Charles Chaplin antecipou a pós-modernidade?

Inicialmente essa pergunta pode parecer inadequada, uma vez que estamos tratando de fenômenos de ordens distintas – a produção de Chaplin no cinema e a polêmica conceituação de um período da história recente. Também devemos considerar que a discussão sobre pós-modernidade emerge após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), enquanto a maior parte da produção cinematográfica de Chaplin é anterior a este período, entre as décadas de 1910 (a partir de 1914) e de 1920. Contudo, ao tratarmos da pós-modernidade estamos remontando ao fenômeno sócio-cultural e suas manifestações no campo da produção estética. Deste modo, a conceituação destes fenômenos abre precedentes para compor um paralelo entre os filmes de Chaplin e a noção de pós-moderno no âmbito da cultura. Outrossim, mesmo considerando o distanciamento temporal estabelecido, a análise dos elementos pertinentes à pós-modernidade e de aspectos comuns à obra de Charles Chaplin permitem a elaboração desse paralelo.

Sobre a pós-modernidade é preciso estabelecer a contextualização de seu surgimento e sua referência na crítica da modernidade. Nesse sentido, podemos considerar que desde o Iluminismo, passando pela Revolução Industrial e pela Revolução Francesa e Americana, entre outros eventos históricos, foram construídos alguns alicerces daquilo que passaríamos a chamar de período moderno, ou modernidade. Com esses grandes acontecimentos da história ocidental foram traçadas as delimitações das políticas liberais – e posteriormente o seu antagonista, o socialismo científico –, ocorreu o surgimento da grande indústria, a formação dos grandes centros urbanos, a produção em larga em escala, a indústria cultural e, sobretudo, a crença fundamental de que a ciência levaria a civilização ao seu apogeu. Traçou-se aqui, portanto, de um projeto que pode ser chamado de Modernidade.

Contudo, ao considerarmos as recentes teorias chamadas de pós-modernas, verificamos justamente o apontamento da falência de todo esse projeto civilizatório, ou seja, a ineficiência da ciência e de seus recursos para atender aos anseios materiais e culturais do ser humano em sociedade. Assim, entre as várias discussões possíveis sobre este tema, o pensamento pós-moderno promove a desconstrução das esperanças trazidas pela modernidade, denunciando a falência de tal projeto. A noção de uma construção dos objetivos previamente definidos dentro da relação espaço e tempo, a qual partia do uso das condições obtidas no passado para fazer hoje aquilo que permitirá conseguir os resultados deixa de parecer pertinente. O tempo passa a ser apenas o presente, se desligando das tradições do passado e sem perspectivas diante da incerteza que permeia o futuro. Ocorre a relação direta com o momento presente, desenraizada e desligada do tempo futuro.

Todavia, ao observarmos a maior parte dos filmes mudos de Chaplin entre as décadas de 1910-20, quais são as expectativas de seus personagens? Carlitos vive o tempo presente, um dia de cada vez. Não existe para ele um projeto de modernidade ou civilizatório. Ele apenas sobrevive: uma refeição, um amor, uma guerra, uma viagem, um filho, um natal, um piano a ser entregue. O seu futuro inexiste e seu passado não importa.

Esse é o momento em que voltamos à pergunta: teria Chaplin antecipado a pós-modernidade? Teria ele demonstrando no cinema, antes mesmo da Segunda Grande Guerra ou da Crise de 1929 a frustração dos objetivos da pós-modernidade? A resposta que esboço aqui não pretende ser definitiva, mas um início de conversa. Podemos dizer que as atenções de Chaplin voltaram-se para a denúncia das idiossincrasias que ele vivenciou desde sua infância no século XIX, idiossincrasias estas que facilmente podem gerar estranheza e, por isso mesmo, o riso. Segundo o dicionário Michaelis (disponível em http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=idiossincrasia. Acessado em 02/06/2014) idiossincrasia significa: “1 Med Constituição individual, em virtude da qual cada indivíduo sofre diferentemente os efeitos da mesma causa. 2 Psicol Qualquer detalhe de conduta peculiar a um indivíduo determinado e que não possa ser atribuído a processos psicológicos gerais, bem conhecidos.” Tomo aqui o termo idiossincrasia devido à sua abrangência, referindo-me ao resultado humano inesperado advindo do projeto da modernidade. Resumindo, enquanto a modernidade se deleitava com suas possibilidades, Chaplin demonstrava a impossibilidade do homem moderno obter plenitude, segurança, conforto e, sobretudo, dignidade.

Sobre o Autor

everton luis sanchesEverton Luis Sanches é Doutor em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2008). Atualmente é pesquisador da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, professor titular do Centro Universitário Claretiano de Batatais e editor da Revista de Educação. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história, comportamento, cinema, teatro e Charles Chaplin.

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