Mês: agosto 2014

Filme retrata o roubo do caixão de Charles Chaplin

A história de vida de Charles Chaplin é tão fantástica, que por si só daria um interessante enredo para um filme. Após sua partida, no dia 25 de dezembro de 1977, aconteceu um evento que poderia ter saído da mente de qualquer roteirista de Hollywood: o Sequestro do seu seu corpo! Essa história já contamos aqui no blog (confira o post aqui).

O fato é que muitas vezes a vida imita a arte e essa máxima nunca foi tão verdadeira na atualidade. Na última quinta-feira, 28, no 71º Festival de Cinema de Veneza, foi apresentado um longa-metragem que retrata o caso do roubo do túmulo de Chaplin. O filme, cujo título é “La rançon de la gloire” (algo como “o preço da fama”), é dirigido pelo francês Xavier Beauvois (Deuses e Homens), sendo forte candidato ao Leão de Ouro de Veneza. Apesar da história real beirar a tragédia, na versão fílmica ela ganha um humor agridoce. O enredo teve a autorização da família de Charles Chaplin, que inclusive cedeu algumas imagens do rico acervo do patriarca ilustre.

Cena do filme "La rançon de la gloire"

Cena do filme “La rançon de la gloire”

Alguns detalhes da história foram alterados (como toda versão cinematográfica), a exemplo da nacionalidade dos ladrões do túmulo, que originalmente eram um polonês e um búlgaro, no filme, são argelino e belga, respectivamente.

Segundo a crítica, o tom de humor abordado no filme é muito semelhante ao de Chaplin, tendo, por isso, arrancado aplausos em sua estreia.

Muitas cenas do filme foram filmadas no Manoir de Ban, na Suíça, onde o ator e diretor passou os últimos 24 anos de sua vida.

Durante as filmagens do longa, na Suíça. Foto: Vevey Ville d'images

Durante as filmagens do longa, na Suíça.
Foto: Vevey Ville d’images

“Lembro-me desta época não muito agradável. (…) Quando encontramos o caixão de meu pai em um campo, na beira de uma floresta, perto de um canal. Foi absolutamente maravilhoso. Por isso, quase me arrependi de tê-lo encontrado”, declarou Eugene Chaplin, filho de Charlie Chaplin, presente no Festival para defender o filme.

Da esquerda para a direita: Arthur Beauvois, Eugene Chaplin, Michel Legrand, Xavier Beauvois, Seli Gmach e Nadine Labaki durante o 71º Festival de Veneza, na Itália.

Da esquerda para a direita: Arthur Beauvois, Eugene Chaplin, Michel Legrand, Xavier Beauvois, Seli Gmach e Nadine Labaki durante o 71º Festival de Veneza, na Itália. Fonte: Pascal Le Segretain/Getty Images Europe

O Leão de Ouro de Veveza será concedido ao ganhador no dia 06 de setembro de 2014.

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“Branca de Neve” e a atualidade do Cinema Mudo

Por Diogo Facini

             Quando se fala de “retorno do cinema mudo”, “recriação” ou volta desse estilo tão singular e que caracterizou o cinema durante pouco mais dos seus 30 anos iniciais, o filme francês “O Artista” (2011) vem à mente (a obra foi abordada neste mesmo blog, através do endereço http://blogchaplin.com/2014/08/04/o-artista-2011-e-a-volta-do-cinema-mudo/).

            Esse filme, que surpreendeu a todos e conquistou os públicos de todo o mundo, ganhando inúmeros prêmios de destaque, representou uma bela homenagem a esse período tão importante do cinema, retratando todo seu esplendor e encanto iniciais. No entanto, outro filme, produzido na mesma época que “O Artista” (e com roteiro escrito desde 2005 [1]), mas lançado um pouco depois (2012), também traria o estilo silencioso do cinema à tona. Mesmo que a repercussão tenha sido menor que o seu “parente”, sua abordagem criativa e sua releitura de uma clássica história, conhecida por todos, merecem grande destaque.

            Trata-se de um filme espanhol, escrito e dirigido por Pablo Berger, chamado simplesmente “Branca de Neve” (Blancanieves no original). Os leitores desavisados poderão pensar: Mais um “Banca de Neve”? Ou ainda: Esse filme de criança! Não vale a pena ser visto! Pois saibam que, apesar de ser uma adaptação da clássica história infantil, esse filme brilha mesmo é em suas inovações, no modo como faz a releitura de uma história já tão conhecida de crianças e adultos.

Uma nova Branca de Neve

                     Devemos lembrar: como o próprio título do filme indica, este traz vários elementos retirados das histórias anteriores, já tão conhecidos que alguns se tornaram símbolos de contos de fadas: a garota, a madrasta, os anões, a maçã envenenada, a quase morte de Branca de Neve. No caso dessa história tradicional, é difícil dizer o que seria a versão “original” ou “primeira”, já que há várias formas e inúmeras adaptações posteriores dela (como o clássico filme da Disney). No entanto, esses são pontos básicos, que o filme compartilha. Mesmo assim, a obra retrata esses elementos de forma tão particular, que só isso já justificaria a existência de mais uma Branca de Neve.

O pai de Branca de Neve

          Em primeiro lugar, há uma contextualização total do filme para elementos da cultura espanhola. O pai de Branca de Neve era um respeitado toureiro, e a mãe uma dançarina de flamenco. Branca de Neve (que recebe esse apelido posteriormente), acaba herdando essas duas características dos seus pais. As cenas envolvendo flamenco, principalmente envolvendo a protagonista menina e sua avó, são belíssimas, combinando música (o filme não tem falas, mas tem música!), ângulos e cortes de forma impecável. Com relação às touradas, elas constituem um dos temas centrais do filme. Além do pai, a própria Branca de Neve se transforma em toureira e, – surpresa! – os anões (que aqui são seis, ironicamente) são toureiros! Logicamente, essa temática dos toureiros pode acabar afastando algumas pessoas do filme, mas é inegável que esse é um elemento cultural forte da Espanha, e sua inclusão deu ao filme grande coerência. Além disso, o filme é todo ambientado em um contexto espanhol (cidades, vilas, habitantes), e há até algumas aproximações de conteúdo para tempos mais recentes: em determinada cena, a Madrasta posa e mostra sua casa a determinada revista de celebridades (os brasileiros se lembrarão de uma revista bastante conhecida por aqui).

A beleza do Flamenco

            Outro ponto interessante está na própria construção da obra cinematográfica, suas qualidades técnicas e de criatividade na escolha de filmagem e montagem. Este é um filme preto e branco, completamente mudo, sem diálogos, que inclusive utiliza os letreiros de fundo preto tradicionais para as falas, como os clássicos (apresentando vozes apenas em determinadas canções de flamenco); no entanto, seus ângulos e movimentos de câmera, cortes (como já mencionado nas cenas musicais), sobreposições de imagens, iluminação e enredo criativo (com um final ousado, mas sem maiores detalhes aqui!) fogem do habitual para esse tipo de história, dando à obra um dinamismo e modernidade até maior que o de outras produções contemporâneas. Desse modo, esse é um filme ao mesmo tempo clássico e inovador em seu estilo: preto e branco, mudo, mas trazendo ar fresco a uma história já tão aproveitada em tantas formas de arte.

Os anões

            Por último, devemos destacar também a sua atmosfera, que foge bastante da visão tradicional da “história infantil”. Essa obra, com exceção dos momentos mais marcadamente “espanhóis” e de um personagem carismático, o galo Pepe, apresenta um clima mais adulto e em alguns pontos sombrio do que o tradicional para essa história. As cores pretas e brancas talvez colaborem, mas elementos com a maldade e a perversão da madrasta são representados sem muitos rodeios, assim como o enredo do filme, que não apresenta tantas coisas “bonitinhas” para o público infantil. Esse é um filme, até devido à sua abordagem inovadora, que eu diria ser mais dedicado a jovens e adultos, ou pessoas que já tenham uma noção das mudanças que as esperam.

A madrasta

         Podemos encerrar esse texto de onde começamos. O filme “O Artista” trouxe novamente o olhar das pessoas para o cinema mudo e encantou. “Branca de Neve”, ao contrário, apesar de todas as qualidades discutidas, passou quase batido pelo grande público. É uma pena essa injustiça, pois trata-se de um grande filme, que assim como seu irmão francês, representa muito bem um estilo de se fazer cinema tão fundamental. Sem querer comparar a qualidade dos dois filmes, podemos dizer que cada um de certa forma representa uma forma de ver o cinema silencioso: enquanto “O Artista” representa os clássicos mais populares do cinema, e as histórias voltadas para o grande público que arrebataram multidões, Branca de Neve retrata outro tipo de filmes, mais experimental, que procurou extrair da linguagem do cinema sempre novos questionamentos e possibilidades de expressão. Esses últimos podem até ser menos vistos, mas continuarão sendo realizados, maravilhando seu público fiel, e mostrando novos (às vezes um pouco calados) caminhos para o cinema.

Referência:

[1] http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/divirtase/46,51,46,61/2012/09/27/internas_viver,399143/filme-mudo-espanhol-conta-a-historia-de-branca-de-neve-em-preto-e-branco.shtml

Morre Richard Attenborough, diretor de “Chaplin”

Morreu ontem, dia 24 de agosto, o diretor e ator Richard Attenborough, prestes a comemorar 91 anos de idade. 

Richard nasceu em Cambridge, em 29 de agosto de 1923. Começou sua carreira atuando no cinema, no drama de guerra “Nosso Barco, Nossa Alma” (1942). Estreou como diretor no musical “Oh, Que Bela guerra!” (1969), ambientado na I Guerra. Essa produção lhe rendeu um Globo de Ouro de melhor produção estrangeira.

Dirigiu e atuou em diversos filmes, incluindo três importantes cinebiografias: Gandhi (1982), que contou a história do famosos pacifista indiano Mahatma Gandhi, obra que lhe garantiu oito Oscars, incluindo o de melhor filme; Em 1987, filmou Um Grito de Liberdade, onde Denzel Washington representou o importante ativista negro Steve Biko, lutando contra a política segregacionista do Apartheid, na África do Sul; Em 1992, homenageou Charles Chaplin no filme “Chaplin”, protagonizado por Robert Downey Jr.

Em 1992, Attenborough dirigiu a cinebiografia de Charles Chaplin.

Em 1992, Attenborough dirigiu a cinebiografia de Charles Chaplin.

Ao lado de Robert Downey Jr., em "Chaplin" (1992)

Ao lado de Robert Downey Jr., em “Chaplin” (1992)

Sua última atuação como diretor foi em Um Amor para Toda a Vida, de 2007, um drama romântico estrelado por Christopher Plummer e Shirley MacLaine.

Em 2008, Attenborough havia colocado um marca-passo em decorrência de problemas cardíacos. Neste mesmo ano, sofreu uma queda e passou a se locomover com auxílio de cadeira de rodas. Desde 2012, ele vivia em uma casa de repouso ao lado da mulher, Sheila. Segundo o diretor de teatro Michael Attenborough, seu filho, a partir de 2013 a saúde do cineasta apresentava progressiva deterioração. Richard Attenborough deixa a esposa e dois filhos.