O Imigrante: o encontro com a “Terra da Liberdade e Oportunidade”

Por Hallyson Alves

Falar sobre a imigração nos Estados Unidos é contar uma parte fundamental da sua história, desde a sua ocupação, ainda no período das 13 colônias. Esse processo, permeado por conflitos, contribuiu para a formação do atual país continental que se tornou.

Durante os cem primeiros anos “pós-independência”, quase não havia restrições quanto à imigração, exceto que, por vezes, algumas leis eram criadas para evitar a chegada de estrangeiros em Estados específicos. Nesses casos, a Suprema Corte do país declarava todas essas leis estaduais como sendo inconstitucionais, continuando assim, o processo de imigração para a nação.

Por essa razão, o país ganhou sinônimo de liberdade e oportunidades, onde milhares de homens e mulheres estrangeiros buscavam refazerem as suas vidas, construir algo novo, recomeçar.

É movido pela promessa desta oportunidade tão sonhada que Charles Chaplin elabora o roteiro de “O Imigrante”, produção realizada no ano de 1917. O personagem de Charlie segue a bordo de um navio, lotado de outros tantos estrangeiros com sonhos e objetivos semelhantes aos dele.

Cartaz do Filme

Cartaz do Filme “O Imigrante”.

Em 1917, os Estados unidos declaravam guerra à Alemanha e seus aliados, entrando oficialmente na Primeira Guerra Mundial. O mundo, nesse momento, presenciava sérias e definitivas transformações sociais, econômicas e culturais. O historiador social Eric Hobsbawn chama a atenção para a grande catástrofe humana no século XX, sofrida pela guerra, segundo ele: “O grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guera mundial, quando suas colunas ruíram. Não há como compreender  o breve século XX sem ela. Ele foi marcado pela guerra. “(Hobsbawn, 1995).

O cenário de então era pouco favorável para o cinema, uma vez que todas as atenções estavam voltadas para a guerra e suas consequências. Mesmo assim, os anos que a sucederam foram os que houveram um maior número de produções realizadas por Chaplin. A temática escolhida por ele, que explicitamente tratava-se de uma crítica ao sistema de imigração estadunidense, não foi muito bem recebida pelo país, sobretudo pelas autoridades. O Imigrante teve a sua primeira exibição no dia 17 de junho de 1917 e, após o lançamento, foi proibido de ser exibido nos EUA. Foi resgatado anos depois, após a América fazer as pazes novamente com Charlie Chaplin.

As condições de viagem dos passageiros menos favorecidos socialmente são mostradas no curta-metragem que, apesar de tratar-se de uma comédia, reunia os elementos comuns à produção chapliniana: humor, drama e crítica social .

No navio (onde grande parte do filme se passa), os passageiros da terceira classe viaja amontoada, no convés, dispostas ao sol e sem nenhum conforto. é nesse  cenário que o filme se inicia, tendo a graciosa aparição do Vagabundo. Ao longo da história, Charlie conhece uma bela moça, Edna Purviance, que traz consigo a sua mãe doente. Entre momentos divertidíssimos (como a memorável cena da refeição, com o cenário simulando os movimentos do navio e as acrobacias dos atores), há cenas que revelam a difícil viagem dos passageiros imigrantes.

Charlie e Edna Purviance. Fonte: Reprodução

Charlie e Edna Purviance.
Fonte: Reprodução

Então é chegado o que, particularmente, considero o clímax do filme: Após a aparição de um quadro cuja legenda é “Terra da Liberdade”, inicia-se o som do hino dos EUA e a Estátua da Liberdade aparece, para deleite dos passageiros. Mas não seria um filme chapliniano se não causasse uma reflexão no espectador: após a cena “poética”, eis que os imigrantes são exprimidos por uma corda, ao passo que oficiais de bordo o puxam e os vão liberando para desembarque. Cada um carrega uma espécie de etiqueta de identificação, uma forma de “coisificar” os sujeitos. Mais uma vez vemos os maus tratos para com a terceira classe.

Os imigrantes admiram a Estátua da Liberdade Fonte: Reprodução

Os imigrantes admiram a Estátua da Liberdade
Fonte: Reprodução

Na parte final, o Vagabundo caminha pelas ruas estadunidenses, cansado e com fome. Chaplin elabora mais uma sucessão de cenas muito interessantes e divertidas.  Em terra, ele também encontra dificuldades para sobreviver, até que reencontra Edna, onde conhecem um artista, que promete trabalho para ambos. Assim,  juntos começam a construir suas vidas.

A cena do restaurante Fonte: Reprodução

A cena do restaurante
Fonte: Reprodução

Como dito anteriormente, ao longo da sua história, os Estados Unidos da América – a “Terra da Liberdade”- conviveram com a presença de imigrantes, que os fizeram não somente um país gigante em população, mas também os ajudaram a erguerem-se economicamente. No alvorecer do século XXI, a grande nação passou a restringir cada vez mais o acesso às suas fronteiras, sobretudo após os eventos ocorridos com o fatídico ataque terrorista à cidade de Nova York, em 2001, conhecido como o 11 de Setembro. Esse trauma coletivo promoveu mudanças drásticas em sua política de imigração. Além disso, a discriminação para com o estrangeiro, sobretudo de origem árabe e muçulmana, passou a ganhar cada vez mais espaço nas discussões, cuja temática é a imigração.

Charlie Chaplin relatou que “O Imigrante” foi o filme que mais o comoveu. Talvez por se tratar de uma versão da sua própria história, enquanto imigrante inglês, que encontrou na América uma nova possibilidade para realizar os seus sonhos. 

O Imigrante, apesar de uma produção curta, traz uma narrativa muito bem elaborada, com temáticas interessantes – além da imigração, deixando uma mensagem de esperança e a possibilidade para se pensar sobre a vida, os sonhos e a luta pela felicidade.

 Saiba mais informações sobre o filme: http://blogchaplin.com/filmografia/mutual-film/ 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

O Imigrante. Direção de Charles Chaplin. Produção de Joseph Sistrom. Mutual Films, 1917. DVD.

HOBSBAWM, E. A era dos extremos. O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CHEVIGNY, Paul. Repressão nos Estados Unidos após o atentado de 11 de setembro. Disponível em: <http://www.surjournal.org/conteudos/artigos1/port/artigo_paul.htm&gt;. Acessado em 16 de abril de 2015.

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Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

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