Os dois Carlos

Os dois Carlos não são exatamente dois Carlos. Um é Charles, o outro é Carlos. Um é Spencer Chaplin, o outro é Drummond de Andrade. Mas chamá-los por “dois Carlos” é fato bem explicável em dois homens separados por um oceano ou por um continente, mas que conversaram através de suas artes dolorosas, humildes, e de seu profundo sentimento do mundo.

Os dois Carlos são tímidos. Atravessa-os um sentimento de solidão, de desamparo. Tem tendência ao isolamento. Como um mundo imenso, mundo ainda manco, poderia acolhê-los? São tantas pessoas, tantas ruas e discursos, tantas promessas e brigas… Como se expressar?

Mas os dois Carlos são fortes. Atrás do silêncio, atrás das máscaras (e do bigode?) há algo que os carrega, os leva em direção aos olhares surpresos dos homens também surpresos. Em sua dificuldade do contato, ambos levantam um canto de angústias e de esperanças.

O Drummond se utilizou das palavras contadas ou poetizadas, firmes e francas como uma flor que nasce no asfalto. Em seu silêncio, em sua solidão, encontrou os homens. Em sua busca, em sua dispersão, rompeu os mistérios. Andou por caminhos, criou em seus ninhos uma própria voz. O homem duro, de ferro, que o dobrou em seus versos.

O Chaplin, de todo o abandono, de toda a sua dor e mágoa, encontraria a sua expressão em uma arte ainda nova, cheia de possibilidades: o cinema. O seu silêncio permaneceria por muitos anos, mas não era preciso falar nada. Todos o compreendiam, olhavam em seus passos os seus mesmos passos trôpegos, sonhavam com seus chutes tão fundamentais no traseiro das autoridades. Os pobres o respeitavam, os poderosos o temiam, os artistas o admiravam.

Os nossos dois Carlos, presos em seus tempos modernos, novos e assustadores, se colocam nesse mundo em uma posição problemática. Na poesia, uma eterna procura, um desespero ante as buzinas e faróis, um encontro com o outro, um andar de mãos dadas em seu choro contido. No cinema, um Carlitos sempre andando, sempre correndo, sempre se apaixonando, e perdendo seus amores, e ganhando nossas lágrimas, mas nunca pertencendo a lugar algum. Um Carlitos de nenhum lugar, e do mundo. Um Chaplin de nenhum lugar, e do mundo.

Contradições das vidas: como pode a solidão encontrar a todos? Como pode o não estar em lugar algum chegar a todos os olhos e ouvidos e esperanças?

Encontraram os homens. Os homens os encontraram. Drummond encontrou Chaplin. E poetizou sobre Chaplin. Nas distâncias das águas e das terras, as sensibilidades se encontram. No desânimo dos tiros e das bombas, a arte se levanta como um suspiro de insana sanidade.

A arte dos Carlos, mesmo com todas as diferenças, é fundamental. Ambos olharam o seu tempo, retiraram dele sua matéria e fizeram a sua voz. Ambos olharam os seus homens, olharam suas crianças e lamentaram as feridas. Pensaram em outros tempos, de rosas e de sorrisos, de danças e de abraços. Cantaram seus novos tempos, discursaram sobre eles. Mesmo quando não o indicavam, as artes sopravam nos sonhos sua criação atemporal.

Ambos também compartilham a dura sina dos grandes artistas. O mito é imenso, as pessoas já não sabem quem é Carlos. Suas imagens ultrapassam as obras. Todos as conhecem, sem de fato conhecer. Por isso, poucos leem Drummond como deveria ser lido. Poucos veem Chaplin como deveria ser visto. E os conhecem pouco, somente as obras mais conhecidas, as chamadas obras primas (mas porque menosprezar as obras irmãs, obras mães e as obras tias?). No entanto, talvez já algumas pessoas saibam… Quem atravessa a rua dos Carlos, é atravessado por ela: nunca sai indiferente.

Conheci os dois Carlos faz uns bons anos, e praticamente ao mesmo tempo. Suas piadas e gritos e gags e sonhos e sorrisos e discursos desde então estão sempre comigo. Se as minhas palavras estão aqui, devo muito aos Carlos. Se meu silêncio pode ser levado aos outros homens com novas esperanças, transfigurado em afeto, devo muito aos Carlos.

E se a poesia ainda me resta, me alimenta e me esquenta nos dias frios das cidades cruas de concreto, devo muito aos Carlos.

O poeta Drummond e o poeta Chaplin.

Afinal: quem disse que Chaplin não é poeta?

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestrando em Linguística Aplicada também pela Unicamp; na dissertação, discuto alguns aspectos da obra de Charles Chaplin.

3 comentários

  1. Diogo,
    Foram os dois ser guaches na vida.
    E acho que ambos poderiam também dizer: eta vida besta, meu deus!
    Gostei da especulação…
    abss

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