Era Charles Chaplin vegetariano?

Essa é mais uma das perguntas que nos chegam a todo momento. Em uma rápida busca pela internet, encontram-se várias referências dando a certeza de que Charles Chaplin era vegetariano (ou Vegan). Para a surpresa de muitos, afirmamos que NÃO. Chaplin não aderiu ao vegetarianismo.

“I’m Vegetarian”

A frase “I’m Vegetarian”, atribuída a Chaplin e utilizada amplamente pelas fontes citadas acima, para justificar a tese do vegetarianismo do artista, tem sua origem no filme “O Grande Ditador”, na cena em que o Comandante Shultz encontra o Barbeiro, que havia salvo sua vida há um tempo atrás. O Comandante fica surpreso ao vê-lo preso por ser judeu:

ariano vegetariano

No filme, o diálogo em que o personagem diz ser vegetariano refere-se, de forma bem evidente, a intencionalidade de Chaplin em realizar um trocadilho com a palavra “ariano”. Portanto, uma única frase, divulgada sem contexto, não tornaria verídica a informação de que o mesmo seria vegetariano, ao contrário, só deixa margem para mais dúvidas.

Entretanto, há diversos registros que afirmam que Chaplin valorizava a dieta a base de vegetais, frutas e legumes, entretanto, esses itens não eram exclusivos no seu cardápio.

Chaplin preparando um churrasco

Chaplin preparando um churrasco

Em detrimento às várias informações de sites pouco confiáveis, muitos daqueles que conviveram com Charles Chaplin, a maioria familiares e amigos, nos deixaram indícios que comprovam o gosto gastronômico do artista:

“Charlie e eu vivemos juntos, compartilhando o mesmo quarto, por mais ou menos dois anos e muitos foram os momentos em que cozinhamos os nossos jantares no quarto. Eu fritava as costeletas, enquanto Charlie sentava perto da porta, tocando o seu bandolim, para evitar que a senhoria ouvisse o chiar da carne sobre o gás…” (Stan Laurel, Film Weekly, 1929)

“Talvez o seu estado emocional pode ser bem ilustrado pela comida que ele come. Uma semana ele solenemente nos informa que ele é um vegetariano, que a carne é ruim e que a alface e as frutas formam o alimento ideal. Todos nós nos tornamos vegetarianos. Na semana seguinte, ele olha para cima e diz: “O que eu preciso é de um grande bife suculento. Boa carne para edificar o corpo e o cérebro…” (Virgínia Cherrill, Picturegoer, 09 de dezembro de 1935)

“Toda terça-feira, no Manoir era o “the cook’s day off” e minha mãe costumava assumir a cozinha. Ela era surpreendentemente boa sobre o fogão. Terça-feira era o dia em que ela cozinhava para o meu pai todos os seus pratos favoritos. Nada cinco estrelas, mas as coisas que ele devia ter tido ou gostaria de ter tido, como uma criança do Sul de Londres… tripa e cebola, bife e torta de rim e guisados com bolinhos de massa…” (Michael Chaplin, I Couldn’t Smoke the Grass On My Father’s Lawn, 1966)

“Charles Chaplin gosta de tripa e odeia uísque. Ele gosta de bons vinhos, cocktails e bebe quando a ocasião parece pedir isso. Ele sempre tinha uma adega bem abastecida, nunca bebeu muito mesmo e sempre foi um anfitrião perfeito alcoolicamente. Além de tripa cozida, ele gostava de ensopado de borrego. Esses são dois dos seus três pratos favoritos. Ele não gosta de temperos e nunca usa molhos ou condimentos violentos e nunca se importa com pratos condimentados. A única exceção é o curry, quanto mais quente melhor. Esse é o seu terceiro prato favorito. Ele é totalmente inconsistente sobre comer. Ele faz dietas, mas nunca as mantém. Ele entrou furiosamente em uma dieta de vegetais crus por vários dias. “Olhe os animais” – disse ele -, “eles comem vegetais crus e são saudáveis. O elefante é o maior e mais forte animal… ele come apenas vegetais”. Naquela noite, ele comeu dois bifes…” (Harry Lang, No Talkies for Charlie, Photoplay, maio de 1930)

“Ele era um grande artista. Era sempre bom sair com ele. Ele fazia coisas incríveis com um peixe, no restaurante, também. Ele sempre pedia uma truta, cozida viva. Numa posição divertida, ele torcia a truta, olhava para ela e dizia: “Oh, Emma, querida!” E beijava a truta nos lábios e sugava os seus olhos. Ficávamos todos gritando: “Oh, papai, como você pode! É tão horrível!”. Ele pedia para provar o vinho e o cuspia, dizendo “Maravilhoso!”. Ele amava uma audiência e nós, seus filhos, fomos um público fantástico para ele.” (Geraldine Chaplin, Variety, abril de 2003)

4912999074

Mais um fato esclarecido.

REFERÊNCIAS

Chaplin, C. (1941) O O Grande Ditador. [Filme-vídeo]. Direção de Charles Chaplin. EUA, United Artists, 1941. DVD. Preto e Branco, 124 minutos.

Discovering Chaplin [Internet]. (2012). Jessica Buxton. Recuperado em http://www.discoveringchaplin.com/search?q=vegetarian

Chaplin, C. (2011). Minha Vida. Rio de Janeiro: José Olympio.

Robinson, D. (2012). Chaplin Uma biografia definitiva. Osasco, SP: Novo Século Editora.

 

Anúncios

Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

1 comentário

  1. Sou bastante grata a este genio humanizador e idealizador em fazer parte do meu profissionalismo e na minha vida

Gostaríamos de saber a sua opinião sobre esse post. Utilize o formulário de comentários abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s