Raridade: UMA ENTREVISTA DE CHAPLIN

Navegando pelo mundo virtual, em busca de novas fatos acerca da vida e obra de Chaplin, encontrei uma raridade: Na versão on-line da Folha de São Paulo, deparei-me com uma reportagem de 05 DE MAIO DE 1954, envolvendo uma entrevista exclusiva com nada mais, nada menos, o criador do vagabundo mais famosos do mundo: Charles Chaplin.

O Almanaque Folha On-line tem o objetivo de resgatar reportagens, artigos, imagens e anúncios pitorescos e de valor histórico e cultural das páginas dos jornais do Grupo Folha, publicados desde 1921. Segue o artigo:

CURIOSAS DECLARAÇÕES DO GRANDE ARTISTA

UM LIVRO QUE JAMAIS SERÁ DADO A MAC CARTHY*

*Neste texto foi mantida a grafia original da época

O jornalista italiano Alfredo Paniucci, de “Epoca”, obteve em fins do mês passado uma entrevista de Chaplin – em sua vila de Corsier-Vevey, Genebra – que pode ser considerada sensacional. Correra uma noticia, na França e na Italia, que Chaplin, ao comemorar seu 65º aniversario, no dia 16 ultimo, receberia os representantes da imprensa daqueles dois paises para uma entrevista coletiva. Na realidade, tratava-se de mero boato. O grande ator nada havia marcado e foram numerosos os jornalistas que fizeram inutilmente a viagem, voltando apenas com algumas fotos da residencia de Chaplin e no maximo de um ou dois de seus filhos. Paniucci, entretanto, foi mais persistente. Insistiu, junto ao mordomo, para ser recebido. Este, após tenaz resistencia, comprometeu-se a falar com o criador de “Luzes da Ribalta”: se ele estivesse de bom humor, no dia seguinte, era provavel que concederia a entrevista. E o reporter italiano voltou, para conversar com Chaplin, dele obtendo declarações que, se não são novas, não deixam de ser curiosas.

Depois de descrever o aspecto da vila, as particularidades que pôde notar, na sala de espera, Paniucci, que é o primeiro jornalista a ser recebido por Chaplin na sua vila suiça, diz que ele lhe parece, em trajes esportivos, com um aspecto extraordinariamente juvenil. Seus olhos azuis, sobretudo, são sorridentes como os de um menino. Conduz o reporter a uma pequena colina nos fundos de sua vila, depois de recusar o chapéu, que lhe oferece sua esposa: “Não sou tão velho assim para necessitar de chapéu”, diz. E sai, quase correndo, acompanhado pelo reporter. Na colina, faz um gesto amplo com os braços, parecendo querer alçar voo e diz: “Deste ponto, domino o lago.”

Ambos regressam e Chaplin vai mostrar o quem possui na sua vila. Aponta para um espelho, “puro estilo Chippendale” e sobre uma escrivaninha o reporter observa apontamentos que acredita serem de um “script”. São folhas divididas ao meio, escritas do lado direito, ao passo que do esquerdo algumas notas apenas. Chaplin fala, mostrando suas famosas porcelanas, mas a atenção do jornalista é despertada por uns quadros abstracionistas.

Chaplin pergunta: “Gosta?” E acrescenta : “Para mim são profundamente antipaticos. Tenho-os na parede exclusivamente porque, vendo-os, saio desta sala, de que não gosto.” Mal termina a frase e abre uma porta que dá para o estudio, decorado de moveis austeros e escuros. As quatro paredes estão recobertas de livros. Poucos discos sobre a vitrola, entre os quais a “Nona” dirigida por Toscanini. Chaplin aponta para os livros, denotando orgulho. São todos luxuosamente encadernados. De uma estante tira uma edição de Shakespeare, 1700, impressa em Londres. O jornalista vê, nas estantes, obras de Thakerav, de Platão, Maupassant, Plutarco, Balzac, Dickens, Poe e Thomas Payne. Num angulo, descobre “Mein Kampf”, de Hitler. Chaplin exclama, sorrindo: “Não sou nazista, não. Li-o antes de realizar “O Grande Ditador”. Mac Carthy gostaria de possuir este livro. Mas não o darei, jamais.” E ante uma pergunta do jornalista, diz, sempre sorrindo, os olhos azuis exprimindo ironia: “A maior parte de meus livros são sobre psicologia. Gosto muito de estudar o proximo; gosto das ciencias ocultas. Ah! Se eu pudesse transformar-me em feiticeiro!”

Ambos voltam para a outra sala, já acompanhados de Oona. Na porta o jornalista quer dar passagem primeiro a Chaplin, mas este abre caminho e diz: “É inutil você querer ver minhas costas; não sou Marilyn Monroe.” E ri, gostosamente. Deixa-se cair numa poltrona e pergunta: “Nunca esteve em Hollywood, na California? Não? Pois não vá nunca para lá. Não vale a pena”. Ergue-se, põe a mão direita sobre o peito e levanta a esquerda, para recitar: “Moi, moi seul et c’est assez.” Inclina-se e acrescenta: “De “Medéia”, de Corneille”. Oana sorri e Chaplin, ao observá-la, continua: “Minha mulher quer voltar para a Italia. Tenho um desejo feroz de rever Florença e Veneza. Florença é uma cidade estupenda. Mas sabe onde eu gostaria de viver? Nos tropicos, em Singapura, em Java, em Bali. Pena que haja muitas moscas.” E, como se estivesse dando combate a uma mosca, faz um “gag” que o jornalista considera irresistivel. Mas aproveita o instante para fazer uma pergunta sobre o proximo filme de Chaplin. Ele agora parece irritar-se. Diz apenas: “Até agora não tenho nada de concreto. Posso dizer que não será uma tragedia como “Mr. Verdou” e “Luzes da Ribalta”, mas uma comedia moderna: um filme que focalizará os diferentes sistemas de vida dos americanos e dos europeus.” E ante uma nova pergunta de Paniucci, o genio diz: “Os americanos não me querem bem. Durante 30 anos me admiraram e depois passaram a odiar-me. Feriram-me profundamente.”

A esta altura, diz o reporter, alguns fotografos que permaneceram na cidade já estavam entrando na vila de Chaplin. Eles entram e batem chapas, perturbam a entrevista. O mestre ordena uisque para todos, e grandes doses são servidas. E Chaplin aproveita para retirar-se da sala.

 

Fonte: Folha OnLine

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Sobre Hallyson Alves

Sou historiador e psicólogo. Desde 2007 pesquiso sobre Charles Chaplin, ícone do cinema mundial, sendo este a principal inspiração para a minha dissertação de mestrado. Foi com o intuito de compartilhar um pouco desta pesquisa, que criei o Blog Chaplin, o primeiro blog com conteúdo exclusivo sobre o artista, em língua portuguesa. Além disso, venho construindo o blog Psicologia e Sentido, espaço reservado para conteúdos relacionados à busca humana pelo sentido da vida.

4 comentários

  1. SIR CHAPLIN

    O que dizer de você
    quando tudo está dito?
    O que falar para você
    Quando tudo está falado,
    Vagabundo amado?

    Da perfeição de um gênio,
    da hilaridade de sua arte,
    a nossa tela de saudades…
    No fundo de todo mundo
    há mais que admiração e respeito
    pelo seu jeito desajeitado tão perfeito.

    Nossa mente tem conhecimento
    de seu chapéu voando,
    cabelos ao vento
    e as abas do paletó flutuando…

    A pantomina mais prodigiosa
    vimos em suas mãos,
    lemos em seu rosto,
    rimos com o coração.

    Seu método de criar lágrimas
    e semear sorrisos é sua grandeza maior
    que encantou décadas de risos.
    Do erro nascia o sucesso,
    as surpresas e os contrastes.

    A eterna luta entre o bem e o mal,
    o rico e o pobre,
    o cheio de sorte
    e o que não tinha nenhuma.

    Agora, quando nosso mundo,
    a nossa vida, a nossa civilização
    se esboroar sob nossos pés,
    quem correrá o risco para salvar a alegria
    e as lágrimas como antídoto contra o ódio e o horror
    e devolver aos nossos espíritos, a fé no sorriso?

    Quem, Carlitos?
    Você soube fazer o mundo ser melhor,
    se encantar, rir e chorar.

    Regina Rousseau

  2. Este blog está relmente maravilhoso dignissíma homenagem a esse homem que é um dos maiores gênios da humanidade.
    continue com este trabalho lindo sobre este homem tão fascinante.
    BEIJOS!!!

  3. Ah..não sei, que eu sei é que tá muito bom essa blog, achei coisas interessantíssimas sobre Chaplin,
    adoorei o texto Quando eu Me Amei de Verdade, muito bom *_*
    que o blog continue assim por muito e muuito tempo

    abraço!

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