“O Circo”: Turbulências e triunfo de um clássico

Cartaz de “O Circo”, de 1928.

O filme

Em “O Circo”, de 1928, a saga do vagabundo, o simpático homenzinho que perambula pelas ruas e acaba deparando-se com a situação de que está no lugar errado, na hora errada, prossegue em mais um dos clássicos da carreira de Charles Chaplin.

Produção

“O Circo” foi concebido numa das piores fases pessoais de Charles Chaplin. Na época, o artista estava enfrentando um processo de separação com a também atriz Lita Grey. Não se falava em outra coisa em Hollywood, nos anos 20. Sob a ameaça dos advogados da ex-mulher, que prometiam destruir a carreira de Chaplin, fez o artista chegar a esconder os negativos do filme, temendo que os mesmos fossem confiscados.

A morte da mãe

Não bastasse o momento delicado, Chaplin recebeu a notícia da morte da sua mãe, Hannah. Ela foi levada ao Glendale Hospital, em Los Angeles às pressas. Essa é uma das partes mais tristes descritas por Chaplin, em sua autobiografia:

Quando cheguei, encontrei-a num estado semicomatoso, por efeito do medicamento que lhe deram para aliviar a dor.

– Mamãe, é Charlie! murmurei e tomei-lhe carinhosamente a mão. Em resposta, comprimiu debilmente a minha, depois abriu os olhos. Quis sentar-se, mas não teve forças. E, inquieta, queixava-se de dores. Tentei sossegá-la, dizendo que logo ficaria boa.

Entretanto, no dia seguinte, ele recebeu a notícia que ela havia falecido.

(…) Entrei no quarto e sentei-me numa cadeira entre a janela e o leito. As persianas estavam semicerradas. Lá fora, o sol intenso; no quarto, a intensa mudez. Sentei-me e pus-me a fitar a pequena figura na cama, o rosto inclinado para trás, os olhos cerrados.

(…) Quão estranho que a sua vida viesse acabar aqui, nos arredores de Hollywood, com todos os seus absurdos valores – a quase doze mil quilômetros de Lambeth, lá onde se despedaçara o seu coração. E desabou sobre mim todo um mundo de lembrança, a luta incessante que enfretara, as provações que sofrera, a sua intrepidez e a sua trágica existência desperdiçada… E chorei.

Diante de tantos problemas, que acarretaram num cansaço físico e psicológico,  Chaplin teve uma crise nervosa no intervalo das gravações. Mas os problemas não iriam parar por aí.

O incêndio

Além disso, para completar o seu inferno astral, um incêndio devastou o estúdio e alguns equipamentos no set de filmagens. Concluir “O Circo” foi então uma questão de honra para Charlie.

O semblante triste, ainda no local do incêndio

O registro documenta o cancelamento das gravações

O Circo

A trama é ambientada no cenário perfeito para as estripulias do vagabundo. Chaplin montou toda a complexa estrutura do circo e nele pintou e bordou, elaborando cenas hilárias e, como de praxe, comoventes. Do jeito que somente ele conseguiu fazer.

No filme, Carlitos é perseguido por um policial e vai se refugiar num circo. Conseguindo tal façanha, acaba se envolvendo na vida circense até que é contratado para trabalhar lá. Há cenas maravilhosamente bem construídas, como a sequência da sala dos espelhos e/ou outras passagens, como a fuga de um burro descontrolado, que tenta mordê-lo e o persegue por todo o circo. A cena reservada para o final dá um toque belíssimo de emoção ao longa, elevando “O Circo” à categoria dos melhores filmes já realizados na história do cinema.

A cena impagável da corda-bamba.

 

Coleção Folha Charles Chaplin

No próximo domingo, 28/10, a Folha disponibilizará nas bancas o volume 7 da coleção Folha Charles Chaplin. O livro virá com o DVD do filme “O Circo”, além de muitas outras informações sobre a produção, além de fotos da época. Ao todo, são 20 livros, com encarte especial e minuciosa pesquisa pela equipe do Grupo Folha. Um item indispensável na coleção dos admiradores da sétima arte.

Volume 7 da Coleção da Folha

 Referências

CHAPLIN, Charlie. Minha Vida. 15ª Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

ROBINSON, David. Chaplin: Uma biografia definitiva. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2012

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Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

9 comentários

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