Pastiche e postiço, ou o nada por um bigode

Texto de André Bazin, publicado em Esprit, em 1945, esse artigo faz parte de Qu´est-ce que le cinéma?, t.I, p.91-5

Para quem atribui à Carlitos, na ordem da mitologia e da estética universal, uma importância no mínimo equivalente à de Hitler na ordem da história e da política; para quem não vê menos mistério na existência desse extraordinário inseto preto e branco, cuja imagem assumbra há trinta anos a humanidade, que na do homem gestual que ainda obceca nossa geração, O grande ditador (1940) é de uma significação inesgotável.

Dois homens, de meio século para cá, mudaram a face do mundo: Gillette, inventor e divulgador industrial da navalha mecânica, e Charles Spencer Chaplin, autor e divulgador cinematógrafo do “bigode à la Carlitos”.

Sabemos que, a partir de seus primeiros sucessos, Carlitos suscitou diversos imitadores. Parodistas efêmeros cujo rastro só se conserva em raras histórias do cinema.

Um deles, entretanto, não figura no índice alfabético dessas obras. Sua celebridade, porém, não parou de crescer a partir dos anos 1932-3, alcançando rapidamente a do little Boy de Em busca do ouro (1925) e talvez ultrapassando-a se, nessa escala, as grandezas ainda fossem mensuráveis. Trata-se de um agitador político austríaco chamado Adolf Hitler. O espantoso é que ninguém enxergou a impostura, ou pelo menos a levou a sério. Carlitos, todavia, não se enganou. Deve ter imediatamente sentido no lábio superior uma estranha sensação, algo comparável ao rapto de nossa tíbia por uma criatura da quarta dimensão nos filmes de Jean Painlevé.

Naturalmente não estou afirmando que Hitler agiu de modo intencional. Pode ser, de fato, que só tenha cometido essa imprudência sob o efeito de influências sociológicas inconscientes e sem qualquer segunda intenção pessoal. Mas quando alguém se chama Adolf Hitler, devemos prestar atenção a seus cabelos e a seu bigode. A distração é uma desculpa tanto na mitologia quanto na política. O ex-pintor de parede comete então um de seus erros mais graves. Ao imitar Carlitos, dava-lhe um golpe que o outro não iria esquecer – e pelo qual iria pagar caro alguns anos mais tarde. Ao roubar seu bigode, Hitler entregara-se de pés e mãos atados a Carlitos. O pouco de vida que usurpara dos lábios do judeuzinho iria permitir a este, mais que o recuperar, em outras palavras, esvaziá-lo por inteiro de sua biografia em benefício não exatamente de Carlitos, mas de um ser intermediário, um ser, precisamente, de puro nada.

A dialética é sutil, mas irrefutável, a estratégia, invencível. Primeiro passo: Hitler pega o bigode de Carlitos. Segunda rodada: Carlitos recupera seu bigode, mas este não era mais apenas um bigode ao estilo de Carlitos, havendo se tornado, nesse interím, um bigode ao estilo de Hitler. Retomando-o, Carlitos conservava uma hipoteca da própria existência de Hitler. Arrastava com ele essa existência, dispunha dela o seu bel-prazer.

Com ele, criou Hinkel. Pois o que Hinkel senão Hitler reduzido à sua essência e provado de sua existência? Hinkel não existe. É um fantoche, uma marionete, no qual reconhecemos Hitler com seus bigode, sua estatura, os cabelos da mesma cor, seus discursos, sua sentimentalidade, sua crueldade, suas cóleras, sua loucura, mas numa conjuntura vazia de sentido, privada de qualquer justificação existencial. Hinkel é a catarse ideal de Hitler.

Carlitos não mata seu adversário pelo ridículo; quando tenta fazer isso, é verdade que o filme falha; ele o destrói recriando um ditador perfeito, absoluto, necessario, a respeito do qual somos absolutamente eximidos de qualquer engajamento historico ou psicológico. Vemo-nos na realidade livres de Hitler pelo desprezo e pela guerra, mas essa libertação implica, em seu próprio princípio, uma outra escravidão. Percebemos isso justamente no momento em que a incerteza da morte de Hitler ainda nos obceca. Só nos livraremos dele quando nos sentimos mais envolvidos a seu respeito; quando o próprio ódio não fizer mais sentido. Ora, Hinkel não nos inspira ódio, piedade, cólera, ou medo; Hinkel é o nada de Hitler. Ao dispor de sua existência, Carlitos restagou-a para destruí-la.

Falei até agora no absoluto. Infelizmente não é exato que Carlitos tenha sempre conseguido essa tranfusão de ser. Só a consegue perfeitamente, a meu ver, uma única vez, durante a dança com o globo terrestre. Aproxima-se dela durante o discurso em mínima fonética, mas, como nossa lembrança de Hitler em sua tribuna de Munique é mais forte que a paródia, ele desativa a operação. Pois, em certos domínios, Hitler imitara-se a si próprio com mais talento que Carlitos, conservando, além disso, a matriz de sua personalidade.

Nas montagens de Capra, Hitler tem incontestavelmente uma realidade mais ideal, menos acidental ainda que Hinkel. Observamos com clareza que o ridículo nada tem a ver com isso. Rimos de Hitler em Capra, mas esse riso não exclui nem nosso medo, nem nosso ódio: ele não nos liberta de nosso envolvimento. Logo, acho um erro supero que a fraqueza do filme resulte de seu anacronismo e que não possamos mais rir espontaneamente de um homem que tanto nos fez sofrer.

É verdade que em 1939-40, as gagas teriam parecido mais engraçadas, mas exatamente porque Carlitos erra o tiro, porque a paródia não trancede o ridículo, que ela inda permanece no nível em que Hitler pode defender sua existência contra Hinkel. Ela pode permanecer na zona de nossos sentimentos históricos: a da caricatura, do ridículo ou da ironia, mas pode se alçar até o Olimpo dos Arquétipos. Assim com Júpiter metamorfoseado em Diana desvia para si próprio os sentimentos da infa Calipso, Carlitos desvia para Hinkel nossa crença em Hitler. Tais transferências só são possíveis na confusão mitológica das aparências e do ser.

O artista é habitualmente um demiurgo da criação original. Fedra, Alceste ou Siegfried são definitivamente bem-vindos à existência, nenhum outro deus pode arrebatá-las. As referências de Carlitos a Hitler são um fenômeno excepcional, talvez único na história da arte universal. Carlitos buscou criar, com Hinkel, uma criatura não menos ideal e definitiva que aquelas de Racine ou Giraudoux, uma criatura independente inclusive da existência de Hitler, com uma necessidade autônoma. Hinkel, a rigor, poderia existir sem Hitler, uma vez que nasceu de Carlitos, mas é impossível para Hitler, por sua vez, impedir que Hinkel exista em todas as telas do mundo. É ele que se torna o ser acidental, contingente, em suma, alienado de uma existência de que o outro se alimentou, sem ter esse direito e, que a destruiu ao absrovê-la.

Essa cambalhota ontológica repousa em útlima análise no roubo do bigode. Considerem que O grande ditador teria sido impossível se Hilter fosse glabro ou se tivesse o bigode ao estilo Clark Gable. Nem toda a arte de Chaplin teria sido capaz de coisa alguma, uma vez que Chaplin sem seu bigode não é mais Carlitos – e seria preciso que Hinkel não fosse produto tanto de Chaplin quanto de Hitler, que fosse ao mesmo tempo ambos, para nada ser, sendo a exata interseção dos dois mitos que o aniquilam. Mossolini não é anulado por Napaloni, é apenas caricaturado; aliás, sua débil existência é tamanha que o faz morrer pelo ridículo. O caso de Hinkel é diferente; reside nas propriedades mágicas desse trocadilho sutil. Tudo isso seria inconcebível se Hitler não tivesse cometido a imprudência de se parecer com Carlitos exatamente por causa do bigode.

Não era o talento de mímico, tampouco o gênio de Chaplin que o autorizavam a realizar O grande ditador. Era apenas esse bigode. Carlitos esperou o tempo necessário, mas soube recuperar seu patrimônio.

Poder do mito: já o bigode de Hitler era de verdade!

Leitura Complementar:

O Grande Ditador, 1940. Direção de Charles Chaplin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Extraído de:

Charlie Chaplin, de André Bazin. Jorge ZAHAR Editor. Rio de Janeiro, 2000.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

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