Novas visões sobre Chaplin no livro de Carlos Heitor Cony

Por Diogo Facini

Carlos Heitor Cony é um conhecido e experiente jornalista e escritor brasileiro. Com mais de 50 anos de atuação, é um dos escritores que fazem parte da Academia Brasileira de Letras (o que não significa lá muita coisa, mas prossigamos). De qualquer forma, Cony, ainda nos anos 1960, publicou um ensaio sobre Charles Chaplin, o que é bem relevante para nossos interesses.

Carlos Heitor Cony

O livro tema de nossa resenha, “Chaplin e outros ensaios” (Topbooks), traz um considerável ensaio “novo” escrito pelo autor sobre Chaplin (segundo Cony, na Nota do Autor do livro, ele havia sido publicado em partes durante várias semanas na primeira página do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil); além disso, o livro traz, em seu conjunto, inúmeros outros ensaios, que refletem sobre vários temas, principalmente grandes escritores.

Como o próprio nome do livro diz, trata-se de ensaios, um gênero literário que se caracteriza (de forma simples) em geral por uma relativa liberdade na construção e nos temas abordados. No total o livro traz 20 ensaios. Como mencionado, o maior número se refere a escritores, tanto do Brasil como do exterior: são abordados, por exemplo, autores como Guimarães Rosa e o francês Victor Hugo. Além disso, algumas personalidades fora do campo literário aparecem, como o cineasta Federico Fellini, Karol Wojtyla (o papa João Paulo II), o romano Nero, além do próprio Chaplin.

Capa do livro

No entanto, apesar do número considerável de ensaios, o grande destaque do livro é mesmo o ensaio sobre Charles Chaplin. Ocupando cerca de 150 páginas da obra (enquanto cada um dos outros ocupa cerca de 5), o texto sobre Chaplin é um misto de biografia, filmografia comentada, crítica e análise da obra e do mito de Carlitos e seu criador.

Uma das principais qualidades do texto e da análise de Cony é o fato de o autor procurar ir além dos comentários correntes sobre Chaplin e sua obra, trazendo contribuições relevantes e formas diferentes de ler os aspectos referentes ao criador de Carlitos.

Primeiramente o autor comenta sobre o personagem Carlitos, e sua característica de estar em uma constante resistência e luta, e chega a compará-lo com as criações de Shakespeare, por sua constituição complexa, cheia de contradições e elementos conflitantes. O autor também comenta sobre o caráter de mito da obra de Chaplin (“não passa de um conjunto de filmes nos quais um mesmo personagem vive diferentes aventuras”, p. 27) e a sua universalidade. No entanto, as duas maiores contribuições da obra, a meu ver, se referem à própria constituição do cinema de Chaplin. Contribuições relacionadas, aliás, que dizem um pouco sobre a peculiaridade de seu cinema e mesmo sobre a sua resistência ao cinema sonoro e afirmação do cinema mudo.

Chaplin e a “fala” em Tempos Modernos

Para o autor, a obra do criador de Carlitos teria uma existência paralela à do cinema tradicional. Chaplin apresentaria, a seu ver, uma indiferença aos recursos e técnicas próprias ao meio cinematográfico, que se refletiriam inclusive na sua recusa e resistência (o autor fala em desprezo) de alguns anos com relação ao cinema falado. A afirmação de Cony vai mais além: “Chaplin seria o anticinema” (p. 144). Desse modo, para Cony, Chaplin faria outra coisa que não cinema. O que faria então?

Mais à frente, vemos: “a concepção que Chaplin tinha do cinema não era cinematográfica nem científica. Era literária.” (p. 145). Desse modo, a visão aqui é que Chaplin, mais que cinema, estaria fazendo literatura (“não faria cinema, faria literatura através do cinema”, p. 146). No nosso texto já mencionamos a aproximação que o autor faz de Carlitos com os personagens de Shakespeare, mas aqui a reflexão vai um pouco além. De fato, a arte de Chaplin apresenta características tão peculiares e fortes que em certo sentido pode ser difícil enquadrá-la dentro do meio cinematográfico (e isso talvez explique certo desprezo de estudiosos de cinema para a obra de Chaplin). Obviamente, a leitura de Cony (dada em muito mais detalhes no livro que nesse nosso pequeno texto) é um tanto polêmica e pode ser questionada; de qualquer forma, é uma visão interessante sobre a obra de Charlie, e diz um pouco sobre elementos importantes de seu desenvolvimento posterior (como a questão das falas).

Chaplin: anticinema?

O ensaio é longo e apresenta muitas outras ideias que podem interessar ao leitor. Aqui, pelo fato de se tratar de um ensaio, a abordagem é conscientemente mais aberta e interpretativa, e não tem uma intenção de apresentar “verdades” ou resultados “científicos” sobre o cineasta (mas será que isso é possível?). Talvez até por isso o livro seja interessante, pela possibilidade de se refletir sobre a obra do criador de Carlitos de uma forma diferenciada, e que traz contribuições que fogem da tradicional visão de que estudar Chaplin é somente conhecer sua biografia (já tão escrita e comentada). Por isso, é uma obra bastante recomendada, principalmente aos que procuram por novas visões sobre o diretor e leitores que se interessem pelos temas relacionados às questões e criadores da literatura. Literatura essa que está presente na obra de nosso principal tema (e do livro), o criador-criatura-mito Charles Spencer Chaplin.

Referências Bibliográficas:

CONY, Carlos Heitor. Chaplin e outros ensaios. Rio de Janeiro: Top Books, 2012.

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestrando em Linguística Aplicada também pela Unicamp; na dissertação, discuto alguns aspectos da obra de Charles Chaplin.

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