A faceta musical de Charles Chaplin

cello

 Por Hallyson Alves

A infância e o “music-hall”: influência musical

Em sua autobiografia, intitulada “Minha Vida”, de 1964, Charles Chaplin recordou sobre sua infância ao lado da mãe, Hannah Harriet Hill, conhecida como Lily Harley, uma famosa cantora de music-hall (espécie de casa de espetáculos, muito comum na Inglaterra), que o levava sempre ao teatro, para os ensaios e apresentações. O pequeno Charlie ouvia atentamente, chegando a decorar muitas das músicas dos shows.

Minha mãe geralmente me levava para o teatro à noite, preferia a deixar-me sozinho em quartos alugados. (CHAPLIN, 1964)

Assim como sua mãe tendia para o lado artístico, também o seu pai, o Sr. Charles Chaplin, se apresentava no Canterbury Music Hall, o que demonstra o ambiente artístico que rodeava a vida de Charlie. Sendo assim, foi a senhora Hill, sua mãe, a maior influência artística de Charles Chaplin.

Em outra passagem de sua autobiografia, Chaplin conta como a sua mãe o divertia, fazendo pequenos shows particulares em casa, cantando, dançando, recitando e imitando outros artistas. Quando pequeno, esteve doente e sem poder sair de casa, então Hannah se posicionava próxima à janela que dava para a rua e passava a imitar as pessoas que passavam em frente ao pequeno sobrado, no subúrbio londrino.
Um dia, quando tinha cinco anos de idade e acompanhava sua mãe em mais uma apresentação, Chaplin fez sua estreia, diante de um improviso: Hannah havia perdido a voz, devido à muitos problemas que estava passando, provocando a indignação da plateia, composta em sua maioria por soldados. Na ânsia de ajudar a mãe, Charlie começou a cantar uma das canções que havia decorado. Foi um sucesso. Teve de fazer uma pausa entre uma canção e outra, para apanhar as muitas moedas que o público jogava ao palco, provocando imensas gargalhadas no teatro.

Na mesma publicação, ele conta como a música “entrou” na sua vida. Na ocasião, ele havia passado por um trauma, onde sua mãe tivera sido levada para um asilo, pois não estava bem psicologicamente, foi quando, ao voltar para casa, ouviu uma canção que lhe encheu o coração de inspiração, vinda de uma casa noturna.

Eu nunca tinha sido consciente de melodia antes, mas esta foi bonita e lírica, de modo alegre, tão quente e reconfortante. Eu esqueci meu desespero e atravessei a rua para onde os músicos se encontravam. Foi aqui que eu descobri a música, ou onde eu aprendi a sua rara beleza, uma beleza que se alegrou e me assombrou desde esse momento… (CHAPLIN, 1964)

Em 1898, aos 9 anos, Charlie começou a sua carreira com uma trupe de dançarinos juvenis, chamado de “The Eight Lancashire Lads”, onde eram promovidas apresentações de canto e dança, tendo ele exercitado ainda mais o seu tino musical.

O papel da música nos esquetes cômicos de Karno

Passados alguns anos, Chaplin ingressa na Companhia de Comédia de Fred Karno, onde teve a oportunidade de conhecer diversos lugares, chegando até a América. A sua intimidade com a música contribuiu decisivamente para a sua desenvoltura com a pantomima, que desde o início foi marcada por um caráter rítmico forte. Desde os dezesseis anos, Charlie praticava em seu violino, de quatro a seis horas por dia, sempre sozinho em seu quarto. Stan Laurel, um companheiro de performance na Cia Karno, lembrou em uma entrevista com John McCabe , que durante a turnê de 1912, Charlie levava o seu violino sempre que podia. Como ele era canhoto, as cordas do instrumento eram invertidas, fazendo com que ele praticasse durante horas. Também tinha um violoncelo, segundo Laurel, que também o carregava sempre, além de vestir-se como um músico, com um longo casaco cor de castanho.

Eu tinha grandes ambições de ser um artista de concerto, ou, na sua falta, para usá-lo em um ato de vaudeville, mas como o passar do tempo eu percebi que eu nunca poderia alcançar a excelência, então eu desisti. (CHAPLIN, 1964)

Em 1913, ao deixar a Cia Karno, Chaplin partiu para a América, trabalhando definitivamente na área cinematográfica. Chegando à Nova York, assistiu a uma apresentação no Metropolitan Opera House: “Não entendia uma palavra, mas sabia da história… sai emocionamente abalado”.

“Melodias simples e pequenas me deu a imagem para comédias.”

A fama de Chaplin foi tão expressiva, que sua imagem foi inspiração para diversos musicais, onde garotas bonitas usavam bigodes, chapéus, sapatos grandes e calças largas, dançavam e cantavam uma canção, chamada “Those Charlie Chaplin Feet”.
Em 1916, Chaplin assina um contrato com a Mutual Film Company, para a produção de 12 curtas, entre eles, “O Imigrante” (1917). A essa altura, ele já havia alcançado o estrelato mundial. Ficou encantado por ter a oportunidade de conhecer músicos renomados, como Paderwski e Leopold Godovsky. No mesmo ano, ele mesmo montou sua própria companhia de publicação de música em associação com Bert Clark, um comediante de vaudeville Inglês. A empresa não durou muito tempo, até porque Chaplin estava mais ocupado em concretizar outro grande sonho: construir o seu próprio estúdio para realização dos seus próprios filmes.

ccpub

Papel timbrado da companhia de música, criada por Chaplin

Chaplin compõe suas próprias músicas

Ele frequentemente escreveu músicas-tema, que foram publicadas para coincidir com o lançamento dos filmes . Notavelmente, quando “Em Busca do Ouro” (The Gold Rush) foi lançado, ele gravou suas músicas-tema com a Orquestra Lyman Abe.
No período do cinema sem som, era habitual que profissionais arranjadores fizessem acompanhamentos musicais, que eram tocados ao vivo, na medida que o filme era rodado na grande tela. Cada cinema tinha suas próprias combinações musicais. Quando o cinema falado surgiu, Chaplin foi relutante a aderi-lo, pois este acreditava que o som não combinava com a pantomima e que esta não necessitava de acompanhamento sonoro, dado que era uma arte que já expressava claramente o que gostaria de passar ao público.

“Uma coisa feliz em relação ao som era que eu pudesse controlar a música, então eu compus a minha. Tentei compor uma música elegante e romântica para enquadrar minhas comédias, em contraste com o personagem vagabundo”. (CHAPLIN, 1964)

CC_conducting_the_Abe_Lyman_orchestra_1925_X_205_bigger

Conduzindo a Abe Lyman Orchestra
Fonte: Charlie Chaplin Official Website

As músicas compostas por Chaplin, deu às suas comédias, segundo ele, “uma dimensão emocional”. Os arranjadores musicais não entendiam essa contradição, pois eles entendiam que a música deveria ser engraçada, tal quais as imagens em movimento. Entretanto, Chaplin fazia questão que as músicas expressassem um sentimento.
Em 1940, falando sobre a música de O Grande Ditador, Chaplin disse em uma entrevista:

“A música do filme nunca deve soar como se fosse música de concerto. Ainda que, na verdade, pode transmitir mais para o espectador-ouvinte do que a câmara transmite num dado momento, ainda não deve ser mais do que a voz desta câmara”. (CHAPLIN, 1964)

Seu arranjador musical na época, Meredith Willson, disse dele:

“Eu nunca conheci um homem que se dedicou de forma tão completa que o ideal de perfeição como Charlie Chaplin. (…) Eu estava constantemente espantado com a sua atenção aos detalhes, o seu sentimento para a frase musical exata ou ritmo para expressar o estado de espírito que ele queria.”

Gravando a trilha de O Grande Ditador. Fonte: Charlie Chaplin Official Website

Gravando a trilha de O Grande Ditador.
Fonte: Charlie Chaplin Official Website

Durante sua carreira americana, contava entre seus amigos e conhecidos muitos compositores e músicos bem conhecidos, entre eles, Rachmaninov, Horowitz, Stravinsky, Hanns Eisler  e Schoenberg.
Apesar de inexperiente em notação musical tradicional ocidental, Chaplin foi, no entanto, um músico dotado de um senso inato de construção musical. Embora ele tivesse envolvido diferentes arranjadores e orquestradores para anotar seu material temático, seu dom para a melodia e harmonia, e sua capacidade para acompanhar a ação perfeitamente, continuam a ser uma voz germinal identificável ao longo de seus filmes. Tal como o seu famoso personagem, suas pontuações empregam um equilíbrio perfeito de comédia, emoção e habilidade.
Chaplin tinha aprendido com os anos de experiência que seu estilo de conteúdo emocional na comédia foi crucial e que seu controle sobre o humor e emoção foram essenciais para a valorização de seu caráter público de história. Por isso, era essencial para ele escolher com cuidado e depois compor a música para suas criações. Foi um dos primeiros cineastas a compor música para os seus próprios filmes. Sua primeira inserção musical deu-se 1921, com o lançamento de “O Garoto” (The Kid) , bem antes do advento do cinema falado.
Em 1942, ele revisou a versão original de Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925), substituindo os cartões de inter-título do filme mudo com sua própria narração e adicionando uma partitura musical. Mais tarde, ele teve o prazer evidente na criação de atos para Luzes da Ribalta (Limelight) e de Um Rei em Nova York.

cccond3

Editando a trilha de “O Garoto” (The Kid).
Fonte: Phil Posner Website

Alguns anos depois, já vivendo no exílio, na Suíça , compôs e gravou as músicas para todos os seus filmes feitos entre 1918 e 1923. Os arquivos da família Chaplin possuem muitas fitas de áudio de Chaplin a trabalhar sozinho no piano, improvisando e cantarolando como ele compôs. Ele disse uma vez que, mesmo se ele não se lembrasse de como uma melodia foi, ele conseguia se lembrar do padrão que fez sobre as notas em preto e branco do teclado.

cccond2_2

Durante a composição de “Um Rei em Nova York” (The King in New York).
Fonte: Phil Posner Website

Na casa de sua família, em Vevey, Chaplin continuou até o fim de sua vida para desenvolver seu amor e conhecimento da música e entreter os músicos, entre eles Arthur Rubinstein, Isaac Stern, Rudolf Serkin, e Clara Haskil. Sua filha, Josephine, tem lembranças nostálgicas de como, regularmente, depois do jantar, ele insistiria em que as luzes fossem apagadas, e que a família ouvia, à luz de velas, músicas clássicas. A música tinha, de fato, “entrado em sua alma”.
Chaplin recebeu influência musical das mais variadas formas, mas é como ele usa esses estilos e incorpora-os em sua própria música, que funciona tão perfeitamente com os personagens e situações que ele criou, que o diferencia da maioria dos seus contemporâneos.

Referências:

CHAPLIN, Charles. Minha Vida. 15ª edição. Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 2011

Charlie Chaplin – Official Website

PhilPosner.com

The Guardian

Anúncios

Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

1 comentário

Gostaríamos de saber a sua opinião sobre esse post. Utilize o formulário de comentários abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s