Charlie Chaplin: O Pequeno Vagabundo

Mais de setenta anos após a sua última aparição no grande ecrã, o Pequeno Vagabundo, de Charles Chaplin, permanece como ícone máximo, não só do cinema, mas também do século vinte e reconhecido e adorado por todo o mundo. Se pode existir uma explicação para este sucesso único com um público universal, será certamente a sua capacidade de transpor para a comédia as ansiedades e preocupações fundamentais da vida humana – um reflexo das suas próprias experiências de vida. Nascido em Londres, filho de dois cantores do music hall, que se separaram quando ele ainda era um bebê, cresceu na miséria extrema, passando parte da sua infância em instituições para crianças destituídas. Contudo, quando tinha dez anos a sua sorte mudou radicalmente ao tornar-se um artista profissional. Trabalhos com grupos do music hall e uma oportunidade de trabalho de três anos em palco forneceram-lhe uma valiosa aprendizagem precoce na arte de representar. Os seus dotes foram aguçados pelos anos de trabalho com Fred Karno, o mais brilhante empresário de comédia de musc halls britânicos.

Durante uma digressão pelos circuitos americanos de vaudeville, foi descoberto e contratado pelos estúdios Keystone, de Mack Sennett. Rapidamente se apercebeu de que, para realizar completamente o seu próprio estilo de comédia os filmes, teria de ser o seu próprio realizador. Ele aprendeu a dominar a sétima arte com uma velocidade incrível, e após os primeiros três meses, já dirigia todos os seus próprios filmes. Continuamente em busca de maior independência, bem como de maiores salários, saiu da Keystone para as companhias cinematográficas Essanay e Mutual. Nos primeiros quatro  anos do grande ecrã, evoluiu do principiante despreocupado das comédias da Keystone, passando pela ironia e o sentimento, até chegar às obras primas da Mutual que incluem a The Pawnshop, Easy Street e The Immigrant.

Em 1918, um acordo com a empresa de distribuição First National permitiu-lhe o luxo de ter o seu próprio estúdio, concebido com o que havia de mais moderno na época, e com a sua própria equipe e elenco permanentes. Aqui ele converteu os horrores da Primeira Grande Guerra em comédia, com Shoulder Arms e interpretou as privações e ansiedades da sua própria infância em O Garoto (The Kid), onde encontrou o parceiro ideal em Jackie Coogan, de apenas 5 anos.

Em 1919, os quatro gigantes de Hollywood na época – Chaplin, Douglas Fairbanks, Mary Pickford e o realizador D. W. Griffith – formaram a United Artists, para distribuírem os seus próprios filmes. O primeiro lançamento de Chaplin sob a chancela da United Artists foi A Woman of Paris, um filme dramático concebido para a estrela Edna Purviance – a sua fiel atriz principal e amante ocasional, desde 1915 – no qual ele tinha apenas uma breve participação. Este filme brilhante foi uma revolução no estilo de comédia sofisticado, mas o único desastre de bilheteria de Chaplin. Foi rapidamente ofuscado pelo triunfo de A corrida do ouro (The Gold Rush), que demonstrava, uma vez mais, a crença de Chaplin de que a comédia e a tragédia nunca se encontram muito distantes: esta hilariante comédia foi inspirada pelas severas privações dos pesquisadores de ouro da década de 1890.

A chegada do cinema sonoro, em 1927, supôs para Chaplin um desafio maior do que para os outros realizadores. A sua pantomima muda tinha-lhe logrado uma audiência universal, que iria certamente estranhar ouvi-lo a falar em inglês. A resposta de Chaplin foi continuar a realizar filmes mudos – Luzes da cidade (City Lights, 1931) e Tempos modernos (Modern Times, 1936) – com a banda sonora apenas para os efeitos sonoros e o acompanhamento musical, composto por Chaplin, que ganhava, assim, um novo crédito para adicionar ao de produtor, realizador, argumentista e ator.

Em Tempos Modernos, Chaplin utiliza a arma da comédia para critica temas polêmicos da atualidade – como sejam a industrialização e o confronto entre o capital e o trabalho. Em O grande ditador (The Great Dictator, 1940) os seus alvos foram o fascismo e os seus líderes, os iminentes perigos da altura. Os críticos queixaram-se que o comediante estava a exceder as suas competências.

A sua amizade com intelectuais de esquerda, foi sempre alvo de desconfiança por parte da direita da política estadunidense. com a Guerra Fria e a perseguição de McCarthy à esquerda política, Chaplin tornou-se um alvo preferencial.

(…)

…deixou os Estados Unidos encontrando exílio permanente na Suíça. Em Londres realizou ainda mais dois filmes: Um Rei em Nova York (The King in New York), uma sátira à paranóia política americana e A Condessa de Hong Kong (Countess from Hong Kong). Infatigável até ao final, ele publicou dois volumes autobiográficos, compôs música para os seus filmes mudos e perto do fim ainda planejou outro filme. Morreu no dia de Natal, a 25 de Dezembro de 1977.

Texto extraído do volume CHAPLIN, da coleção Movie Icons, Taschen.

David Robinson, no livro Movie Icons – Chaplin, Taschen, 2006.

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Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

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