No entanto, na cidade para a qual ele viaja em fuga a cidade aguardava um novo pastor; com isso tomam Carlitos pela autoridade religiosa. O disfarce de Carlitos como pastor acaba causando muitos dos conflitos e confusões que provocam o riso do público no filme.

Carlitos disfarçado em Pastor de Almas.

            Com isso, vemos que Chaplin conseguiu, com esse Festival Carlitos, ao mesmo tempo manter as qualidades “originais” das obras, o que mostra a vitalidade do seu cinema, mas também trouxe alguns elementos novos, que buscaram, de alguma forma, “atualizar” os filmes para uma forma sonora, mais adequada um novo tipo e a um novo público de cinema. Devemos lembrar que essa é a versão “oficial” atual desses três curtas, que são encontrados nessa forma nas produções em mídia física, como na Obra Completa lançada pela distribuidora Versátil Home Vídeo. De qualquer forma, estejam separados, estejam reunidos, não importa: esses três filmes de Charles Chaplin mantêm a sua força, mesmo 90 anos depois do lançamento. Continuamos assistindo-os, e eles continuam a fazer rir e emocionar. O mais é silêncio.

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestrando em Linguística Aplicada também pela Unicamp; na dissertação, discuto alguns aspectos da obra de Charles Chaplin.

2 comentários

  1. Muito bom! Eu tenho os três DVDs, mas farei questão de adquirir esse material pelo valor histórico e sentimental. Parabéns!

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