Ecos de Chaplin: A Estrada da Vida, de Federico Fellini

Por Diogo Facini

            Federico Fellini é um diretor de cinema italiano, que atuou na sétima arte do começo dos anos 50 até o começo dos anos 90. Trata-se de um dos mais conhecidos e importantes diretores italianos (se não o mais), dono de uma obra original, criativa e cheia de personalidade, que levaria à inclusão do seu próprio nome em alguns filmes posteriores, e até mesmo à criação de um adjetivo específico para se referir a filmes ou outras obras que possuam algo da “marca” do cineasta: felliniano. Essa palavra, felliniano, representa algumas características desenvolvidas e consolidadas ao longo de sua obra: um cinema rico, recheado de elementos de imaginação e fantasia; uma exploração constante dos sonhos, que se tornam cada vez mais importantes nos filmes dos 60 em diante; e também uma presença forte de elementos autobiográficos, que se misturam com as criações do filme e tornam difícil descobrir o que é verdade e o que é mentira, onde está a realidade e onde está a ficção nas suas imagens poéticas. Fellini foi ganhador de muitos prêmios ao longo de sua carreira, entre os quais podemos destacar quatro Oscar de melhor filme estrangeiro e o prêmio de melhor filme no festival de Cannes por A Doce Vida (1960), um dos seus filmes mais celebrados. No texto que apresento comentarei uma das grandes obras de Fellini, a primeira do diretor a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro, e que traz algumas influências importantes do cinema de Charles Chaplin: A Estrada da Vida.

O diretor, Federico Fellini.

            A Estrada da Vida (La Strada) é uma produção de 1954. Trata-se do quarto filme dirigido por Fellini, e sinaliza uma mudança em sua produção, em direção a um tom menos realista e mais poético. O elenco principal é constituído pelo ator Anthony Quinn e pela atriz Giulietta Masina. Masina, devemos mencionar, era esposa de Federico Fellini, em um casamento que durou cerca de 50 anos, até a morte do cineasta (e a morte da atriz no mesmo ano). Fellini, nessa obra, daria a oportunidade de Masina mostrar seus talentos e chegar ao estrelato, condição que se aprofundaria ainda mais em uma obra posterior do diretor, Noites de Cabíria (1957). E é justamente na personagem de Masina que encontramos os “ecos” mais fortes de Chaplin e suas criações.

Federico e Giulietta.

            Anthony Quinn interpreta Zampanò, um homem bruto e rude, que trabalha como artista de circo e viaja pela Itália em uma espécie de moto, que é também sua casa. A atração principal de Zampanò consiste em amarrar uma corrente por volta do seu peito, a qual é quebrada apenas com a força dos músculos da região. A brutalidade de Zampanò se contrapõe às características da personagem de Giulietta Masina (que veremos melhor a seguir): Gelsomina. Zampanò vai até a família de Gelsomina, porque a sua ajudante anterior, Rosa, irmã da protagonista, havia falecido. Devido à pobreza grande de sua família, a sua mãe aceita que ela vá trabalhar para Zampanò, em troca de dinheiro e um pouco de comida (teria vendido a filha?). Assim, Zampanò e Gelsomina partem para a sua aventura, seguem a sua estrada.

Zampanò em seu trabalho.

            O casal parte em seu trabalho, Zampanò quebrando suas correntes, e Gelsomina trabalhando como sua ajudante e espécie de palhaça em alguns números cômicos. O seu “comprador” infelizmente é um homem bruto e sem muita sensibilidade, e acaba por relegar a Gelsomina uma função secundária, devendo esta apenas ser submissa às suas vontades. O que é interessante aqui é que, mesmo havendo essa figura dura e difícil do seu chefe, ele não é representado como um vilão. Fellini, influenciado pelos filmes italianos da época (do movimento neorrealista), destaca a condição social de marginalizados de seus personagens, na Itália pós Segunda Guerra Mundial: mais do que qualquer acusação ou rótulo, ambos são vítimas. Nesse sentido, já podemos encontrar uma relação com a obra de Chaplin: Fellini traz personagens marginalizados, excluídos de uma “sociedade italiana”, no entanto, assim como nas aventuras de Carlitos, os personagens do filme italiano lutam por seus caminhos, mesmo que tortos, de alguma forma buscam seguir em frente nos seus tempos modernos.

Os personagens em ação.

            Como mencionado, a personagem Gelsomina apresenta características que se contrapõem à rudeza e brutalidade de Zampanò, e é aqui que provavelmente encontramos a influência maior da obra de Chaplin, e justamente de sua maior criação: Carlitos. Fellini consegue a proeza de claramente trazer traços e influências anteriores, mas, ao mesmo tempo, criar uma personagem especial e marcante. Gelsomina é diferente de todos os outros personagens do filme, e parece ser, em um mundo degradado, uma esperança de sorrisos.

            Em primeiro lugar, ela é constituída por uma pureza e uma inocência muito peculiares e distintivas. Gelsomina é realmente diferente dos outros, e talvez seja um pouco abobada, mas essa sua inocência brilha em um mundo de pessoas já sem inocência alguma, que agem movidos apenas por interesses práticos, pela simples sobrevivência. Gelsomina sonha, se apaixona pelo seu algoz, acredita nas pessoas, e mostra, por baixo de uma máscara de passividade, uma vida de esperanças e anseios. Essa constituição nobre da personagem lembra bastante a composição dos últimos filmes mudos de Chaplin, representada na inocência e doçura de Carlitos: não o Carlitos quase insano dos primeiros curtas de 1914, mas o nobre e heróico Carlitos de Em Busca do Ouro, O Circo e principalmente Luzes da Cidade. Fellini, assim como Chaplin, traz, sobretudo através de Gelsomina, um olhar poético e lúdico para a realidade, que atravessa as feridas do presente em direção a um mundo de possibilidades e sonhos.

A inocência de Gelsomina.

A inocência de Gelsomina não é o seu único elemento que lembra Carlitos. Além desse elemento, a própria interpretação da personagem, realizada de modo soberbo por Giulietta Masina, traz elementos bastante característicos. Gelsomina é uma personagem de poucas falas e muito silêncio. No entanto, o silêncio dela não significa falta de expressão. Gelsomina é extremamente expressiva, mas a sua expressividade reside em sutilezas, manifestas principalmente em gestos e em sua interpretação facial. A personagem pode mostrar em um primeiro momento uma expressão indiferente, para logo em seguida abrir um sorriso quase infantil, cheio de vida (uma das suas marcas). Do mesmo modo, pode mostrar em toques sutis seu descontentamento ou tristeza sofridos com a exploração feita por Zampanò. Assim como realiza o expressivo Carlitos, capaz de dizer, com o seu famoso sorriso, o equivalente a muitas frases e discursos. Apesar de obviamente não se tratar de um filme mudo, Fellini mostra que o silêncio, através de pequenas expressões, pode enfrentar a força e a brutalidade.

A expressividade de Gelsomina.

            Devemos destacar que não se trata de um filme cômico, ou mesmo feliz. Mas também não se trata exatamente de um filme triste. Fellini mescla os dois elementos, reunindo o trágico e o cômico de maneira que poderia ser considerada bem chapliniana. A aparente alegria de Gelsomina parece não ter espaço em uma sociedade em ruínas; no entanto, ao mesmo tempo, a sua inocência é indispensável em meio aos seus tempos, em meio aos seus trapos, como um sopro de insanidade necessária em meio a uma sanidade opressora.

A brutalidade e a doçura.

            Este texto não pretendeu trazer muitos detalhes sobre o enredo do filme, com o fim de não estragar as surpresas para possíveis espectadores. No entanto, devemos mencionar que, independentemente dos fatos decorridos na obra, e das conclusões apresentadas, apesar de toda a sua brutalidade e insensibilidade, Zampanò não passa ileso por Gelsomina. Não passa indiferente. Apesar de ocupar uma posição de poder, exercida inclusive através da violência, algo acontece com Zampanò; não se sabe exatamente o que é, mas algo se afrouxa e se amacia nas correntes rígidas que prendem seu peito. Gelsomina, Carlitos, Chaplin, não importa: algo de sua doçura e esperança nos atravessa e fica, algo nos transforma: nós, tão Zampanòs em um mundo em que o viver é esmagado pelo sobreviver.


(Este é o segundo texto da seção Ecos de Chaplin. O primeiro, sobre o filme O Dorminhoco, de Woody Allen, pode ser lido em http://blogchaplin.com/2015/01/25/ecos-de-chaplin-o-dorminhoco-de-woody-allen/)
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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestrando em Linguística Aplicada também pela Unicamp; na dissertação, discuto alguns aspectos da obra de Charles Chaplin.

4 comentários

  1. Diogo,este texto esta muito bem escrito e explicado ,nos deixa com muita vontade de ver o filme.Parabens.

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