“Monsieur Verdoux”: A Grande Injustiça Contra Charles Chaplin?

Por Diogo Facini

Estamos na metade dos anos 40. Charles Spencer Chaplin já não é mais unanimidade no país que ele ajudou a enriquecer, e em uma Hollywood que ajudou a construir.

            No período conhecido como Macarthismo, em que intelectuais, artistas e políticos progressistas eram investigados e perseguidos, cresciam as acusações de que era comunista. Principalmente após o filme “O Grande Ditador” (1940) e as defesas públicas em discursos a favor da participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra, contendo o avanço dos nazistas na então União Soviética. Na chamada “terra da liberdade”, os Estados Unidos deixaram claro que nem toda liberdade era permitida. Além disso, Chaplin passaria alguns anos dessa década enfrentando um processo doloroso de paternidade movido por Joan Barry, que levantou toda a opinião pública contra ele. Apesar de cientificamente comprovar-se que ele não era o pai, a justiça o obrigou a assumir a criança, e, mais do que isso, o escândalo contribuiu ainda mais para sua imagem de imoral entre os americanos. Estes dois processos acabariam culminando na “proibição de retorno”, eufemismo para a sua expulsão dos Estados Unidos, durante uma viagem para a Inglaterra em 1952.

            Ao longo deste processo, no entanto, ele encontraria uma nova esperança em sua nova (em todos os sentidos) esposa, Oona O’Neill. Ela acompanharia o ator/diretor por mais 30 anos, até a morte de Chaplin em 1977, e juntos teriam oito filhos.

            Nesse contexto bastante problemático, em que o criador do Vagabundo era colocado na parede, e mais que isso, desmoralizado por muitas das pessoas que haviam sorrido durante 25 anos do seu personagem, surgiria “Monsieur Verdoux”. Lançado em 1947, com roteiro baseado em ideia do cineasta Orson Welles, o filme traz o personagem Henri Verdoux, bancário desempregado após a famosa crise de 1929, que passa a seduzir e assassinar mulheres de meia idade, buscando o seu dinheiro.

Monsieur Verdoux (1947)

Um dos cartazes do filme.

            Com um personagem destes, aparentemente tão diferente do Vagabundo a que as pessoas estavam tão acostumadas, o filme logo de cara apresenta seu caráter  “diferenciado”. Tendendo para o humor negro (ao contrário de seus últimos filmes, de um humor mais sério ou com doses fortes de sentimento), o filme recebeu reações extremamente adversas, principalmente nos Estados Unidos: grupos exibidores organizavam boicotes; jornalistas o criticavam duramente; pessoas se afastavam do “imoral” Chaplin. “Monsieur Verdoux” acabou sendo um dos seus maiores fracassos comerciais, e foi relegado a uma posição secundária, como uma espécie de “sombra” dentro da obra do autor. Ao longo dos seus 65 anos de existência, ele foi elogiado por alguns (como o crítico francês André Bazin), ganhou um status de filme Cult, mas não perdeu essa sua condição de “filme B”, como uma produção à parte, desconsiderada muitas vezes da obra de Chaplin. E se o ator/diretor passou por muitas injustiças ao longo de sua trajetória, recuperando-se delas (parcialmente), sobretudo ao fim da vida, a injustiça contra “Monsieur Verdoux” continua, atravessa os tempos, chega aos dias atuais. Por tudo isso, não é arriscado pensar: seria este filme a grande injustiça contra Charles Chaplin?

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A “frieza” de Verdoux.

            Isso porque “Monsieur Verdoux” em todas suas inovações temáticas e mesmo técnicas; em todas as atuações, sobretudo de um surpreendente Chaplin; em todas os questionamentos e problemáticas que provoca, é um grande filme, talvez na mesma medida da injustiça cometida contra ele.

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Mais uma conquista?

            É de se compreender um pouco o choque que o filme tenha causado na época pela sua temática “ousada”: um sedutor e matador de senhoras, com todas as sugestões implícitas, é um tema à frente do seu tempo. No entanto, isso valoriza ainda mais o trabalho e a coragem de Chaplin, o mesmo autor que ousou ridicularizar Hitler ao mundo. Hoje em dia, também, pouco as pessoas poderiam reclamar contra uma suposta “imoralidade” do filme: em uma sociedade cada vez mais violenta e em uma cultura que valoriza essa violência, Verdoux seria quase que uma criancinha indefesa. 

            O filme em si apresenta muitos méritos. Singular é a cena que representa, quase em conjunto, a “incineração” de uma das vítimas de Verdoux e a salvação pelo mesmo Verdoux de uma lagarta desprotegida. A interpretação de Chaplin ajuda muito. Ele convence (e nos convence) em seu papel de “conquistador cruel”, ao mesmo tempo distanciando-se e aproximando-se do Vagabundo (como quando aparece o seu inconfundível sorriso). Em termos de qualidade, não está atrás de nenhum dos seus filmes.

Annex - Chaplin, Charlie (Monsieur Verdoux)_05

Momentos de crise.

            Mas o que talvez mais tenha incomodado, e ainda incomode muita gente, é um caráter contraditório que permeia todo o filme, manifestando-se principalmente nas cenas finais, em que Verdoux discursa e conversa com um advogado e um padre. “Monsieur Verdoux” incomoda de fato, choca, provoca, porque observamos ao longo do filme, ao menos aparentemente, certa inexistência de uma verdade única, de um padrão moral, de um ponto de apoio claro: no filme tudo está diluído, disperso, confuso. O que é o bem? O que é o mal? O que é justo ou injusto? Chaplin, sobretudo através das ações e falas de Verdoux, em uma jogada de mestre (ou seria de gênio?) mostra que todo esse caráter confuso pode ser transferido para a própria sociedade. Não estaria a sociedade confusa, ignorando a guerra, as injustiças, perdendo o senso de humanidade? E justamente por sua existência diluída, não tão clara como em “O Grande Ditador” (1940), por exemplo, a provocação de Chaplin é mais profunda. Para quem assistia, não havia como ignorá-la. Talvez por isso, preferiram muitos não assisti-la. A realidade às vezes é cruel demais.

Momentos de redenção?

            No entanto, os anos foram se passando. Chaplin, de certa forma, se redimiu com a opinião pública (não sem sofrer as marcas das injustiças praticadas contra ele). Mas “Monsieux Verdoux” continua um filme pouco visto, pouco comentado, como um membro incômodo da “família Chaplin”, que deve ser escondido das visitas. No entanto, artisticamente, tematicamente, em suas críticas, o filme sobreviveu muito bem ao tempo. Está entre os seus grandes. E igualmente está entre as grandes injustiças praticadas pela sociedade contra Chaplin. Ele conseguiu aproveitar suas energias em um momento turbulento, tempestuoso, crítico de sua vida pessoal e como criador, e fazer uma obra prima, no nível de suas grandes obras primas. Será que a provocação de Chaplin neste filme ainda é forte demais? Será que as pessoas não estão prontas para serem confrontadas dessa maneira? Só nos resta neste espaço questionar, provocar, do mesmo modo (e nunca nos esqueçamos disso) que Chaplin fez em praticamente toda a sua carreira. E só nos resta pensar em uma luz no horizonte, um por do sol mais justo, para este filme genial. O mesmo por do sol a que percorria o Vagabundo (Verdoux?) em várias de suas existências.

Verdoux. Ou seria Carlitos?

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Sobre Diogo Facini

Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre em Linguística Aplicada também pela Unicamp. Doutorando em Linguística Aplicada também pela UNICAMP.

8 comentários

  1. Sabe o que acontece? Público normalmente tem viseira e só enxerga um lado do artista. Faz uma modificação digital no rosto de Chaplin, refaz os créditos tirando o nome dele e apresenta para um público que nunca o assistiu. A grande maioria irá adorar. É uma obra espetacular. O “pecado” é ser de Chaplin. O mesmo ocorre com “Woman of Paris”. É um drama da melhor qualidade, mas bastou por nos créditos que é uma obra escrita, dirigida e produzida por Chaplin, além de uma nota de esclarecimento sobre o fato d’ele não aparecer, para que a crítica e o público digam: “Não gostei! Não presta! É ruim!” O público é estigmatizado. Onde vê o nome “Chapin”, quer sentar pra ver e não basta que ele tenha utilizado as mãos e o cérebro naquela obra. O querem de corpo presente e mais: fazendo palhaçadas. Ele foi o ator e roteirista que não podia falar sério ou assinar uma obra que não estivesse presente que o público repudiava! Lamentável!

    Adendo: O mesmo ocorreu com “Countess from Hong Kong”.

    1. Sim, há vários motivos para esse desconhecimento geral de alguns filmes, e o que você apontou é bastante importante para isso mesmo. Aqui eu abordei um lado da questão, da injustiça muitas vezes consciente e crescente que ocorreu (ao meu ver) contra o Charles Chaplin, através de perseguições e boicotes (como o fato de muitas empresas exibidoras nos Estados Unidos negarem a exibição do filme, e a clássica a coletiva de imprensa deste filme em que os jornalistas “caíram matando” em Chaplin). De qualquer modo, é muito interessante essa questão do “Mito Chaplin” nesse caso, que não é o homem Charles Chaplin, e não é o personagem Carlitos, mas acaba atravessando a ambos e controlando a leitura de muitas pessoas até hoje. Como em um poema de Fernando Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”.

  2. Diogo:
    Parabéns pelo artigo, que demonstra muito conhecimento da arte de Chaplin. Continue evoluindo que todos nós estamos ganhando.

  3. É isso, Diogo! A arte finge tão completamente (fingere é também modelar a matéria) que torna a vida real. A ovelha negra da cena inicial de Tempos Modernos reclamou seu lugar no rebanho, pra valer… e rebanho não gosta!
    Você pegou bem o esprit chapliniano. .

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