Tempos Modernos: tinha uma fala no meio do caminho…

(Diogo Facini)

O filme Tempos Modernos, de 1936, deve ser o mais conhecido de Charles Chaplin. O Carlitos operário, que tem um colapso nervoso após a dura rotina em uma indústria e, sobretudo, é “engolido” pela máquina, é uma imagem tão emblemática e poderosa que ultrapassou em muito os limites deste filme para representar um pouco do “mito Carlitos-Chaplin”.

Carlitos e a Máquina.

Muito dessa impressão da fama de Tempos Modernos também deve vir do fato de este filme ser uma grande porta de entrada da obra de Chaplin. Parece que mesmo quem não conhece ou conhece pouco o autor, ao ouvir as palavras Tempos Modernos, se recordará de algo, talvez até inconscientemente, como em um “Ah sim! Agora sei quem é esse Chaplin! Por que não me disse antes!?”.

Cartaz do filme.

Tempos Modernos se transformou em um “tesouro cultural”, e é quase ensinado nas escolas, como um item de alguma “disciplina chapliniana”. Quando o assunto é capitalismo, produção em massa, fordismo (as grandes indústrias com alta divisão de trabalho) e a crise que se deu com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, esta produção aparece como uma referência, quase uma passagem obrigatória, um documento de um tempo, que deve ser visto para se entendê-lo.

Carlitos e a Máquina 2.

No entanto, essa abordagem mais histórica do filme, relacionada à crítica que ele faz a alguns elementos de seu tempo, não elimina outras formas de observarmos esta obra tão singular.

E talvez a maior singularidade do filme esteja não exatamente nas suas críticas à economia, à estrutura social, mas na sua posição com relação a um momento muito importante na história do cinema: a passagem do cinema mudo para o cinema falado. Tempos Modernos acompanha os conflitos não apenas entre novas organizações de produção (agora não tão novas) e formas antigas, entre a exploração e a liberdade. O conflito é também entre Chaplin (e Carlitos) e o cinema falado.

O primeiro filme falado é O Cantor de Jazz, de 1927. Desse filme para o de Chaplin há uma diferença de nove anos, em que muita coisa aconteceu. O mais importante é que o cinema falado virou uma realidade, indiscutível, incontestável. Ou quase.

Chaplin, nesses nove anos, traçaria uma trajetória tão única nesse campo do som que podemos dizer que esse é um dos fatores que contribuiu fortemente para seu mito na história da arte. Em 1928 viria O Circo, filme ainda completamente mudo, um dos seus mais engraçados, que segue um humor mais próximo do estilo de seus primeiros filmes (e que foi talvez injustamente “ignorado” em sua autobiografia, de 1964). Em 1931 viria Luzes da Cidade, em que há a introdução de efeitos sonoros (como em uma célebre cena em que sons de buzina são colocados no lugar das vozes em um discurso), e que é talvez o filme narrativamente mais bem realizado entre os seus mudos.

“Luzes da Cidade” (1931).

Tempos Modernos acompanharia esse desenvolvimento. No entanto, esse desenvolvimento seria levado ao limite das possibilidades do cinema mudo. Após este filme, algo teria que mudar.

Aqui, há efeitos sonoros diversos permeando todo o filme, como nas máquinas e em barulhos do estômago, em uma gag só possível com os novos efeitos. Além disso, há uma trilha sonora fantástica, talvez em sua totalidade a melhor de todos os filmes de Chaplin. E há até mesmo algumas falas, principalmente do patrão (que não alteram a essência muda do filme). E há um Carlitos falante ao fim do filme.

A voz da autoridade.

Para se entender um pouco dessa “hibridez sonora” nos filmes do autor, é necessário nos lembrarmos da assumida resistência de Chaplin ao cinema falado (que pode ser observada tanto em sua autobiografia quando na de David Robinson, por exemplo). Chaplin era um gênio da mímica; Carlitos nunca precisou dizer nada, se comunicava através de gestos, olhares, feitos e repetidos exaustivamente pelo seu criador. Por isso, a mudança em seus filmes do mudo para o falado foi lenta, gradual, e produziu essas criações híbridas. Algo muito interessante nesse ponto quando observamos nos dias de hoje o filme Tempos Modernos é que essa sua não imposição às exigências dos tempos, às modas, deu ao filme (e a Luzes da Cidade) uma vitalidade que não se encontra na maioria dos filmes da época. Recusando-se a limitar-se ao seu tempo, Chaplin criou seu próprio tempo.

Carlitos: a ovelha negra?

No seu filme seguinte, o também conhecidíssimo O Grande Ditador, Chaplin aderiria completamente ao cinema falado, com seus diálogos e efeitos sonoros completos (que não apagariam as forças de Chaplin como mímico, através principalmente de seu Adenoid Hynkel). No entanto, foi em Tempos Modernos que o seu personagem, Carlitos, Charlot, Vagabundo, falou. Primeira e única ocasião (já que o personagem seria aposentado a seguir), esta fala não foi exatamente uma fala, mas sim um canto, que não trouxe exatamente palavras, mas sons de palavras que se pareciam com várias línguas e com nenhuma. Esta cena do canto foi discutida por mim em minha monografia da graduação, o que mostra o potencial da obra de Chaplin (no caso, de Tempos Modernos) para novas questões e reflexões.

É interessante observarmos, com isso, que a crítica de Chaplin ia além dos elementos econômicos e políticos, e que os “tempos modernos” retratados no filme não se referiam apenas a esses aspectos sociais/estruturais. A crítica de Chaplin atravessava o próprio cinema, suas transformações e limites. Este filme, feito em um momento de profundas transformações sociais, políticas e culturais, pela sua própria constituição mista, aponta para os dilemas de um criador Chaplin já não tão seguro com relação ao seu cinema, mas que ao mesmo tempo enfrentava bravamente a aura “milagrosa” do som.

Talvez o mais importante, neste texto curto, que não pretende afirmar muita coisa, é observarmos o quanto a arte Chaplin sobreviveu. Fez a seguir filmes sonoros bem sucedidos; os filmes mudos continuaram referências obrigatórias (apesar de menosprezados no meio acadêmico) e sobreviveram na memória coletiva. E Tempos Modernos, produzido no olho do furacão, continua quase como símbolo da obra do autor. Quem sabe esses muitos conflitos deram ao filme uma tensão que o encheu de vida, uma vida que não se esvairá tão facilmente. Quem sabe seja tudo mera coincidência. Quem sabe a sua mensagem (se há) nesse filme estivesse mais forte do que nunca: Sorrir levanta o que há de homem no homem. O sorriso de Tempos Modernos sobrevive em nossos tempos pós-modernos.

Onde estará Carlitos?

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre em Linguística Aplicada também pela Unicamp. Doutorando em Linguística Aplicada também pela UNICAMP.

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