Chaplin para crianças (de todas as idades)

Por Diogo Facini

As grandes obras de Chaplin e o seu personagem símbolo, Carlitos, já um senhor centenário, esbanjam vitalidade. Seus filmes mantêm a relevância e continuam sendo lembrados tanto no olhar popular quanto em listas especializadas de melhores filmes. Além disso, enquanto muitos dos grandes nomes do cinema mudo passaram por um processo de esquecimento ou diminuição da relevância, Chaplin e Carlitos seguem firmes, sobrevivendo a uma história muitas vezes cruel com os nomes do passado. Outra forma da “sobrevivência” da obra do cineasta, existente desde os seus primeiros anos de atuação, são as várias adaptações e versões de seu personagem e sua obra: bonecos, brinquedos, cartões, histórias em quadrinhos… Nos últimos anos podemos até acompanhar uma série animada 3D com as aventuras do Vagabundo em um canal de TV a cabo.

De todas essas versões da obra de Chaplin, uma em especial chama a atenção, tanto por sua beleza e qualidade quanto pelo modo como reafirma a relevância de Chaplin no século XXI. Trata-se da versão da obra de Chaplin em forma de livros, dedicados principalmente ao público infanto-juvenil. No entanto, a obra demonstra tanto carinho que dificilmente os adultos também não irão se encantar com ela.

De fato, não se trata de apenas uma, mas duas obras, adaptadas de dois dos mais importantes filmes do cineasta: “O Garoto” e “Em Busca do Ouro”. Lançadas originalmente em francês em 2007, e em português, pela editora Martins Fontes, em 2009, os livros foram escritos por Laurence Gillot e ilustrados por Olivier Balez. A tradução foi feita por Estela dos Santos Abreu.

Capa de ‘O garoto”

A organização dos livros deve ser mencionada. As suas histórias, dispostas ao longo de quase todas as 60 páginas de cada obra, estão bem distribuídas entre o texto verbal, narrativo, que conta o que se passou no filme, e inúmeras (e belas) ilustrações, que ao mesmo tempo atraem e agradam um público mais jovem e também enriquecem os significados das histórias, que apresentam uma origem fundamentalmente visual. Além disso, ao final de cada obra há uma seção bastante interessante, denominada “A história de um filme”. Ao longo de algumas páginas são apresentadas informações sobre o contexto do filme, curiosidades, elementos da produção e conteúdo, que são acompanhadas também de inúmeras imagens. Essa seção é importante, pois faz uma referência direta aos filmes que serviram de base e pode trazer informações novas sobre o filme, que podem inclusive motivar os leitores mais jovens a buscar as obras audiovisuais.

Capa de “Em busca do ouro”

Como os dois livros apresentam a mesma configuração, vamos comentar um pouco mais sobre uma dessas obras. Com inúmeras cenas clássicas e muita neve, Carlitos partiu “Em busca do Ouro”.

A história é, de modo geral, bastante fiel à representada no filme. Carlitos segue no gélido norte dos Estados Unidos na procura por ouro. Enfrenta a fome, habitações ruins e a força da natureza. Chega à cidade que se formou com a mineração e encontra um amor, Georgia, dançarina. Deve enfrentar a concorrência de Jack, um grandalhão mulherengo. Encontra amigos (Big Jim) e inimigos (Black Larson) em sua jornada. O final? Só lendo (ou assistindo) a história!

Capa da edição francesa

Carlitos é representado em toda a sua graça, inocência e nobreza (talvez até mais do que o filme, mas é algo compreensível se observado o público alvo). De forma geral os personagens aparecem como estereótipos de forma mais definida que o filme: Carlitos é o herói puro, Big Jim é o bom, Black Larson o mau, Georgia a vítima da sociedade etc. No entanto, como comentado, essa simplificação pode ser vista como normal nesse tipo de obra literária, e de forma alguma tira o seu brilho.

Uma das clássicas cenas de “Em Busca do Ouro”

Além disso, como esse filme apresenta muitas cenas antológicas, caracterizadas, sobretudo, pelo trabalho visual de Chaplin, sua mímica e gags (piadas visuais), as ilustrações são importantíssimas. Vemos no livro a representação visual de três gags que entraram para a história do cinema: a refeição dos sapatos de Carlitos, a cena em que Carlitos se transforma em frango e a dança dos pãezinhos. Aqui, as imagens não funcionam apenas como suporte do texto verbal, mas atuam como outro texto, talvez com a mesma importância, e que traz um novo olhar para cenas tão emblemáticas.

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A cena da refeição do sapato no livro

A graça de Carlitos na contracapa (versão francesa)

Com relação a uma dessas cenas, a da refeição dos sapatos, deve-se destacar, por fim, um ponto importante. Após utilizar um dos sapatos para fazer a “refeição”, Carlitos (na ausência de um sapato substituto) amarra uma espécie de pano, que passa a ser o seu sapato ao longo de praticamente todo o filme daí em diante. A produção do livro foi tão cuidadosa que não esqueceu esse detalhe: a partir da ilustração da refeição, o Carlitos desenhado aparece sempre com apenas um sapato e seu outro pé “improvisado”. Esse pequeno elemento demonstra o respeito do livro com a obra de Chaplin (e seus fãs atuais e potenciais).

Uma nova visão para “Em busca do ouro” (versão francesa)

Com isso, essas duas adaptações de Chaplin para a literatura infanto-juvenil são itens interessantíssimos, duas obras que demonstram um carinho pela obra do cineasta e reafirmam a sua relevância em nossos tempos. Apesar de destinadas a um público mais jovem, são indicadas a todos: alguma das muitas qualidades delas deve agradar ao leitor. Aos pais chaplinianos, pode ser uma forma de iniciar os filhos em seu universo, e aos não pais, é uma bonita maneira de retornar mais vez. E de novo… E de novo… 

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestrando em Linguística Aplicada também pela Unicamp; na dissertação, discuto alguns aspectos da obra de Charles Chaplin.

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