Uma história dos cinemas do mundo – “História do Cinema”, de Mark Cousins

Por Diogo Facini

 O livro “História do cinema: dos clássicos mudos ao cinema moderno”, do crítico de cinema, produtor e diretor Mark Cousins, publicado no ano de 2013 pela Martins Fontes Editora, é um material incrível para aqueles interessados na história da sétima arte, desde seus primórdios até as produções do século XXI. O autor, responsável por uma série de TV sobre o cinema, trouxe todo seu conhecimento sobre a história dos filmes para esse livro, que é voltado a um público um pouco mais amplo do que os especialistas, mas sem deixar a sua seriedade e informações de lado.

A obra, com suas quase 500 páginas, é dividida em seções que acompanham as principais mudanças técnicas e estilísticas do cinema. Há uma divisão inicial em três unidades, que acompanham os primórdios do cinema e sua forma silenciosa (até 1927); o cinema sonoro que veio a seguir (até o início dos anos 1990); e a revolução do cinema digital que começou na década de 1990 e continua nos dias de hoje. Além dessas unidades maiores, o livro é distribuído ao longo de dez capítulos, que acompanham mudanças de estilo e novos diretores e filmes criativos que modificaram as normas e possibilidades dessa arte (por exemplo, o cinema de 1914 a 1928, uma das eras mais importantes e revolucionárias).

Um dos pontos interessantes da abordagem de Mark Cousins é que a sua história do cinema é fundamentalmente a história da criatividade e inovação no meio; por isso, o seu destaque são os seus criadores, principalmente os diretores. Atores, produtores, roteiristas e compositores são abordados apenas se trazem alguma inovação para o meio do cinema na visão do autor.

“Cidadão Kane” (1941), um dos filmes mais importantes da história, é abordado com detalhes no livro

Além disso, o livro traz algumas outras inovações. A que talvez mais se destaque é o fato de esse ser realmente uma história do cinema mundial, e não apenas ocidental. Ao contrário de outras obras sobre cinema, que na verdade são sobre o cinema de Hollywood e proximidades (no máximo o cinema europeu de mais destaque), essa obra aborda com a mesma abertura as obras que estariam fora de eixo ocidental da sétima arte: cinemas indiano, chinês, africano, iraniano, latino-americano, entre outros estão representados. O cinema brasileiro inclusive está presente, em obras importantes como a mais antiga “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e o contemporâneo “Cidade de Deus” (2002). Esse ponto, em conjunto com a valorização de autores ainda não muito conhecidos (como o japonês Yasujiro Ozu) e a defesa da qualidade do período contemporâneo, considerado pelo autor o mais rico em distribuição de criatividade pelo mundo, mostram que além de contar a história do cinema, o autor procura trazer suas próprias contribuições e correções para ela.

O brasileiro “Deus e o diabo na terra do sol” (1964)

Com relação à obra de Chaplin, a obra traz algumas importantes contribuições. O autor não apenas discute a obra do autor, mas também aponta em alguns casos as influências de sua obra nos diretores que vieram posteriormente. Isso é mais claro quando observamos a obra de comediantes da época ou posteriores, como Harold Lloyd ou mesmo Woody Allen, mas se torna ainda mais interessante ao vermos alguns elementos da obra de Chaplin na obra do diretor italiano Federico Fellini. Além disso, é dado o devido crédito a outros nomes da comédia muda menos lembrados que Chaplin, como o já citado Harold Lloyd e o genial Buster Keaton.

Chaplin – uma influência

Para além do texto em si já primoroso, não podemos deixar de destacar as imagens presentes no livro. Consistindo principalmente de fotos retiradas de cenas dos filmes, em uma quantidade de quase 400 (!), essas imagens enriquecem muito o material, mas não se constituem de simples perfumaria ou enfeite. Já que se trata da história de uma arte que depende muito do aspecto visual, as fotos ajudam bastante no entendimento das informações e explicações de Mark Cousins, trazendo a referência direta para o que é discutido no texto, por exemplo, o uso de determinado ângulo da câmera, foco, iluminação etc.

Todas essas características mostram a riqueza e qualidade dessa obra. Se pensarmos em “pontos negativos”, poderíamos comentar sobre o seu preço não muito barato (mas condizente com a qualidade do material; apenas talvez tenha faltado o livro ser em capa dura). Além disso, a extensão do livro, seu vocabulário um pouco mais técnico e seu conteúdo denso, cheio de referências, podem afastar os leitores interessados em uma obra mais básica e um conhecimento mais superficial, em busca diretores já conhecidos. Mesmo assim, trata-se de uma grande obra, que muito provavelmente irá deixar o leitor cada vez mais interessado em ver os filmes abordados conforme a leitura avança, e dificilmente o deixará sair, ao fim da leitura, do mesmo jeito de quando “entrou”. Mesmo para os desinteressados por uma leitura longa, apenas as imagens e suas legendas explicativas já valem a leitura. Mais recomendado, impossível!

Capa do livro

 

Referências bibliográficas:

COUSINS, Mark. História do cinema: dos clássicos mudos ao cinema moderno. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre em Linguística Aplicada também pela Unicamp. Doutorando em Linguística Aplicada também pela UNICAMP.

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