Charles Chaplin e o Brasil – talento e pobreza vistos de perto

Ao assistirmos os filmes de Chaplin nós podemos nos inspirar com seus personagens, suas histórias e, principalmente, com a competência de sua atuação. A excentricidade do nobre vagabundo Carlitos, suas ousadas acrobacias e gags cômicas, utilizando em poucos segundos de perseguição um vasto conjunto de recursos cômicos extraídos principalmente do teatro de pantomima e das mais diversas situações presentes na vida cotidiana compõem a sua performance. Assim, reconhecemos o diretor, roteirista e ator de cinema que desde 1914 tornou-se referência para comediantes do mundo todo.

Não obstante, a pobreza foi o principal tema abordado em seus filmes – a situação lúgubre, que nas criações de Chaplin nos faz rir.

O garoto abandonado pelos pais (O garoto, 1921), a adolescente que rouba para comer (Tempos modernos, 1936), o soldado desajeitado que sonha em ser herói de guerra (Ombros, armas, 1918), o morador de rua que luta para defender o seu cachorro (Vida de cachorro, 1918) ou mesmo que usa o dinheiro de seu amigo rico para pagar a cirurgia da cega, que finalmente começa a ver – mas quase não reconhece seu bem feitor (Luzes da cidade, 1931) entre tantos outros. A ironia de sua obra pode ser encontrada na possibilidade de fazer rir com situações que são de fazer chorar.

Contudo, qual é a motivação de vida em seus personagens? Amiúde, a felicidade torna-se argumento pouco preciso para legitimar a vida descrita na maioria dos filmes de Chaplin, uma vez que suas histórias não trazem tal em seu argumento. No máximo, aparece a luta pela sobrevivência e a busca de um horizonte de felicidade como estímulo. Porém, uma felicidade distante, sem previsão de tempo para acontecer, uma vez que os recursos de construção da alegria de viver são escassos: amigos não são amigos quando estão sóbrios; sem dinheiro, não há como pagar o lazer, a comida ou a saúde e o trabalho é insalubre ou não existe. Dessa maneira, Carlitos não pertence à sociedade em que vive, não possui os meios para a construção de sentido de existência, de perspectivas, de sonhos.

Nesse sentido, o grande impulso para a vida – na falta de um sentido de existência ao alcance dos olhos – vai além do desafio da sobrevivência: torna-se o riso daquilo que o castiga. Assim, ele incita o risível diante do absurdo vivido no cotidiano.

Esse ínterim em especial, delineado pela falta de sentido para a vida e pelo riso otimista, permite uma aproximação entre o personagem Carlitos e o Brasil, ou nós brasileiros, cujos principais desafios estão na superação das várias formas de discriminação social, na promoção do aceso à comida, na busca do lazer – com o futebol, por exemplo – e na geração de empregos.O que fazer diante disso? Podemos considerar que quando as perspectivas são mais frágeis, muitas vezes, o brasileiro também ri.

Em nosso cinema, Mazzaroppi compôs um homem pobre que com seu jeito truculento se envolvia nas situações mais inusitadas. A linguagem rude e a concepção dolorosa sobre a vida marcam seus personagens, juntamente à comicidade, vislumbrando situações facilmente encontradas no Brasil contemporâneo às suas produções – e talvez Outro nome que não pode deixar de ser lembrado é o de Oscarito, muitas vezes comparado a Chaplin (como o segundo, começou a atuar com cinco anos de idade e tocava violino) e que recebeu convite para trabalhar em Hollywood, mas recusou.

Mazzaroppi compôs um homem pobre que com seu jeito truculento se envolvia nas situações mais inusitadas. Foto: UOL

Mazzaroppi compôs um homem pobre que com seu jeito truculento se envolvia nas situações mais inusitadas.
Foto: UOL

Filho de artistas com tradição circense, Oscarito teve experiência muito jovem com o circo, tornou-se acrobata e mimo. Trabalhou também no teatro e começou no cinema em 1933, tendo seu primeiro papel de destaque em 1939, no filme Banana da terra. De talento notável, Oscarito fez várias dobradinhas com Grande Otelo, trazendo à baila interpretações memoráveis.

Oscarito fez várias dobradinhas com Grande Otelo.

Oscarito fez várias dobradinhas com Grande Otelo.

Podemos assim dizer, tomando o talento compartilhado pelas partes, que tendo em vista uma superação não visível, o mecanismo pode ter sido provocar o riso alicerçado na percepção da própria miséria ou da miséria que nos rodeia. Sobretudo, temos aqui não o sorriso meramente escapista, mas o sorriso que enxuga as lágrimas e propõe a jornada rumo ao horizonte possível, mas escondido.

Mais informações…

Sobre Mazzaropi: http://www.museumazzaropi.org.br/minha-historia/. Acessado em 01/07/2014

Sobre Oscarito: http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/acervo/atores-do-
brasil/biografia-de-oscarito/. Acessado em 01/07/2014.

demonstrava a impossibilidade do homem moderno obter plenitude, segurança, conforto e, sobretudo, dignidade.

Sobre o Autor

everton luis sanchesEverton Luis Sanches é Doutor em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2008). Atualmente é pesquisador da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, professor titular do Centro Universitário Claretiano de Batatais e editor da Revista de Educação. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história, comportamento, cinema, teatro e Charles Chaplin.

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