“My Life in Pictures”: A autobiografia esquecida de Chaplin

 Por Diogo Facini

            Charles Chaplin, ao fim de sua vida, dedicou-se a atividades além da criação cinematográfica propriamente dita. Compôs trilhas sonoras para muitos de seus filmes (sobretudo os dos anos 20), realizou cortes e edições em filmes anteriores, e trabalhou durante longo tempo na escrita de suas memórias. Desta atividade surgiu sua autobiografia, “My Autobiography” no original, “Minha Vida” na tradução atual para o português, publicada originalmente em 1964. Talvez uma das mais conhecidas autobiografias do século passado, um grande sucesso na época de publicação e fruto de inúmeras reedições, este livro é uma fonte obrigatória de informações sobre o artista e suas opiniões, tanto para o público em geral interessado na pessoa quanto para expectadores mais assíduos e pesquisadores da obra do autor.

            No entanto, mais ainda ao fim de sua vida, Chaplin se dedicou à tarefa de produzir outro livro, de certa forma também uma autobiografia. Um livro que além de ser uma de suas últimas produções, traz uma nova perspectiva, diferente de “Minha Vida”, e deve interessar aos muitos “chaplinianos”.  Mas também um livro pouco conhecido, ainda mais em nossas terras tupiniquins.

            “My Life in Pictures” (“Minha Vida em Imagens” em tradução livre) foi originalmente publicado no ano de 1974, na Grã-Bretanha, sem nunca ter recebido uma versão nacional (a minha edição, também britânica, é de 1985, ao que consta a última lançada). Como o próprio título do livro indica, não se trata de uma autobiografia convencional, “verbal”, como “Minha Vida”, mas sim de um livro em que Chaplin conta momentos de sua trajetória, principalmente cinematográfica, através de imagens.

            O livro inicia com uma seção chamada “The Chaplin Image” (A imagem de Chaplin), que mostra como a figura do vagabundo foi disseminada ao longo dos mais variados meios: cartazes, ilustrações, jogos, quadrinhos… A seguir, após introdução e filmografia, também acompanhadas de muitas imagens, inclusive algumas raridades, é chegada a autobiografia propriamente dita. Ela é dividida (ao menos nesta edição) em cinco seções: anos iniciais; período na companhia cinematográfica Mutual; na First National; United Artists e anos finais. Provavelmente, o maior destaque do livro, além das imagens, é que Charles Chaplin contribuiu com comentários e anotações para a maioria das imagens presentes no livro; desse modo, a atuação do autor/ator não se resume apenas à escolha do material e presença nas fotos, mas à sua escrita do “texto”, pouco tempo antes de sua morte, em 1977.

            Ao longo desse conjunto imagem/comentário somos levados a alguns dos principais momentos da vida de Charles Chaplin, o que é resultado da seleção dos materiais apresentados; essa seleção é fundamental e parte integrante em qualquer biografia, mas fica mais evidente nesta obra. São trazidas imagens que representam desde a infância do autor até a os seus últimos dias; incluem-se, inclusive, imagens relacionadas a um filme chamado “The Freak”, cujo roteiro, sobre uma garota nascida com asas (Chaplin, [1974] 1985), estava sendo escrito por ele e se destinaria a sua filha Victória, mas que, por razões óbvias, não foi concluído. Este livro, pela distância temporal, acaba trazendo fatos importantes que a sua autobiografia “Minha Vida” obviamente não abrangeu: o último filme “Uma Condessa de Hong Kong” (1967), o seu retorno aos Estados Unidos e a entrega do Oscar especial (1971).

            Outra comparação interessante que deve ser feita com “Minha Vida” é em relação ao enfoque dos dois livros. Em “My Life in Pictures” a maioria das imagens apresenta alguma ligação (quando não são retiradas diretamente) com os filmes de Chaplin. Assim, podemos dizer que o livro é quase uma filmografia visual do diretor (para seus filmes da Keystone, inclusive, são dedicadas algumas páginas contendo sequências de quadros com explicações do enredo). Apesar de “Minha Vida” ser um livro importantíssimo dentro da bibliografia sobre Chaplin, em muitos momentos o autor foge dos aspectos cinematográficos (explicação sobre os filmes, produção, recepção, crítica etc.) e dá destaque para outros pontos menos relevantes para os fãs ou interessados. Assim, por exemplo, são dedicadas boas páginas a encontros com celebridades da época ou pessoas da “alta sociedade”. Essa opção é justificável em face de um Gandhi ou Einstein, mas na maioria dos casos são mostradas as “relações” de Chaplin com pessoas que a história mostrou irrelevantes, em uma narrativa claramente conciliatória e que buscava evitar (em muitos casos omitir) conflitos. Em “My Life in Pictures” há pouco espaço destinado a polêmicas, porém parece haver no livro uma compreensão mais aguçada de que é pelos seus filmes que Chaplin será lembrado: eles devem ser o destaque.

            Tudo leva, portanto, à recomendação do livro “My Life In Pictures”. No entanto, não podemos nos esquecer de um ponto importante: o acesso a este livro não é dos mais fáceis, o que confere a ele até certa raridade. Como mencionado, não existem versões brasileiras do livro (nem portuguesas); ao que consta, ele não apresenta edições novas, o que torna impossível sua compra em livrarias (mesmo por encomenda). A compra do livro usado, em sebo ou diretamente com os donos, é uma alternativa; porém, não é algo tão fácil de realizar, já que aqui também há raridade (e é bem provável que quem tenha o livro não queira o vender). Outra alternativa, também de certa forma arriscada, seriam os famosos sites estrangeiros que possibilitam importação.

            De qualquer modo, isso não muda o fato de este ser um livro fundamental (mesmo que talvez não essencial) dentro da obra de Chaplin. Suas características históricas (é uma das últimas obras do autor); suas particularidades visuais; seu enfoque cinematográfico; a presença do olhar de autor que se manifesta inclusive em comentários; tudo transforma este um livro único. Mesmo que não seja possível um contato direto, todo aquele que se interessa pela obra do britânico deve ao menos saber da existência deste livro. Este que constitui uma mostra da última faceta de um homem tão multifacetado: o organizador/escritor/comentarista Charles Chaplin.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAPLIN, Charles. My Life in Pictures. Londres: Peerage Books, [1974] 1985.

Capa da edição de 1985.

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre em Linguística Aplicada também pela Unicamp. Doutorando em Linguística Aplicada também pela UNICAMP.

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